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setembro 21, 2007
Coisas da fé
6. A justiça de Deus
Juliana e Karen estão sentadas em silêncio no escritório, dos dois lados de uma mesa estreita sobre a qual repousa um telefone irritantemente mudo. Só se ouve o som de dedos tamborilando no tampo da mesa. De repente, o silêncio é rompido pela campainha do telefone. As duas prendem a respiração, Karen precisa se segurar para não atender logo no primeiro toque.
- J.K. Alimentos, boa tarde... Sim... – ela finge não saber quem estava do outro lado da linha, piscando um olho para Juliana – Ah, oi, Sandoval, é a Karen, como vai? Temos o resultado da licitação, enfim? ... É? Deu certo, então, Sandoval? – ela sinaliza positivamente com o dedão para Juliana, que dá pulos de alegria segurando-se para não fazer barulho – Fantástico! ... Puxa, a gente tá muito feliz com o resultado e a tua assessoria nesse processo todo foi imprescindível... É... sensacional!... Que? ... 15%? ... Tá, a gente conversa. O importante é que o negócio saiu e vai ser bom pra todo mundo, né? ... Genial, Sandoval! Até rimou, hahaha ... Amanhã então a gente comparece no gabinete do prefeito... Tchau tchau.
Ela desliga o telefone, as duas se olham e então gritam de alegria e se abraçam
- Eu nem acredito, Ka! – diz Juliana secando lágrimas que já escorriam - A gente vai se dar bem finalmente!
- Ai, menina, finalmente!
- Mas o que ele falou sobre 15%, que história é essa?
- Ah – Karen explica - ele disse que o secretário de finanças também exigiu uma participaçãozinha. A gente meio que já previa isso, né, amiga?
- Desgraçados. Mas faz parte!
- Ai, Ju, tem certeza que você quer fazer isso? A gente tá se enfiando num ninho de cobras, hein? Pagando propina pra conseguir vender merenda escolar...
- Ai, chega desse papo. A gente falou sobre isso milhões de vezes. Ninguém vai ser prejudicado com isso, as criancinhas vão comer uma ótima merenda e vão ficar saudáveis e lindas. Não tem nada de errado. Faz parte do jogo, desde que o mundo é mundo é assim. Só que dessa vez a gente tem competência e os atalhos pra aproveitar! Vamos, a gente tem que comemorar...
- É. Em alto estilo!
As duas pegam suas bolsas e saem rindo. A um gesto de Deus, a cena em Sua grande tela muda, mas não tanto. Ele vê outras cenas parecidas que se seguiram a essa. O escritório vai mudando, ficando melhor decorado, com computadores mais modernos. Deus diz:
Minhas filhas, ah, minhas filhas. Permitir-se meditar em justificativas para a corrupção redundou nisso. O errado passou a não ser mais tão errado assim pelo simples fato de vocês estarem se beneficiando com ele. Acontece que minhas leis, queridas, não admitem relativizações. O errado será sempre errado. Vê-las enveredar por caminhos tortos me entristece profundamente, porque ao optar por atender à lei do mundo, que é o egoísmo, vocês se distanciam de mim, vão para onde minha voz tende a ficar cada vez mais distante, cada vez mais fraca... Mas ainda assim eu vou falar.
Na tela vê-se Juliana correndo para pegar um elevador. Uma mulher que já estava lá segura a porta para que ela consiga.
- Nossa – pergunta Juliana depois de recuperar o fôlego - aonde você foi? Você não deveria estar de repouso por causa da cirurgia?
- Ai – responde a vizinha - tive que ir ao banco. Você acredita que eu entrei no INSS, recebi por lá e ainda assim a empresa me pagou o salário?
- Uau, que sorte, recebeu duas vezes!
Sua interlocutora franze a testa demonstrando estranhar esse comentário. Então acrescenta:
- É, então eu fui lá devolver, né?
- Ah, eles descobriram a besteira que fizeram e te obrigaram a ir lá devolver?
- Imagina, Juliana. Logo que eu vi o meu saldo e percebi a mancada eu liguei pra eles e contei o caso, né? Se não fosse isso acho que eles nem iam descobrir. Aí eles pediram pra eu fazer uma transferência, só que a esquecida aqui não lembrou a senha do atendimento telefônico do banco. Não teve outro jeito se não ir lá...
Enquanto o elevador continua subindo, elas permanecem em silêncio. Vê-se que Juliana ficou muito impressionada com aquela história. Enfim, o elevador pára, a vizinha abre a porta e sai se despedindo.
- Tchau, Juliana. Ah, eu não desisti de te levar um dia na minha igreja. Que tal este sábado à tarde?
- Eu tô livre no sábado... – Juliana se surpreende respondendo sem qualquer reflexão. Enquanto a porta se fecha, a vizinha arremata:
- Que ótimo! Combinado então, a gente passa no teu apartamento pra te pegar às quatro e meia!
- C-combinado – responde gaguejante uma perplexa Juliana.
Enquanto a tela se divide para mostrar, numa metade, Juliana na sacada de seu apartamento, com aspecto reflexivo e, na outra metade, Karen de costas para outra sacada de outro apartamento, rindo largamente com um telefone ao ouvido e um copo na outra mão, Deus diz:
A escolha é individual. Partilhar da minha justiça, não ignorá-la, é algo que cada um deve decidir em seu íntimo. Meus esforços acabaram surtindo efeito para Juliana, mas não para Karen...
Ouve-se Karen dizer ao telefone:
- É isso aí, conseguimos fechar com mais duas prefeituras. A coisa tá de vento em “polpa”! ... Ah, mãe, não vem me dar sermão não que eu não tô pra isso, hein? Eu sou bem grandinha e sei o que tô fazendo!...
Na outra metade da tela, ao mesmo tempo, Juliana ora angustiada na sacada de seu apartamento:
- Meu Deus, isso está errado, isso está errado! Eu sei que está errado, eu não suporto mais saber isso e continuar nessa vida. Ah, meu Deus, me dá coragem para sair! Em nome de Jesus, me salva, Deus!
Juliana – é a resposta de Deus - você acaba de constituir como seu advogado o meu filho amado. Através do sangue que Ele derramou na cruz, os seus muitos pecados podem ser lavados e esquecidos. Sua culpa recai sobre Ele, de modo que o seu pecado passa a ser dele e a justiça dEle passa a ser sua. Assim, minha Justiça não é arranhada ao Eu perdoar você. Em outras palavras, você acaba de fazer a decisão mais sábia e feliz de toda sua vida! Você acaba de começar a viver e viver com abundância!
Deus levanta Sua mão e toca a tela, fazendo-a com que se enrugue como se fosse um espelho de água. Juliana abre os olhos de sua oração, perscruta um pouco a paisagem da sacada de seu apartamento e sorri, apaziguada. A cena se embaralha e, quando fica nítida outra vez, mostra Juliana andando por uma calçada sorridente até que vê Karen passando num belo carro, ao celular e dando gargalhadas. O rosto de Juliana se encrespa todo, deixando transparecer indignação. Ao vê-lo, Deus diz:
Agora aqui está você, filha. Não tem mais a vida opulenta que tinha nos tempos de sociedade com Karen. Está lutando para pagar as contas enquanto Karen parece progredir e progredir sem parar. Você não entende a prosperidade dela, preferiria ver sua antiga amiga passando por maus bocados em alguma CPI. Mas Eu sou o juiz de toda terra, filha, e farei justiça. Ao meu tempo eu o farei. Todos um dia terão de comparecer ao meu tribunal e infelizmente nem todos terão o advogado que você constituiu para si, porque O rejeitaram. Até que esse dia chegue, Juliana, viva na paz que eu te dei e que vale mais do que qualquer tesouro que o homem pode forjar, enquanto eu continuo falando ao coração de Karen. Quem sabe algum dia ela não escuta?
Juliana retoma seu caminho, voltando a sorrir após alguns instantes.
“Justo és, Senhor, e retas são as tuas ordenanças.” (Salmo 119:137, NVI)
Posted by marcol at setembro 21, 2007 8:28 AM