« Ludopédio | Main | Sobrefé »

dezembro 14, 2007

Sobrefé

Garrafas térmicas

Eu não sabia muito bem o tamanho exato de meus braços e pernas. Acho que essa pode ser a explicação para a enorme quantidade de copos de leite que eu derrubei sobre a mesa ou – pior - no chão, a quantidade absurda de outros utensílios domésticos que quebrei, as muitas vezes que fraturei ossos e, sobretudo, o número expressivo de garrafas térmicas que deixei escapar das mãos.

As garrafas térmicas merecem menção assim, à parte, porque poderiam ser para mim o símbolo de um grande trauma. Todos os domingos, meus pais pulavam cedo da cama, arrancavam a mim e a meus dois irmãos das nossas e davam início a uma frenética preparação; em pouco tempo estávamos todos de shorts e camisetas, as raquetes de tênis e latas de bolinhas a postos, as bolas de futebol e de vôlei na mão, as mochilas com sungas e toalhas de banho dispostas e a cesta com o almoço pronta. Tudo pronto, aboletávamo-nos antes das oito da manhã no Passat e rumávamos, ouvindo no rádio as músicas de Ray Connif que meu pai não largava, para um clube de campo em Itapecerica da Serra, no extremo sudoeste de São Paulo, aonde passávamos o dia.

As garrafas térmicas eram um quesito importante da parafernália que carregávamos, porque no final do dia, antes de tomarmos o caminho de volta, minha mãe fornecia para os amigos o café com leite que acompanhava o famoso bolo dela. Ao chegarmos em casa, contudo, era preciso transportar toda a bagagem do carro escada acima, da garagem para nossa casa, e meus pais faziam questão de que todos colaborassem.

Ainda lembro daquele domingo, quando minha mãe distribuía os objetos do porta-malas entre os filhos. Mochila para um, raquetes para outro, e os próximos da fila eram a garrafa térmica e eu. Ela hesitou muito antes de me estender a garrafa térmica. Eram objetos caros e extremamente frágeis àquela época e ela seguramente rememorava as duas ou três que eu já havia mandado melancolicamente para o lixo. Eu sabia o que significava aquele momento. Sabia exatamente que mais que todos os copos (mas menos que os ossos, felizmente), eram as garrafas térmicas que minha mãe mais lastimava. Lembro de minha sensação de expectativa: ela vai confiar em mim ou não? Na verdade a pergunta poderia ser mais acertadamente traduzida assim: seria eu ainda merecedor de alguma confiança?

Eu não segurei aquela garrafa; eu literalmente a abracei. Foi com a respiração presa que comecei a galgar aqueles degraus. Minha concentração e cuidado poderiam ser comparados aos do personagem de Tom Cruise em Missão Impossível invadindo o Pentágono. Enfim, atingi o topo da escada. Já experimentando o sabor inigualável da vitória, dei meus últimos triunfantes passos rumo à porta da sala.

Mas eu havia esquecido um pequeno, um minúsculo, um quase inexistente degrauzinho de mármore no sopé da porta. Aquela garrafa térmica que minha mãe amava desbragadamente, teve o mesmo triste destino de todas as anteriores que me haviam passado pelas mãos.

Às vezes acho que teria sido melhor ter deixado aquela garrafa térmica cair logo no primeiro degrau da escada, porque a sensação de fracasso e decepção de falhar assim, quando já saboreava o êxito longamente ansiado, foi dolorosa demais.

Mas outras vezes eu acho que foi melhor assim mesmo. Porque, se eu não tivesse falhado exatamente da forma como falhei, eu não teria ocasião de experimentar e nem precisaria da mais sublime das coisas: graça. A graça que minha mãe me estendeu aquele dia e o resto de minha vida inteira, sem o que eu nada seria.

Assim, não foi difícil para mim entender mais tarde o posicionamento da graça como sendo o elemento crucial de nossa salvação: “Porque, pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Efesios 2:8). Continuo atônito, mas compreendo, porque já fui alvo da graça, e ela me transformou.

Posted by marcol at dezembro 14, 2007 11:17 AM

Comments

Lindo de dar inveja, Marco.
Um Natal e ano novo cheios de graça pra você e família.

Posted by: adelaide at dezembro 20, 2007 6:47 PM

Eu tenho uma parecida!

Desculpa ocupar esse espaço com se fora um mini blog meu, Marcão!

Uma vez eu quebrei uma coisa. não lembro o quê. Minha mãe ia chegar e sem dúvida, ia ficar fula. E agora? Esperei e esperei, e quando ela chegou, chamei pras conversas. Contei tudo. Fui eu! O resultado? Talvez o mesmo sentimento de graça, sei lá, mas com o gosto a mais de eu ter confessado.

É por essas e outras que depois dessas, nunca tive medo de assumir o erro por alguma rata que tenha feito. Mas é claro, levo sempre em mente o 11° mandamento: cuideis para que, se eventualmente sucumbires aos ditames acima, não sejais pego em flagrante. Amén!

Posted by: Hemeterio at dezembro 19, 2007 4:49 PM

Extendeu -> estendeu.
Agora, fora de análises mais profundas, talvez desse uma boa vídeo-cassetada. :)

[]´s

Posted by: Baiano at dezembro 17, 2007 10:58 PM

Bacana... me lembrei do dia que subi na cbr do meu pai, coisa que nunca fazia... nunca! se,pre tive medo que as motos caissem quando eu estava em cima... mas pq eu, uma criança magricela que era, teria peso pra derrubar uma moto grande daquelas?? afff... nem preciso dizer o que aconteceu né?

Adorei o texto, nem lembro mais como cheguei aqui, mas vou voltar outras vezes! bjo bjo

Posted by: Rita! at dezembro 17, 2007 2:18 AM

De longe o melhor texto que já li no seu blog. E um do smelhores que já li na vida, emocionante! Parabéns.

Posted by: Alê Spissoto at dezembro 16, 2007 9:54 AM

Post a comment




Remember Me?


Type the characters you see in the picture above.