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setembro 3, 2007

Culturais

Até o papa é pop mas eu não sou

Na metade dos anos 80 pipocaram bandas de rock nacional por estas bandas. Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, principalmente. Era mesmo um fenômeno interessante de se ver: pela primeira vez, atitude, barulhos, caras e bocas e até roupas diferentes da estética pseudo-sofisticada bossa nova ou escancaradamente carnavalesca do samba ou extremamente sentimentalóide-choramingosa do choro neste país. E, claro, com um salto de qualidade em relação ao pseudo-rock da jovem guarda.

Na segunda metade da década, quando as músicas dessas bandas ganharam as rádios, elas começaram a desfilar por palcos pouco adequados - pra dizer o mínimo - para seu discurso e atitude. Titãs (que, toda vez que eu ouvia ser anunciado crescia o ouvido, na esperança de estarem falando dos Novos Titâs, meus heróis prediletos), Paralamas do Sucesso, RPM, Barão Vermelho, todas elas deram as caras em programas como Viva a Noite, Silvio Santos, Xou da Xuxa, Raul Gil, Bolinha, Chacrinha e que tais. Que visão escalafobética a desses caras dublando suas músicas com dançarinas atrás; guitarra e baixo sem fio, microfone do vocalista sem fio, a bateria só uma caixa e um prato. Em suma: ridículo.

Das grandes, apenas duas bandas não deram as caras na televisão: Legião Urbana e Ira!. ira.jpgLegião Urbana tinha as melhores composições e Ira! tinha, disparado, os melhores instrumentistas. Essa última, por ser paulistana e com uma temática muito próxima, foi a que acompanhei melhor.

Eles estouraram com o disco Vivendo e Não Aprendendo (frase que compõe um dos versos do coro de um dos hinos nacionais de minha adolescência, a bela XV anos). vivendo e não aprendendo.jpgSe a memória não me falha, chegaram a vender 250.000 cópias desse disco, número que pra época era grandes coisas e que hoje voltou a ser. O sucesso se deveu a boas músicas como Envelheço na Cidade e Dias de Luta e ao fato da esquisita mas bonita Flores em Você ter sido escolhida como música de abertura da novela O outro, da Globo.

Eu estava na pequena Sapiranga-RS em julho de 1988, quando o Ira! lançou seu disco seguinte, Psicoacústica. Lembro de haver entrado numa loja de discos de lá e perguntado se eles tinham. Me surpreendi quando a resposta foi afirmativa e pedi pra ouvir. Achei tudo muito estranho. Hoje o disco é tido e havido como um clássico, mas a verdade é que ele continua sendo muito estranho. Eles abusaram de músicas mais pesadas, com guitarras fantasmagóricas, uma forma diferente de captação do som da bateria - sem microfones em cada caixa, mas pegando o som como um todo -psicoacústica.jpg e cometeram uma verdadeira heresia: misturaram elementos de - argh! - rap em uma das faixas. Sim, naqueles tempos, rock tinha que ser puro, só baixo, guitarra, bateria e voz berrada. Dessa forma eles foram precursores das misturebas sonoras que viraram objeto de aplausos na década seguinte.

De qualquer forma, ficou muito clara uma coisa: o Ira! se assustou com a fama. Eles não queriam ser vistos como astros Pop, mas como rockeiros, aqueles caras marginais, que pouca gente entende e que não estão ligando muito pra isso, por essa razão fizeram questão de frustrar todas as expectativas rejeitando convites para aparecer na televisão e lançando discos experimentais, revolucionários, densos e anos-luz distante dos gostos das grandes massas. Some-se a isso uma fase - bem longa, aliás - de abuso de drogas, que se refletiu na qualidade de suas composições e a banda decretou seu passaporte para o segundo escalão do rock nacional, onde permaneceu e permanece até hoje, a despeito do sucesso de seu disco pela MTV.

Sua aversão ao pop os relegou ao papel que desejavam na verdade. É óbvio que em diversos momentos deixaram transparecer algum arrependimento dessa escolha, mas mantém a pose. Ainda lembro de ter visto Nasi, o vocalista, andando num Tipo com o porta-malas amarrado com uma cordinha. Havendo ou não recebido o que queriam, fato é que eles foram e são subvalorizados no painel musical brasileiro.

E eu lembrei dessa história toda ouvindo as músicas dos últimos discos do Los Hermanos. Eles estouraram com o coro grudento de Ana Júlia e do mesmo jeito que os paulistas, pareceram se assustar com um sucesso escorado em baladinhas de coro grudento. Por isso, as músicas de seus outros dois trabalhos não têm coro. Necas de coro. Quer coisa mais anti-pop que isso? Como, contudo, gosto das melodias que eles desenham e gosto dos temas incomuns e arranjos bem bolados deles, desejo-lhes mais sorte na vida que tiveram os autores dos hinos nacionais da minha adolescência.

Posted by marcol at setembro 3, 2007 9:27 AM

Comments

Como eu nasci em 86 não tenho como lembrar dessa história toda, mas compreendo o processo. Acabei de postar algo sobre o cenário musical brasileiro e lembrei desse post, tive que linkar...

Posted by: Acauã at setembro 9, 2007 1:26 AM

Concordo, o IRA! não se vendeu e continua fazendo música de extrema qualidade e de uma diversidade sonora sem fim, valeu por exaltar essa banda tão ignorada em nosso cenário musical.

Posted by: claudia at setembro 4, 2007 10:31 PM

Na verdade o "boom" das bandas de rock brasileiro foi bem no inicio dos anos 80. Foi a partir de 82 que elas comecaram a ganhar aos poucos as radios, comecando com a Blitz, e em seguida Paralamas, Lulu Santos, Lobao, Kid Abelha, e outros. A maioria desse pessoal tocou primeiro nas radios de rock (no caso do Rio, a Fluminense FM, nao sei qual em SP e outros estados) para depois comecar a invadir as radios comerciais. Em 84/85 foi o auge das bandas de garagem, havia muita aceitacao para coisas novas e tinha muito concurso de banda nos clubes noturnos.

Posted by: Leila at setembro 4, 2007 5:35 PM

Ai, Marco... Los Hermanos não dá... e comparado ao Ira... ai, ai... hauhauahauhauhau...

Posted by: claudia lyra at setembro 4, 2007 1:11 AM

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