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setembro 28, 2007
Coisas da fé
Este é o nosso Deus VII
7. Graça
A sala é preenchida pela luz azulada que sai da TV. Jairo e Vânia assistem ao final de um filme de ação. O vilão é desequilibrado num golpe inesperado do mocinho - que se acreditava já derrotado – e cai num caldeirão de lava incandescente. Com dificuldade o herói se levanta, seu par romântico aparece correndo para abraçá-lo e os créditos começam a subir pela tela.
- Yes! exclama Jairo - Adoro filme com final feliz!
- Nossa – diz Vânia, levantando-se - esse aí pagou todos os pecados, hein?
Eles também estão emoldurados por uma tela, à frente da qual Deus é a audiência. Ele diz: Jairo, essa sua noção de final feliz, tão comum neste mundo, é radicalmente diferente da minha. Conforme a sua idéia, para que esteja tudo em seu devido lugar, é preciso que o mau sofra e sofra muito, sem espaço para qualquer tipo de misericórdia. Mas eu lhe pergunto, Jairo, quem, aos meus olhos, poderia dizer que não precisa de misericórdia? Ou você vai se convencer para sempre que é um dos mocinhos? O que me dizer disso aqui?
A um gesto seu, a cena se transforma para mostrar Jairo em sua cozinha, abocanhando um sanduíche vorazmente. Vânia chega secando as mãos molhadas na própria roupa e, enquanto abre os armários à cata de algo, diz:
- Ô bem, eu tô preocupada com o seu pai. A gente ainda não discutiu o que vai fazer e o prazo que o dono da casa que ele mora deu está acabando...
- E por que a gente tem que fazer alguma coisa, Vania? resmunga Jairo de boca cheia.
- Ué – ela responde surpresa - Se a gente não fizer quem é que vai fazer?
- Não tenho nada com isso não, é problema do velho...
- Por que a gente não traz ele pra morar aqui? Afinal, a casa é dele...
- Dele uma vírgula, Vânia! Tá no meu nome, a casa é minha.
Vânia deixa os braços caírem ao lado do corpo num gesto de quem desiste. Depois passa a palma da mão direita na face, respira fundo e retoma sua procura dentro do armário. Jairo continua comendo indiferente, até que diz:
– Ele dá um jeito, fica fria. Catzo, tá começando o jogo – ele diz levantando-se e saindo. A tela escurece e em seguida clareia outra vez para mostrar a mesma cozinha, com o mesmo Jairo sentado na mesma cadeira, atracado com um prato de sopa.
- Jairo – diz Vânia entrando com ar suplicante - e o seu pai, hein?
- Ih, Vânia, lá vem você com esse papo de novo, vira o disco.
- É que já vai fazer um ano que você não visita ele lá no asilo.
- Pô, Vânia, não dá pra ficar indo lá naquele fim de mundo toda hora. Eu ralo pra burro, você sabe. Quando eu tenho um tempinho livre eu preciso dar uma descansada. Não me torra com essa história, tá? – e, olhando no relógio e levantando em seguida: Vixi, tá na hora do jogo!
Deus diz: Não, Jairo, você não vai se convencer pra sempre que é um dos bons. Sua escala de valores e prioridades e a atuação constante do meu Espírito vão conduzi-lo a uma situação em que será impossível você se enganar pra sempre.
Ele levanta Sua mão e a tela os mostra fustigados por uma forte ventania ao lado de um caixão que desce para a tumba. Uma dúzia de pessoas assiste à cerimônia em silêncio, mas sem dúvida alguma o silêncio mais profundo é o de Jairo. Ele não responde às condolências que lhe são estendidas pelos demais, tem o olhar fixo, duro, pregado no caixão, que vai sendo coberto pela terra escura. As outras pessoas começam a se despedir mas Jairo não faz menção de ir embora e só o faz quando Vânia gentilmente o puxa pelo braço.
No caminho para casa, só Vânia fala. Comenta cada uma das coroas de flores que foram enviadas, elogia os remetentes, tece comentários sobre como mudaram algumas das pessoas que estiveram lá e que não viam há tempos. Por fim, desistindo de tirar alguma palavra de Jairo, diz que foi um funeral bonito e recolhe-se às reticências.
Em casa, ela sugere que Jairo descanse o resto do dia. Ele parece concordar, porque dirige-se para o quarto e fecha a porta. Da tela divina vê-se que ele abre um armário de onde tira um álbum de fotos, que folheia até achar uma foto de um velhinho sorridente.
Do lado de fora, Vânia se sobressalta quando ouve o altíssimo choro de seu marido, o barulho de objetos sendo arremessados ao chão e os brados:
-O que foi que eu fiz? Meu pai! O que foi que eu fiz??
Deus diz: Este seria o momento em que sobe o The End e todos se sentem felizes de ver o mau sofrendo, mas essa não é minha sensação, filho. Estou sofrendo contigo, sofrendo porque essa separação traumática não precisava acontecer! Mas para mim essa história não acabou e o final que eu imagino para ela é bem diferente. É o final que eu imagino para todo ser humano, não importa o que tenha feito ou quão longe de mim tenha andado. Não importa o que vocês merecem pelos seus atos, mas o que Eu fiz para que vocês pudessem escapar do final de dor, sofrimento e morte ao qual estavam condenados. Não há nada que você possa fazer para eu amá-lo mais, Jairo. E não há nada que você possa fazer para eu amá-lo menos, também. Meu amor é incondicional, gigantesco e alcança até você! Por ilógico que pareça. Por injusto que pareça.
Ele estende os braços e a tela mostra outra vez a sala da casa, onde Jairo lê numa Bíblia, em voz alta: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça”. Levantando os olhos, ele repete, frisando a palavra “toda”: “de toda a injustiça”. E é um outro Jairo que pende a cabeça suavemente, fecha os olhos com força e começa a mover os lábios. Está, evidentemente, orando.
É o que Deus precisa ver para dizer: Ah, agora sim pode aparecer o The End. Final feliz. Final feliz para essa história de pecado. Começo feliz para uma outra história, dessa vez segurando na minha mão!
“Mas tu, Senhor, és Deus compassivo e misericordioso.” (Salmo 86:15, NVI).
Posted by marcol at setembro 28, 2007 8:38 AM