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dezembro 21, 2007
Sobrefé
O natal e a solidão
O primeiro dia de Adão deve ter sido dos mais interessantes. Imaginar o que deve ter sido seu primeiro pensamento é tarefa complicada. O único ser humano que começou assim, adulto. O único que começou assim, abrindo os olhos e tendo como primeiro objeto de sua visão o próprio Deus. Adão passou a percorrer o Éden, nominando cada animal. Também é difícil imaginar se ele já tinha a capacidade de pasmar com a multiplicidade de cores, texturas, formatos, pelagens e plumagens que deve ter desfilado à sua frente ou se, por ser tudo novo, tratou a tudo como relativamente normal. Mas uma coisa sabemos: ele sentiu solidão, inaugurando aquele que é possivelmente o mais universal dos sentimentos humanos.
Ao final de cada dia da criação, o relato bíblico dá conta de que Deus parou para contemplar o que havia feito. E, depois da contemplação, veio o vaticínio: era tudo muito bom. Tudo agradava a Deus, tudo havia saído conforme Ele havia projetado. A primeira e única expressão distinta, de desagrado do Criador, está registrada em Gênesis 2:18: “Não é bom que o homem esteja só”. Solidão, portanto, era a primeira e única coisa que não estava bem na Criação de Deus.
Adão deve ter visto todos os animais aos pares e, assim, e deve ter pressentido que lhe faltava algo. Podemos entrever o fato pelo que ele disse quando acordou da anestesia geral aplicada por Deus e viu Eva, linda e esplendorosa à sua frente. Contrariando Freud e seu “tudo é sexo”, Adão não deixou sair nenhuma interjeição de pasmo pela beleza ou por qualquer atributo, digamos, estético de sua companheira. Sua exclamação foi de uma outra natureza. Veja: “esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne” (Gênesis 2:23)! Adão percebeu que sua solidão havia acabado, havia ali à sua frente alguém com quem podia se identificar, alguém que ele podia chamar de companheira.
De modo análogo, a solidão universal da raça humana um dia terminou. O Criador assumiu a nossa forma. Naquela estrebaria em Belém o ser humano viu que não estava sozinho, havia ali o Deus feito “osso dos nossos ossos e carne de nossa carne”. Emanuel, o Deus conosco, mesmo ali, com os olhinhos ainda fechados, o choro agudo, a pele suja de sangue, as mãos minúsculas, exalando por todos os poros uma impressionante fragilidade, era o que nos faltava. Nossa única - nossa maior - carência estava suprida.
É porque Deus não suporta nossa solidão que comemoramos o natal. E embora agreguemos à data uma porção de coisas que não têm absolutamente nenhuma relação com o que deveria ser a verdadeira fonte de nosso júbilo (presentes, comilança, enfeites), é, de modo emblemático, a época em que buscamos a todo custo não estar sozinhos, rever os que vemos pouco, sorrir – às vezes timidamente, às vezes hipocritamente – uns para os outros.
Suponho que Adão não hesitaria em apontar ao momento em que se encontrou com Eva como aquele no qual começou a viver de fato. Por que, então, não aproveitamos para, ao nos encontrar com o Deus embrulhado em humildes panos da manjedoura, imitarmos Adão?
Posted by marcol at dezembro 21, 2007 2:44 PM
Comments
O homem nasce só e morre só. Já ouvi esta frase, talvez paupérrima em filosofia, mas não deixa de estimular toda uma gama de soluções: como sair da solidão ou não se deixar acabrunhar por ela? O 'nascimento' de alguém é anúncio de que um 'outro' existe. Seja companheiro ou inimigo, passamos a existir na medida em que somos visto pelo outro. Daí, falamos, projetamos, imaginamos, criamos os símbolos, a linguagem. Tudo para preencher o abismo que existe entre o 'um' e o 'outro'... Por isso digo: "Natal são muitos".
Posted by: Cáudio Costa at dezembro 26, 2007 1:17 PM