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janeiro 7, 2008
Ficções
Jair e a Esperança
Se por essas bandas aconteceu alguma coisa de extraordinário? O que eu vou te dizer? Você já vai desconfiar que eu não tenho idade pra ter visto a chegada dos gaúchos, quando fincaram raiz essas fazendonas de gado todas aí, quando aparecia caboclo de garganta cortada por causa das disputas de terra com muito mais freqüência que hoje em dia. Muito menos pra ter visto o tempo em que isso tudo aqui era mato cerrado cercando as tribos dos índios e a vila de Esperança.
Assim, fica um tanto limitada a fatia de tempo donde vou buscar o tal acontecimento extraordinário. Mas eu sei bem qual é. E, se pensar ligeiro, dá pra responder numa enfiada só essa pergunta e mais aquela outra que você fez inda agorinha. Se cada homem tem seu destino.
Arrisco dizer que é não só o acontecimento mais importante aqui de Nossa Senhora da Esperança, mas mesmo de toda a região, que vai do Pirajuíra até o Itanhonha, e não foi nada menos que o dia em que nós jogamos na Copa São Paulo de Futebol Júnior. Sim senhor, eu inclusive. Aconteceu assim.
Aqui atrás dessa rodoviária tem aquele terrão ali. É onde, até hoje em dia, treina o Esperança Futebol Clube. Ele sai por aí jogando nuns campos tão ruins ou piores que esse. Não tem torneio muito regulamentado não. Tem mais é desafio de cá pra lá, de lá pra cá.
Em 99 a gente vivia tirando uns pegas com os índios da reserva. Eu digo a gente querendo dizer a molecada, que os mais velhos tinham outras diversões. Cê sabe, a reserva é só aí atravessando a estrada, mas pra nós aqui é meio que outro mundo. Eles lá, nós cá. Eles não namoram as chinas de cá, a gente não se engraça com as de lá. E, de quando em quando, dava de acontecer uns embates. Isso é querendo falar bonito, que eles são ruins de doer. Perdiam quase sempre. Só um deles tinha calçado, pra você ver, e era um sapatão de couro daqueles social, sabe?, um ou dois números maior que o pé do índio. Aquilo na canela doía, vou te enganar não. Eles perdiam quase sempre.
Esse quase sempre não era sempre porque vez ou outra vinha o Jair jogar pra eles e aí a coisa ficava parelha. Esse tipo era um cafuzo que morava na beira do rio, quase na Santa Helena. O pai dele tinha sido da bandidagem local e, como quase todo bandido, tinha morrido cedo. O moleque se criou faltando pouco pra ser sozinho mesmo, que a mãe. Bom, falar de mãe é pecado. Mas essa aí, você sabe do que eu tô falando. O que interessa aqui é que o tal Jair era ligeiro feito sei lá o que, e liso feito sabonete. Passava pela gente duma tal maneira que dava vontade de sentar e ficar assuntando como é que ele tinha conseguido. E uma vez ele tava no bar do Virgulino quando passaram uns gols da rodada e ele viu um do Corinthians, quando o Marques passou de chaleira pro Marcelinho. Xi, inventou de fazer igual o tal do Jair e aquilo se tornou a sensação. Vinha gente ver o garoto jogar com a gente.
Pois então. Chegou aí o prefeito e disse que o primo dele, que era deputado, tinha arranjado uma vaga pro Esperança na Copa São Paulo de Juniores. Mas não do clube em si, e sim de um tipo de seleção do lugar, juntando índio e o resto. Era um jeito de garantir que o Jorge ia com a gente pra São Paulo. Ônibus, uniforme, tudo, quem pagou foi o Ramiro Gertz, o dono da fazenda Santa Helena. É, ele não gosta de futebol, ele odeia futebol, mas parece que ele devia uns favores pro prefeito, que, por seu lado, achava que seria boa coisa, em termos de futuro político, levar o nome de Nosssa Senhora da Esperança pra fora
Rapaz, ninguém pregou o olho. Jogar a Copa São Paulo significava pra nós, primeiro: sair, muitos pela primeira vez, pra além do Itanhonha; segundo: ir até São Paulo, um tipo de centro do mundo; terceiro: quem sabe até aparecer na televisão. A gente era parado na rua, o povo desejava sorte. Durante três meses não se falava de outra coisa. Eu cheguei a ser parado por uma velhinha que me pediu pra eu me certificar se o Silvio Santos usa peruca mesmo, caso encontrasse com ele no tal de São Paulo.
Mas pro Jair era tudo isso e uma coisa mais: ele tinha uma esperança secreta de não voltar nunca mais. Se alguém do grupo podia alimentar esse tipo de fantasia era ele, disparado o melhor de todos. A realidade me obriga dizer: era o único que tinha algum potencial. O que é verdade, verdade é. E o Jair sabia disso e sabia que, dum jeito ou de outro, podia bem ser que alguém o visse e o chamasse pra jogar nalgum canto. Quem sabe num time do Rio?
Eu disse que a esperança era secreta, mas nem tanto assim. Ele me disse um dia enquanto a gente viajava no ônibus e eu puxei papo. Você precisava ver o olho do guri como brilhou quando o Pipo, aquele gordinho da prefeitura, que era o técnico, disse que a gente tava no grupo do América mineiro. Pô, o América era um time que a gente já tinha ouvido falar. Quem sabe a partida não era televisionada?
Eu tava bem de frente pro Jair e vi como o olho dele brilhou, e brilhou também quando ele me segredou aqueles planos todos. No resto do tempo, contudo, ele ficou curtindo a dele. Só saia do casulo pra dar esporro na gente quando alguém errava um passe nos treinos. A coisa tinha que acontecer direito.
Fomos parar numa cidade chamada Dracena. Chegamos na véspera do primeiro jogo, a gente tava esgotado. Ficamos hospedados numa escola municipal, o banheiro só saía um fiapinho de água. Sei não se não foi de propósito que cortaram a água, porque afinal de contas, o Dracenense tava no nosso grupo.
Foi com eles o primeiro jogo. E o fato é que a gente não era um time. O Pipo era uma merda de técnico ruim, ele só sabia gritar “compacta! Compacta!” lá do banco dele, e a gente nem sabia o que significava “compacta”. Ele era o técnico porque sabia de cor a escalação do Flamengo de 78 ou 80, sei lá, ele vivia repetindo. E, com isso, assumia ares de entendido.
A gente não tinha chance nenhuma, mesmo contra o Dracenense, que era outra droga, mas parecia treinar direitinho há mais tempo. Só que o Jair resolveu a parada. Eles já tinham posto a bola na trave e o centro-avante deles perdeu um gol feito na cara do nosso goleiro. Mas nessas o Jair conseguiu escapar do marcador com a puxada de chaleira, gingou prum lado, foi pro outro, fez que ia passar pro Dentinho que se esgoelava pedindo a bola na ponta esquerda e aí ele deu um chutaço inesperado de fora da área e a bola entrou direitinho na gaveta. Eu era zagueiro pelo lado esquerdo, então fui um dos últimos a chegar no bolo pra comemorar. Eu cheguei por último e vi bem o Jair, tentando fugir dos abraços e olhando pra arquibancada. Me pareceu que tentava ver quem ali poderia ser um olheiro.
Acabou o primeiro tempo um a zero pra gente. A torcida local xingando e vaiando. O resto do jogo foi chutão pra todo lado e a gente conseguiu segurar o resultado.
O segundo jogo era contra o América. Se a gente ganhasse, estava garantido na próxima fase, que ia ser em Campinas e que teria o São Paulo ou o Cruzeiro. Lá na escola municipal, onde a gente tava acampado, tinha um tipo dum quiosque com telhado de palha e era lá que a gente se enfiava pra ficar delirando. A gente esfregava as mãos. Jogar contra o São Paulo! O Jair, nessas horas, ficava na dele. Quietão. E eu não arrisco dizer o que passava pela cabeça dele.
Mas parece que alguém orientou o time do América sobre o Jair. Logo no comecinho do jogo, um zagueiro deles, que era magricelo e cheio de espinha, de jeito meio afeminado mas que batia feito vale tudo, chegou junto do Jair. Deu-lhe um rapa que levantou o moleque bonito. Depois que o juiz deu as costas, ele encostou atrás do Jair e disse que ele era um índio desgraçado, que nunca devia ter saído do meio do mato, que se ele se engraçasse ele ia quebrar as duas pernas dele e ele não ia jogar nem dominó nunca mais. Sei lá por que ele falou essa do dominó. Mas falou, eu ouvi.
Eu conhecia o Jair e sabia que ele não ia se intimidar com isso, e acho mesmo que intimidar não intimidou, mas o fato é que a droga do perobo mineiro parou o Jair em todas as jogadas que ele tentou. A gente não tinha nenhum cobrador de falta bom, então não aproveitou as muitas faltas que tivemos na entrada da área. Mas não foi só na porrada que ele ganhou não. Tirou a bola limpinho algumas vezes sim.
Aos quinze do segundo tempo, o Jair me recebe uma bola enfiada do jeito que ele gostava. Já tava um a zero para eles, a essa altura. O Jair tinha tentado empatar de tudo que era jeito, mas nada. Dessa vez ele tinha dois zagueiros e o goleiro entre ele e o gol e ele parece que respirou fundo, como que dizendo “é agora!”, antes de dar uma das arrancadas ligeiras dele. Entortou o primeiro zagueiro lindo e tocou pra frente. O segundo zagueiro era o tal que eu já falei. O Jair jingou prum lado, puxou pro outro, mas o desgraçado adivinhou e botou o pé na frente na hora exata, tirou a bola e saiu jogando, com ar de muito sossegado. O Jair fez uma cara de desolado; parecia que tinha sido o limite. Tanto que saiu correndo feito uma besta e enfiou-lhe um pontapé no meio do joelho, por trás.
Pronto. O Jair foi expulso. Naquela tarde a gente levou mais três gols e, dois dias depois, quando jogamos com o Avaí, perdemos de cinco a zero, porque a moral do time sem o Jair já estava na lona.
Não lembro muito bem do Jair nesses últimos dias de sonho de disputar uma Copa São Paulo. Sei não, apaguei essas imagens da memória. Mas sei bem do Jair depois que chegou de volta a Nossa Senhora da Esperança. Deu de beber. Engravidou uma índia com cara de menina. Se meteu em confusão, engordou, tentou a vida como pedreiro e morreu numa briga de bar, na frente da filha de dois anos.
Por essas e algumas outras eu te diria que não, o homem não tem um destino não. Às vezes ele se resigna com o fim mais óbvio, às vezes não. Às vezes parece que é forçado a se conformar. Ou às vezes ele escolhe o óbvio por sentir que o que foge disso é proibido.
Eu tô confuso, eu sei, me desculpa. Posso te servir outra cerveja? Ah, seu ônibus chegou. Boa viagem, então, compadre. E, se quiser um dia consultar os, como é que se diz? anais, lá da Copa São Paulo, faz isso. Meu nome tá lá. Renato Bomba, ZE. ZE de zagueiro Esquerdo. Vai com Deus.
Posted by marcol at janeiro 7, 2008 7:56 AM
Comments
Pô, Marcão, excelente a história contada pelo Renato Bomba.
Sou desses caras que assiste até jogo de várzea e este foi mais um atrativo qua a história teve para mim. A várzea brasileira tem um monte de Jair. Sempre com o número dez, sempre reclamando dos passes dos outros, quase sempre resolvendo os jogos (ou não, pode ter outro dez do outro lado) e com reações histéricas como acertar o joelho do zagueiro bom.
Só fiquei confuso sobre o dominó, mas como também ficaste.
Gostei muito.
Abraço, rapaz. (Esse ano a gente à São Paulo!)
Posted by: Milton Ribeiro at janeiro 7, 2008 8:45 AM