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outubro 19, 2007

Crónicas

Um típico dia de trabalho

Graças ao horário de verão, era ainda noite quando o táxi me pegou pra levar ao aeroporto de Congonhas. Lá reina a mais perfeita paz e o único senão foi pagar na farmácia do aeroporto uma pequena fortuna por um Resfenol e um pacotinho de lenços de papel. Guarde o fato de eu estar resfriado, será importante mais adiante.

Vôo da TAM até Belo Horizonte. Na descida, o sofrimento de estar gripado. Você sente uma pressão na cabeça como se alguém estivesse com um torniquete nas têmporas ou mais exatamente no ouvido, e apertando sem dó. Perguntei pras aeromoças o que se pode fazer nessa situação e elas disseram: ah, quando a gente está gripada a gente não voa. Certo. Conexão para Salvador. A descida em Salvador foi 15 vezes pior. Quase enlouqueci de dor. Me vi gritando para a menina à frente na diagonal que ela era muito linda (e era mesmo) ou esmurrando o cara do lado dela por ter ficado a viagem toda com a poltrona inclinada sobre meus combalidos joelhos. E conversando com a menina do lado. Mas me segurei.

Desci grogue da dor e quase completamente surdo, os ouvidos tampados. Perguntei pra menina da cooperativa de táxi quanto tempo levava a viagem até o bairro aonde haveria a audiência que me trouxe a Salvador e ela respondeu que era coisa de 30 ou 40 minutos.

Ignorei a fome - no avião eu só comi uma barrinha de cereal que levei comigo, porque nos dois serviços de bordo as opções de lanche envolviam cadáveres suínos e, pelas razões expostas no post abaixo, declinei - saí pra tirar dinheiro no caixa eletrônico; o do Banco Real esnobou meu cartão, disse que deu problema na leitura, mas por sorte eu tinha umas merrecas no Bradesco. Comecei então a procurar uma lan house no aeroporto. Acessei e entrei em contato com o pessoal do escritório em São Paulo, quando fui informado que minha audiência era às 12H30 e não às 13h30 como eu imaginava. Larguei tudo e saí correndo. O taxista confirmou que a viagem levaria de 30 a 40 minutos. Eu expliquei que tinha uma audiência e que já era meio dia. Chegamos ao forum em 15 minutos. Tributei a diferença ao fato de haver sacado o pobre homem de sua baianidade latente.

A audiência foi instalada e descobri muito feliz e contente que minha presença era absolutamente inútil, porque não havia juiz ali naquele forum, o que obrigaria o processo a ser enviado para o tal outro forum para lá ser marcada uma nova audiência. Seria a 4a do processo, uma coisa relativamente simples mas que envolve um valor alto. Nós havíamos checado dúzias de vezes com o advogado local se a audiência haveria mesmo, porque estamos escolados com a Bahia, o Estado onde os processos mais demoram em todo o país, endossando e ratificando a fama dos nativos. E tecnicamente houve audiência, mas só pra marcar outra.

Voltei imediatamente pro aeroporto, bati um sanduba do Subway com resfenol, voltei pra lan house, resolvi pendengas e pendências e enfim aboletei-me na sala de espera de onde meu vôo direto para Guarulhos deveria sair às 17h30, horário local.

Fiquei lendo a Piauí de outubro, a mais fraca de todas que li. Mas valeu a pena pelo Guia de viagem da Molvânia que veio anexo, uma verdadeira pérola de cultura. Terminei de ler meu "Feito de modo especial e maravilhoso", do Dr. Paul Brand, com colaboração de Philip Yancey, um livro simplesmente excepcional.

No vôo de volta, ao meu lado havia um cidadão sem as duas pernas, pelo menos do joelho pra baixo. O detalhe é que ele estava de bermuda, com duas próteses metálicas, e eu só fui notar o fato lá pelo meio da viagem. Ele andava de modo perfeitamente normal.

O vôo era daqueles que você acompanha o trajeto da aeronave. Lá pelas tantas, notamos que o avião começou a dar umas voltas estranhas. Em algum tempo o comandante veio esclarecer: todos os aeroportos de São Paulo estavam absolutamente abarrotados. Ficamos dando voltas a esmo e por fim descemos em Belo Horizonte, para reabastecer a aeronave e esperar novas orientações.

Imediatamente liguei pro taxista que me esperava e pedi pra ele ir pra casa e avisei a patroa dos contratempos. Descemos todos do avião, ficamos numa sala de espera vazia por uma hora. Pelo menos trouxeram suquinho e água pra gente. E pelo menos o Resfenol parece ter funcionado e eu não explodi na descida. Só continuei surdo.Lá comprei uma Placar e uma Carta Capital, porque a Piauí tinha acabado.

Descemos em Guarulhos perto da meia-noite. Peguei uma fila gigantesca para pagar o táxi e outra ainda maior para pegar o dito cujo, mas enfim me vi refestelado no banco de couro daquele Astra gelado, pensando que em mais uma hora e pouco estaria em casa. De tão cansado, apaguei na viagem. Só lembro de ter visto a pista expressa da Marginal interditada e todo mundo se acotovelando com os caminhões gigantescos na pista local. Mais à frente,uma carreta tombada. Mais adiante, carretas carregando umas estruturas metálicas enormes, escoltadas por policiais.

Fui dormir às duas da manhã. E estou surdo até agora.

Posted by marcol at outubro 19, 2007 1:24 PM

Comments

Hahaha... Quer ganhar milhões por mês, dá nisso!

Brincadeiras a parte adorei o texto.
Abraço.

Posted by: Mártin at outubro 24, 2007 11:30 AM


Rapá, que situação...
Bem, quando tudo tá ruim... nada impede de piorar!
sorte e saúde pra todos!

Posted by: Ane Brasil at outubro 24, 2007 10:04 AM

Tão boa que eu neim liii ! kkkkkkkkkkkkk...

Posted by: Lorena at outubro 23, 2007 5:14 PM

Negão, cê é doido de voar gripado.

Uma vez eu e a digníssima, gripada, estávamos voltando de Floripa num vôo com escala no Rio antes de ir pra BH. Descemos no rio com minha mulher URRANDO de dor de ouvido e o médico PROIBIU ela de pegar aviões enquanto a gripe não sarasse. É perigoso pacas, pode romper tímpano e tal.

Posted by: O Primo at outubro 23, 2007 12:07 PM

Pois eu tenho um único processo na Bahia. Ilhéus, no caso. Que foi enviado pra lá depois de várias cousas de incompetência aqui do Paraná.

Chegou lá em dezembro do ano passado.

Em abril pediram pra gente depositar custas de volta. Em abril depositamos.

Em maio foi para o MM. e lá está até agora. Sem mais nada. O que, no causo, é melhor pra gente.

Fosse eu a outra parte e cá estaria em agonias. Sem preconceitos, nem piadas, nem nada. Mãs.

Posted by: Carol at outubro 21, 2007 9:43 PM

Olha, em geral eu gosto de ser "politicamente correta" como a Daniela la em cima, mas acho que realmente você está certo a respeito dos baianos. Não é preconceito, é "pós-conceito." "É nenhuma meu rei" (falado com sotaque baiano) ;) Aliás, esse jeito baiano de ser e de viver os faz pessoas muito queridas, mas deve atrapalhar bastante no aspecto jurídico ;). Que coisa essa sua gripe e suas dores de ouvido... já aconteceu comigo.

Posted by: Lilian at outubro 21, 2007 7:00 PM

Nem vou comentar as referências à preguiça dos baianos pq isso é taaaaoooo século passado que eu passo. Eu sou daquelas chatas politicamente corretas que nao fazem piadas com portugues, loiras, nordestinos em geral, bla bla bla. Pq, vc sabe, um certo grupo dessa gente estranha que estuda Letras, e precisamente análise do discurso, acredita que a língua nao apenas descreve a realidade, como também a forja. Assim que....

Mas eu só quero falar do lance da gripe.

Uma vez minha mae tava gripada e fez uma viagem de aviao. Teve esse mesmos problemas que vc. Aconteceu um troço lá e ela ficou tossindo sangue, mó desespero. Mas daí o médico falou que foi o tímpano, por causa da pressao e de todas as cavidades entupidas.

É perigoso MESMO.

Beijao

Posted by: Daniela at outubro 20, 2007 7:12 PM

Uma das coisas que mais me envergonha no meu trabalho é ter que remarcar audiências por ausência do juiz... putz... e olha que meu chefe faz o tipo trabaiadô, que só falta em casos extremos. Mas, mesmo assim, acho bem constrangedor.

Posted by: claudia lyra at outubro 20, 2007 5:07 PM

Nossa, ninguém merece uma viagem dessas, ainda mais gripado.

Espero que esteja melhor.

Beijo, melhoras e ótimo final de semana

Posted by: Erika at outubro 19, 2007 9:26 PM

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