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dezembro 28, 2007

Sobrefé

Fim da viagem

(de tudo que escrevi, provavelmente este seja meu texto predileto. Tem já possivelmente uns 8 ou 9 anos. Dei uma atualizada nele. Me pareceu uma mensagem adequada ao momento. Primeiro, porque o momento é de olhar para trás - e isso pode ser muito saudável, mas pode também, em alguns casos, desanimar. Podemos estar sentindo a fé perder a cor e o viço, comida pelas coisas do dia-a-dia. Segundo, porque o momento é de olhar para frente. E pra cima, de onde um dia uma pequena nuvem surgirá. E eu não quero perder isso por nada.)

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Peguei um ônibus pra um lugar que eu nunca tinha ido. A pessoa que me chamou deu indicações sobre aonde eu teria de descer. Disse para eu ficar muito atento na janela. Disse que a partir do momento em que a paisagem estivesse ficando mais violenta, com guerras e rumores de guerras, com fome, com pessoas gritando "paz, paz" mas com tiros atrás de si, com desastres naturais, com gente correndo de um lado para outro atrás de conhecimento, com união de velhos inimigos e coisas assim, era melhor que eu não pegasse no sono, ficasse de pé, perto da porta, porque ela se abriria de repente, e seria minha única chance de descer no ponto certo.

Lá fui eu. Estava dando um sono danado, quase adormeci. Mas olhando pela janela percebi que a coisa estava mais pesada do que há algum tempo. Vi uns católicos e uns luteranos apertando as mãos sorridentes e assinando um papel muito curioso. Vi um avião cheinho caindo no mar. Outros aviões chocando-se contra prédios enormes, causando muita dor e morte. E aviões caindo sobre prédios e se chocando no ar. Vi um maluco com uma metralhadora entrando num cinema. Vi amigos meus sendo seqüestrados, espoliados, injustiçados ou com casamentos arruinados. Vi uma correria danada de gente atrás do padre Marcelo, outras atrás do Pr Caio Fábio, do bispo Macedo, outras atrás do pr. Bullón, e também vi gente muito compenetrada tentando entender a Bíblia ao lado de gente jogando búzios, consultando espíritos, lendo o livro dos mórmons. Em volta havia muita gente rindo para a televisão enquanto a loira da vez rebolava.

Vi que havia uma porção de gente jogando futebol por salários estratosféricos, fazendo gol de mão, ganhando jogos nos tribunais esportivos, dando cotovelada no adversário enquanto a torcida quebrava as cabeças uns dos outros. O mesmo acontecia na quadra de basquete que passava e na quadra de vôlei. Vi que as pessoas na rua pareciam todas angustiadas, que muita gente só parecia querer tirar vantagem de tudo, e políticos com aparência de piedade mas negando sua eficácia. E sendo absolvidos, claro. Vi índios se suicidando, meninas grávidas, meninas prostitutas, meninos assassinos, meninos assassinados embaixo das pontes. Vi gatos brilhando no escuro e ovelha nascida em um vidrinho. Vi os Estados Unidos entorpecidos com o sucesso e com a abastância, dizendo não pro protocolo de Kyoto enquanto adolescentes levavam metralhadoras pra escola. Vi massacre no Timor Leste. No Iraque. Na Chechênia. Vi chacina na periferia. Vi divórcio e desamor. Vi festa de aniversário milionária para cachorro, vi homem cortando a mão pra ganhar seguro, vi que não havia afeto. Vi ondas gigantescas arrasando países, terremoto e ciclone em meu país, enchente e seca se alternando.

Vi que não havia esperança nos olhos das pessoas.

Em meio a tudo isso o sono ainda era muito grande, a vontade de me acomodar também, o banco estava gostoso, o ônibus roncava suave e monótono. Mas eu lembrei do que a pessoa que me havia chamado dissera. Então eu levantei e fiquei de olho na porta. Como eu conhecia essa Pessoa, sabia que quando a porta se abrisse, o lugar seria muito lindo, distante daquelas visões paradoxais que me deixavam perplexo e triste. Ela estaria lá no ponto me esperando. E sorrindo. E eu não queria perder o ponto por nada.

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Um grande ano para todos nós. Grande, no sentido mais acertado, ou seja, com o tipo de grandeza certo.

Posted by marcol at 9:01 AM | Comments (1)

dezembro 26, 2007

Crónicas

Dia 26

No caminho pro trabalho, ia costurando barbaramente, fechando os motoqueiros. Só parava de sorrir quando percebia que alguém estava olhando pra ele; então, colocava no lugar uma carranca.

Na portaria do prédio, nem olhou para a porteira. O tiozinho da faxina, então, ele fez questão de esbarrar sem um mero olhar que suavizasse a grosseria do ato.

Não deu bom dia a ninguém, desancou publicamente o estagiário que atrasara exatos seis minutos e fez questão de ir almoçar sozinho.

Sorvia no marasmo do dia a alegria de ser dia 26 de dezembro e de poder compensar o quanto pudesse o excesso de ternura e bons sentimentos que fora obrigado a incorporar até à véspera.

Posted by marcol at 1:19 PM | Comments (1)

dezembro 21, 2007

Sobrefé

O natal e a solidão

O primeiro dia de Adão deve ter sido dos mais interessantes. Imaginar o que deve ter sido seu primeiro pensamento é tarefa complicada. O único ser humano que começou assim, adulto. O único que começou assim, abrindo os olhos e tendo como primeiro objeto de sua visão o próprio Deus. Adão passou a percorrer o Éden, nominando cada animal. Também é difícil imaginar se ele já tinha a capacidade de pasmar com a multiplicidade de cores, texturas, formatos, pelagens e plumagens que deve ter desfilado à sua frente ou se, por ser tudo novo, tratou a tudo como relativamente normal. Mas uma coisa sabemos: ele sentiu solidão, inaugurando aquele que é possivelmente o mais universal dos sentimentos humanos.

Ao final de cada dia da criação, o relato bíblico dá conta de que Deus parou para contemplar o que havia feito. E, depois da contemplação, veio o vaticínio: era tudo muito bom. Tudo agradava a Deus, tudo havia saído conforme Ele havia projetado. A primeira e única expressão distinta, de desagrado do Criador, está registrada em Gênesis 2:18: “Não é bom que o homem esteja só”. Solidão, portanto, era a primeira e única coisa que não estava bem na Criação de Deus.

Adão deve ter visto todos os animais aos pares e, assim, e deve ter pressentido que lhe faltava algo. Podemos entrever o fato pelo que ele disse quando acordou da anestesia geral aplicada por Deus e viu Eva, linda e esplendorosa à sua frente. Contrariando Freud e seu “tudo é sexo”, Adão não deixou sair nenhuma interjeição de pasmo pela beleza ou por qualquer atributo, digamos, estético de sua companheira. Sua exclamação foi de uma outra natureza. Veja: “esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne” (Gênesis 2:23)! Adão percebeu que sua solidão havia acabado, havia ali à sua frente alguém com quem podia se identificar, alguém que ele podia chamar de companheira.

De modo análogo, a solidão universal da raça humana um dia terminou. O Criador assumiu a nossa forma. Naquela estrebaria em Belém o ser humano viu que não estava sozinho, havia ali o Deus feito “osso dos nossos ossos e carne de nossa carne”. Emanuel, o Deus conosco, mesmo ali, com os olhinhos ainda fechados, o choro agudo, a pele suja de sangue, as mãos minúsculas, exalando por todos os poros uma impressionante fragilidade, era o que nos faltava. Nossa única - nossa maior - carência estava suprida.

É porque Deus não suporta nossa solidão que comemoramos o natal. E embora agreguemos à data uma porção de coisas que não têm absolutamente nenhuma relação com o que deveria ser a verdadeira fonte de nosso júbilo (presentes, comilança, enfeites), é, de modo emblemático, a época em que buscamos a todo custo não estar sozinhos, rever os que vemos pouco, sorrir – às vezes timidamente, às vezes hipocritamente – uns para os outros.

Suponho que Adão não hesitaria em apontar ao momento em que se encontrou com Eva como aquele no qual começou a viver de fato. Por que, então, não aproveitamos para, ao nos encontrar com o Deus embrulhado em humildes panos da manjedoura, imitarmos Adão?

Posted by marcol at 2:44 PM | Comments (1)

dezembro 14, 2007

Sobrefé

Garrafas térmicas

Eu não sabia muito bem o tamanho exato de meus braços e pernas. Acho que essa pode ser a explicação para a enorme quantidade de copos de leite que eu derrubei sobre a mesa ou – pior - no chão, a quantidade absurda de outros utensílios domésticos que quebrei, as muitas vezes que fraturei ossos e, sobretudo, o número expressivo de garrafas térmicas que deixei escapar das mãos.

As garrafas térmicas merecem menção assim, à parte, porque poderiam ser para mim o símbolo de um grande trauma. Todos os domingos, meus pais pulavam cedo da cama, arrancavam a mim e a meus dois irmãos das nossas e davam início a uma frenética preparação; em pouco tempo estávamos todos de shorts e camisetas, as raquetes de tênis e latas de bolinhas a postos, as bolas de futebol e de vôlei na mão, as mochilas com sungas e toalhas de banho dispostas e a cesta com o almoço pronta. Tudo pronto, aboletávamo-nos antes das oito da manhã no Passat e rumávamos, ouvindo no rádio as músicas de Ray Connif que meu pai não largava, para um clube de campo em Itapecerica da Serra, no extremo sudoeste de São Paulo, aonde passávamos o dia.

As garrafas térmicas eram um quesito importante da parafernália que carregávamos, porque no final do dia, antes de tomarmos o caminho de volta, minha mãe fornecia para os amigos o café com leite que acompanhava o famoso bolo dela. Ao chegarmos em casa, contudo, era preciso transportar toda a bagagem do carro escada acima, da garagem para nossa casa, e meus pais faziam questão de que todos colaborassem.

Ainda lembro daquele domingo, quando minha mãe distribuía os objetos do porta-malas entre os filhos. Mochila para um, raquetes para outro, e os próximos da fila eram a garrafa térmica e eu. Ela hesitou muito antes de me estender a garrafa térmica. Eram objetos caros e extremamente frágeis àquela época e ela seguramente rememorava as duas ou três que eu já havia mandado melancolicamente para o lixo. Eu sabia o que significava aquele momento. Sabia exatamente que mais que todos os copos (mas menos que os ossos, felizmente), eram as garrafas térmicas que minha mãe mais lastimava. Lembro de minha sensação de expectativa: ela vai confiar em mim ou não? Na verdade a pergunta poderia ser mais acertadamente traduzida assim: seria eu ainda merecedor de alguma confiança?

Eu não segurei aquela garrafa; eu literalmente a abracei. Foi com a respiração presa que comecei a galgar aqueles degraus. Minha concentração e cuidado poderiam ser comparados aos do personagem de Tom Cruise em Missão Impossível invadindo o Pentágono. Enfim, atingi o topo da escada. Já experimentando o sabor inigualável da vitória, dei meus últimos triunfantes passos rumo à porta da sala.

Mas eu havia esquecido um pequeno, um minúsculo, um quase inexistente degrauzinho de mármore no sopé da porta. Aquela garrafa térmica que minha mãe amava desbragadamente, teve o mesmo triste destino de todas as anteriores que me haviam passado pelas mãos.

Às vezes acho que teria sido melhor ter deixado aquela garrafa térmica cair logo no primeiro degrau da escada, porque a sensação de fracasso e decepção de falhar assim, quando já saboreava o êxito longamente ansiado, foi dolorosa demais.

Mas outras vezes eu acho que foi melhor assim mesmo. Porque, se eu não tivesse falhado exatamente da forma como falhei, eu não teria ocasião de experimentar e nem precisaria da mais sublime das coisas: graça. A graça que minha mãe me estendeu aquele dia e o resto de minha vida inteira, sem o que eu nada seria.

Assim, não foi difícil para mim entender mais tarde o posicionamento da graça como sendo o elemento crucial de nossa salvação: “Porque, pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Efesios 2:8). Continuo atônito, mas compreendo, porque já fui alvo da graça, e ela me transformou.

Posted by marcol at 11:17 AM | Comments (5)

dezembro 12, 2007

Ludopédio

Natal chegando, bons sentimentos, confraternizações, festinhas de empresa, revelações de amigo secreto, engov e sal de fruta faltando nas farmácias. Parece mesmo que o ano acabou.

Nesse espírito de regozijo e boa vontade reinante, me deparei com essa linda e inspiradora imagem, publicada pelo Kibeloco há algum tempo já:

Corinthians%20Fora%20da%20Elite.jpg

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Como se vê, a melancolia pelo rebaixamento do Corinthians era culpa da febre que eu estava, mesmo.

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Só para não deixar de registrar, travei contato esses dias com pessoas de nomes sonoros e melífluos. Atenção mulheres prenhas e embuxadas em geral, são ótimas sugestões para batizar seu rebentinho: Rárduer, Deynnyel, Letisgo e Dirson Nei.

Posted by marcol at 10:33 AM | Comments (5)

dezembro 5, 2007

Rápidas

I
Há 6 dias de cama. Pelo menos parece que descobriram do que se trata, e se trata de uma faringite braba. Febre interna, dores generalizadas e uma nhaca sem tamanho. Até ler nauseia. Nesses momentos eu agradeço a existência da TV a cabo.

II
Mas TV a cabo também torra os picuás uma hora. Ontem coloquei pra ver o DVD de A Queda!, que eu tinha comprado há muito tempo e ainda não tinha visto. É um filme bem longo, do tipo sem pressa, que enfoca as últimas horas de Hitler. Absolutamente sensacional. As atuações são no geral fantásticas, mas o tiozinho que faz o Füher é genial. Nas relações pessoais, Hitler é retratado como afável e delicado, mas de repente ele desandava a expor suas idéias absurdas e o contraste choca.

III
Se bem que as tais idéias absurdas são o que há de mais coerente com a teoria da evolução. Os fracos têm que ser esmagados, é uma lei da natureza. Por essas e outras é que a teoria da evolução para mim não passa de teoria. Confesso o fato já ouvindo o crepitar das fogueiras inquisitórias.

IV
O Corinthians foi rebaixado. Não sei se é porque eu estava doente, mas quando sacramentou-se o fato, entre a enorme queima de fogos que tomou a zona sul aqui, essencialmente são paulina, eu lembrei de uma cena do filme Assassinato em Primeiro Grau; Christian Slater é o jovem advogado que defende um réu interpretado muito bem por Kevin Bacon. Na cena que eu lembrei, Slater está destruindo uma testemunha no julgamento. Quando a testemunha entrega a rapadura, Slater confessa em off que aquele momento, de conseguir manipular brilhantemente uma pessoa para que a verdade apareça, o momento pelo qual ele esperara tanto tempo, agora que acontecia não lhe dava nenhum prazer, pelo contrário, alguma tristeza. A analogia é óbvia. Na verdade, me penintenciei por identificar uma certa torcida surda lá no fundo do inconsciente, para que o Corinthians escapasse. Cruz credo, estou muito confessional hoje. É essa medicação que estou tomando.

V
Eis aqui algo que você deveria separar dois minutos para ver.

Posted by marcol at 1:37 PM | Comments (9)