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setembro 28, 2007
Cotidianas
Fim do Google anunciado.
Desta ele não poderá escapar. Quem avisa amigo é, se você tem ações, venda rápido!
Posted by marcol at 2:48 PM | Comments (0)
Coisas da fé
Este é o nosso Deus VII
7. Graça
A sala é preenchida pela luz azulada que sai da TV. Jairo e Vânia assistem ao final de um filme de ação. O vilão é desequilibrado num golpe inesperado do mocinho - que se acreditava já derrotado – e cai num caldeirão de lava incandescente. Com dificuldade o herói se levanta, seu par romântico aparece correndo para abraçá-lo e os créditos começam a subir pela tela.
- Yes! exclama Jairo - Adoro filme com final feliz!
- Nossa – diz Vânia, levantando-se - esse aí pagou todos os pecados, hein?
Eles também estão emoldurados por uma tela, à frente da qual Deus é a audiência. Ele diz: Jairo, essa sua noção de final feliz, tão comum neste mundo, é radicalmente diferente da minha. Conforme a sua idéia, para que esteja tudo em seu devido lugar, é preciso que o mau sofra e sofra muito, sem espaço para qualquer tipo de misericórdia. Mas eu lhe pergunto, Jairo, quem, aos meus olhos, poderia dizer que não precisa de misericórdia? Ou você vai se convencer para sempre que é um dos mocinhos? O que me dizer disso aqui?
A um gesto seu, a cena se transforma para mostrar Jairo em sua cozinha, abocanhando um sanduíche vorazmente. Vânia chega secando as mãos molhadas na própria roupa e, enquanto abre os armários à cata de algo, diz:
- Ô bem, eu tô preocupada com o seu pai. A gente ainda não discutiu o que vai fazer e o prazo que o dono da casa que ele mora deu está acabando...
- E por que a gente tem que fazer alguma coisa, Vania? resmunga Jairo de boca cheia.
- Ué – ela responde surpresa - Se a gente não fizer quem é que vai fazer?
- Não tenho nada com isso não, é problema do velho...
- Por que a gente não traz ele pra morar aqui? Afinal, a casa é dele...
- Dele uma vírgula, Vânia! Tá no meu nome, a casa é minha.
Vânia deixa os braços caírem ao lado do corpo num gesto de quem desiste. Depois passa a palma da mão direita na face, respira fundo e retoma sua procura dentro do armário. Jairo continua comendo indiferente, até que diz:
– Ele dá um jeito, fica fria. Catzo, tá começando o jogo – ele diz levantando-se e saindo. A tela escurece e em seguida clareia outra vez para mostrar a mesma cozinha, com o mesmo Jairo sentado na mesma cadeira, atracado com um prato de sopa.
- Jairo – diz Vânia entrando com ar suplicante - e o seu pai, hein?
- Ih, Vânia, lá vem você com esse papo de novo, vira o disco.
- É que já vai fazer um ano que você não visita ele lá no asilo.
- Pô, Vânia, não dá pra ficar indo lá naquele fim de mundo toda hora. Eu ralo pra burro, você sabe. Quando eu tenho um tempinho livre eu preciso dar uma descansada. Não me torra com essa história, tá? – e, olhando no relógio e levantando em seguida: Vixi, tá na hora do jogo!
Deus diz: Não, Jairo, você não vai se convencer pra sempre que é um dos bons. Sua escala de valores e prioridades e a atuação constante do meu Espírito vão conduzi-lo a uma situação em que será impossível você se enganar pra sempre.
Ele levanta Sua mão e a tela os mostra fustigados por uma forte ventania ao lado de um caixão que desce para a tumba. Uma dúzia de pessoas assiste à cerimônia em silêncio, mas sem dúvida alguma o silêncio mais profundo é o de Jairo. Ele não responde às condolências que lhe são estendidas pelos demais, tem o olhar fixo, duro, pregado no caixão, que vai sendo coberto pela terra escura. As outras pessoas começam a se despedir mas Jairo não faz menção de ir embora e só o faz quando Vânia gentilmente o puxa pelo braço.
No caminho para casa, só Vânia fala. Comenta cada uma das coroas de flores que foram enviadas, elogia os remetentes, tece comentários sobre como mudaram algumas das pessoas que estiveram lá e que não viam há tempos. Por fim, desistindo de tirar alguma palavra de Jairo, diz que foi um funeral bonito e recolhe-se às reticências.
Em casa, ela sugere que Jairo descanse o resto do dia. Ele parece concordar, porque dirige-se para o quarto e fecha a porta. Da tela divina vê-se que ele abre um armário de onde tira um álbum de fotos, que folheia até achar uma foto de um velhinho sorridente.
Do lado de fora, Vânia se sobressalta quando ouve o altíssimo choro de seu marido, o barulho de objetos sendo arremessados ao chão e os brados:
-O que foi que eu fiz? Meu pai! O que foi que eu fiz??
Deus diz: Este seria o momento em que sobe o The End e todos se sentem felizes de ver o mau sofrendo, mas essa não é minha sensação, filho. Estou sofrendo contigo, sofrendo porque essa separação traumática não precisava acontecer! Mas para mim essa história não acabou e o final que eu imagino para ela é bem diferente. É o final que eu imagino para todo ser humano, não importa o que tenha feito ou quão longe de mim tenha andado. Não importa o que vocês merecem pelos seus atos, mas o que Eu fiz para que vocês pudessem escapar do final de dor, sofrimento e morte ao qual estavam condenados. Não há nada que você possa fazer para eu amá-lo mais, Jairo. E não há nada que você possa fazer para eu amá-lo menos, também. Meu amor é incondicional, gigantesco e alcança até você! Por ilógico que pareça. Por injusto que pareça.
Ele estende os braços e a tela mostra outra vez a sala da casa, onde Jairo lê numa Bíblia, em voz alta: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça”. Levantando os olhos, ele repete, frisando a palavra “toda”: “de toda a injustiça”. E é um outro Jairo que pende a cabeça suavemente, fecha os olhos com força e começa a mover os lábios. Está, evidentemente, orando.
É o que Deus precisa ver para dizer: Ah, agora sim pode aparecer o The End. Final feliz. Final feliz para essa história de pecado. Começo feliz para uma outra história, dessa vez segurando na minha mão!
“Mas tu, Senhor, és Deus compassivo e misericordioso.” (Salmo 86:15, NVI).
Posted by marcol at 8:38 AM | Comments (0)
setembro 27, 2007
No meu top 20 coisas boas, entra, seguramente, ganhar do - e eliminar o - Boca Juniors.
* * * * * *
Hoje é anivesário de um irmão, uma tia e um primo. Nunca na história dessa família houve um dia tão fértil, nove meses pra trás.
Posted by marcol at 10:00 AM | Comments (0)
setembro 25, 2007
Crónicas
Up date do post de ontem:
Kurt tem uma memória prodigiosa. Ele lembra o telefone do Bozo a letra de "Deixa eu penetrar na tua praia" e que os caras que eram amigos do alheio em meados dos 80 eram por nós chamados de "os função". Entre outras tantas coisas.
A propósito, ninguém mais ouve Smiths ou Ira!. Mas a gente continua lendo Sponville, Cyro dos Anjos, Yancey e Drummond. Ou seja, a música passa, os livros ficam. Esquisito, se considerarmos que a música é a mais perfeita das expressões artísticas.
E bem por isso, ontem, no processo seletivo pra uma vaga no meu departamento, lembrei de um poeminha de Drummond, o único que eu conheço de cor. Botei num papel e pedi pro povo fazer uma redação livre inspirada nele. O resultado foi: ninguém atinou com o significado do poema! Mundo cruel.
O poema era este:
Memória
Amar o perdido
Deixa confundido
Este coração
Nada pode o olvido
Contra o sem sentido
Apelo do Não
As coisas tangíveis
Tornam-se insensíveis
À palma da mão
Mas as coisas findas
Muito mais que lindas
Estas ficarão
Posted by marcol at 6:04 PM | Comments (3)
setembro 24, 2007
Crónicas
Meu melhor amigo
Se a fessôra pedisse uma redação sobre meu melhor amigo, eu diria que meu melhor amigo se chama Kurt. Que ter um melhor amigo já é fantástico, mas que ter um melhor amigo chamado assim dum jeito tão fora do ordinário é duplamente mais legal.
Kurt e eu estudamos juntos do pré-primário até o último ano do ensino médio, quando isso ainda era segundo grau e quando a gente economizava uma grana pra comprar uma carteira emborrachada da OP. Como tanto ele como eu nunca conseguíamos, o jeito era comprar uma imitação, com um filete de velcro muito fininho demais.
A história vem de longa data. Ele sempre lembra que no pré todo mundo tinha o álbum de figurinhas da Turma da Mônica - um que no meio tinha uma folha de papel de seda aonde você podia colar os "transfers". Todo mundo tinha esse álbum, até a professora. Menos eu e ele. E todo mundo se juntava pra trocar figurinhas e a gente ficava saboreando a experiência da marginalidade. Talvez por essas e muitas outras eu posso hoje dizer que tenho um melhor amigo. Ainda bem que o pai dele não cedia a tais apelos consumistas tanto quanto o meu.
E o Kurt é um cara legal. Do tipo que trabalhou numa ONG no Moçambique e em Sri Lanka. Putz, como é legal ter um melhor amigo chamado Kurt que mora no Sri Lanka. Você se sente exclusivo, destacado. Com ele eu troquei aquelas confidências de insegurança perante o sexo oposto, inventei histórias que na hora nos pareceram hilárias, fiz histórias em quadrinhos, animei festas, compus repentes, concursos de rimas toscas, competição de "carteira ao lixo", vendi bolo pra salvar as baleias do pantanal, fui fichado como arruaceiro no Metrô de São Paulo, troquei mil livros, acompanhei seus dramas familiares e sentimentais. Com ele sabotei a carteira de cigarros de nosso primeiro amigo que teve a infeliz idéia de virar fumante. Na mala que ele levou pra África do Sul enfiei um monte de livros inúteis - como "Jatos e Foguetes" e "Manual de Contabilidade". Ele foi padrinho do meu casamento, eu fui do dele. Ele me fez gostar de ouvir The Smiths, eu fiz ele gostar de ouvir Ira!. Ele me fez gostar de Carlos Drummond de Andrade e Philip Yancey, eu fiz ele gostar de André-Comte Sponville e Cyro dos Anjos. A gente viu "As melhores Intenções", de Bille August, juntos. Mas também viu "O marido da cabeleireira". E a gente ficou olhando as estrelas lá em Ubatuba e pensando o que a vida ia fazer da gente. E foi no mesmo tempo, em meados de nossa vida de universitários, que tanto eu quanto ele sentimos que era hora de se aprofundar nas coisas da fé e fazer a prova pra ver se essas coisas eram assim mesmo como nos vendiam. Foi juntos que notamos que era muito melhor do que nos diziam.
Outro dia ele veio de Goiânia pra cá e a gente almoçou junto. E eu me senti um cara bem aventurado, não só porque tenho um melhor amigo e porque ele se chama Kurt, mas porque ele é do jeito é e eu continuo podendo chamá-lo de meu melhor amigo. Mesmo assim, trinta anos depois.
Posted by marcol at 3:43 PM | Comments (6)
setembro 21, 2007
Coisas da fé
6. A justiça de Deus
Juliana e Karen estão sentadas em silêncio no escritório, dos dois lados de uma mesa estreita sobre a qual repousa um telefone irritantemente mudo. Só se ouve o som de dedos tamborilando no tampo da mesa. De repente, o silêncio é rompido pela campainha do telefone. As duas prendem a respiração, Karen precisa se segurar para não atender logo no primeiro toque.
- J.K. Alimentos, boa tarde... Sim... – ela finge não saber quem estava do outro lado da linha, piscando um olho para Juliana – Ah, oi, Sandoval, é a Karen, como vai? Temos o resultado da licitação, enfim? ... É? Deu certo, então, Sandoval? – ela sinaliza positivamente com o dedão para Juliana, que dá pulos de alegria segurando-se para não fazer barulho – Fantástico! ... Puxa, a gente tá muito feliz com o resultado e a tua assessoria nesse processo todo foi imprescindível... É... sensacional!... Que? ... 15%? ... Tá, a gente conversa. O importante é que o negócio saiu e vai ser bom pra todo mundo, né? ... Genial, Sandoval! Até rimou, hahaha ... Amanhã então a gente comparece no gabinete do prefeito... Tchau tchau.
Ela desliga o telefone, as duas se olham e então gritam de alegria e se abraçam
- Eu nem acredito, Ka! – diz Juliana secando lágrimas que já escorriam - A gente vai se dar bem finalmente!
- Ai, menina, finalmente!
- Mas o que ele falou sobre 15%, que história é essa?
- Ah – Karen explica - ele disse que o secretário de finanças também exigiu uma participaçãozinha. A gente meio que já previa isso, né, amiga?
- Desgraçados. Mas faz parte!
- Ai, Ju, tem certeza que você quer fazer isso? A gente tá se enfiando num ninho de cobras, hein? Pagando propina pra conseguir vender merenda escolar...
- Ai, chega desse papo. A gente falou sobre isso milhões de vezes. Ninguém vai ser prejudicado com isso, as criancinhas vão comer uma ótima merenda e vão ficar saudáveis e lindas. Não tem nada de errado. Faz parte do jogo, desde que o mundo é mundo é assim. Só que dessa vez a gente tem competência e os atalhos pra aproveitar! Vamos, a gente tem que comemorar...
- É. Em alto estilo!
As duas pegam suas bolsas e saem rindo. A um gesto de Deus, a cena em Sua grande tela muda, mas não tanto. Ele vê outras cenas parecidas que se seguiram a essa. O escritório vai mudando, ficando melhor decorado, com computadores mais modernos. Deus diz:
Minhas filhas, ah, minhas filhas. Permitir-se meditar em justificativas para a corrupção redundou nisso. O errado passou a não ser mais tão errado assim pelo simples fato de vocês estarem se beneficiando com ele. Acontece que minhas leis, queridas, não admitem relativizações. O errado será sempre errado. Vê-las enveredar por caminhos tortos me entristece profundamente, porque ao optar por atender à lei do mundo, que é o egoísmo, vocês se distanciam de mim, vão para onde minha voz tende a ficar cada vez mais distante, cada vez mais fraca... Mas ainda assim eu vou falar.
Na tela vê-se Juliana correndo para pegar um elevador. Uma mulher que já estava lá segura a porta para que ela consiga.
- Nossa – pergunta Juliana depois de recuperar o fôlego - aonde você foi? Você não deveria estar de repouso por causa da cirurgia?
- Ai – responde a vizinha - tive que ir ao banco. Você acredita que eu entrei no INSS, recebi por lá e ainda assim a empresa me pagou o salário?
- Uau, que sorte, recebeu duas vezes!
Sua interlocutora franze a testa demonstrando estranhar esse comentário. Então acrescenta:
- É, então eu fui lá devolver, né?
- Ah, eles descobriram a besteira que fizeram e te obrigaram a ir lá devolver?
- Imagina, Juliana. Logo que eu vi o meu saldo e percebi a mancada eu liguei pra eles e contei o caso, né? Se não fosse isso acho que eles nem iam descobrir. Aí eles pediram pra eu fazer uma transferência, só que a esquecida aqui não lembrou a senha do atendimento telefônico do banco. Não teve outro jeito se não ir lá...
Enquanto o elevador continua subindo, elas permanecem em silêncio. Vê-se que Juliana ficou muito impressionada com aquela história. Enfim, o elevador pára, a vizinha abre a porta e sai se despedindo.
- Tchau, Juliana. Ah, eu não desisti de te levar um dia na minha igreja. Que tal este sábado à tarde?
- Eu tô livre no sábado... – Juliana se surpreende respondendo sem qualquer reflexão. Enquanto a porta se fecha, a vizinha arremata:
- Que ótimo! Combinado então, a gente passa no teu apartamento pra te pegar às quatro e meia!
- C-combinado – responde gaguejante uma perplexa Juliana.
Enquanto a tela se divide para mostrar, numa metade, Juliana na sacada de seu apartamento, com aspecto reflexivo e, na outra metade, Karen de costas para outra sacada de outro apartamento, rindo largamente com um telefone ao ouvido e um copo na outra mão, Deus diz:
A escolha é individual. Partilhar da minha justiça, não ignorá-la, é algo que cada um deve decidir em seu íntimo. Meus esforços acabaram surtindo efeito para Juliana, mas não para Karen...
Ouve-se Karen dizer ao telefone:
- É isso aí, conseguimos fechar com mais duas prefeituras. A coisa tá de vento em “polpa”! ... Ah, mãe, não vem me dar sermão não que eu não tô pra isso, hein? Eu sou bem grandinha e sei o que tô fazendo!...
Na outra metade da tela, ao mesmo tempo, Juliana ora angustiada na sacada de seu apartamento:
- Meu Deus, isso está errado, isso está errado! Eu sei que está errado, eu não suporto mais saber isso e continuar nessa vida. Ah, meu Deus, me dá coragem para sair! Em nome de Jesus, me salva, Deus!
Juliana – é a resposta de Deus - você acaba de constituir como seu advogado o meu filho amado. Através do sangue que Ele derramou na cruz, os seus muitos pecados podem ser lavados e esquecidos. Sua culpa recai sobre Ele, de modo que o seu pecado passa a ser dele e a justiça dEle passa a ser sua. Assim, minha Justiça não é arranhada ao Eu perdoar você. Em outras palavras, você acaba de fazer a decisão mais sábia e feliz de toda sua vida! Você acaba de começar a viver e viver com abundância!
Deus levanta Sua mão e toca a tela, fazendo-a com que se enrugue como se fosse um espelho de água. Juliana abre os olhos de sua oração, perscruta um pouco a paisagem da sacada de seu apartamento e sorri, apaziguada. A cena se embaralha e, quando fica nítida outra vez, mostra Juliana andando por uma calçada sorridente até que vê Karen passando num belo carro, ao celular e dando gargalhadas. O rosto de Juliana se encrespa todo, deixando transparecer indignação. Ao vê-lo, Deus diz:
Agora aqui está você, filha. Não tem mais a vida opulenta que tinha nos tempos de sociedade com Karen. Está lutando para pagar as contas enquanto Karen parece progredir e progredir sem parar. Você não entende a prosperidade dela, preferiria ver sua antiga amiga passando por maus bocados em alguma CPI. Mas Eu sou o juiz de toda terra, filha, e farei justiça. Ao meu tempo eu o farei. Todos um dia terão de comparecer ao meu tribunal e infelizmente nem todos terão o advogado que você constituiu para si, porque O rejeitaram. Até que esse dia chegue, Juliana, viva na paz que eu te dei e que vale mais do que qualquer tesouro que o homem pode forjar, enquanto eu continuo falando ao coração de Karen. Quem sabe algum dia ela não escuta?
Juliana retoma seu caminho, voltando a sorrir após alguns instantes.
“Justo és, Senhor, e retas são as tuas ordenanças.” (Salmo 119:137, NVI)
Posted by marcol at 8:28 AM | Comments (0)
setembro 17, 2007
Besteirol
Pérolas de çabedoria (com cê cedilha)
Eis aqui uma dica espetacular dele, o mago da auto ajuda. Ou melhor, o magro alto que ajuda: Gosberto Chin É Chique, colaborador bissexto deste blog. Ou seja, ele só escreve em anos bissextos. Pela contagem suméria, claro. Dessa vez ele vai abordar um tema tão profundo quanto o abismo de onde saiu Marta Suplicy, vai fazer analogias tão brilhantes como as empregadas por Lula em seus discursos improvisados e tirar conclusões tão certeiras quanto as que Carlos Alberto Parreira é capaz de tirar de seus compromissos pela seleção sul-africana:
Muitas pessoas querem ser aquilo que não são e acabam mostrando ser aquilo que não queriam ser, acreditando mostrar ser aquilo que imaginavam que seriam caso não fossem o que são. É como ilustra a pequena fábula do búfalo solitário, contada pelos celtas geração após geração, à luz da fogueira que arde eternamente sobre o monte Kiribati:
Havia em um certo vale pantanoso, um pequeno ornitorrinco que queria ser bombeiro. O pequeno ornitorrinco falava a todos que encontrasse de seu desejo intenso de um dia ser bombeiro e poder apagar um incêndio na floresta. A pequena gralha argumentava com o pequeno ornitorrinco que a idéia era esdrúxula, na medida em que viviam eles num vale pantanoso, e não em uma floresta, mas nada abalava o ânimo do pequeno ornitorrinco. Num belo dia (e isso é apenas força de expressão, já que o dia estava terrível, chovendo, frio e com reprises de filmes dos Trapalhões o dia todo na tV), apareceu no vale pantanoso o Monstro do Pântano, perguntando ao pequeno ornitorrinco se ele sabia onde estava o seu vidro de gel. O pequeno ornitorrinco, então, disse ao Monstro que não sabia, mas que queria ser bombeiro. Aí então...
Bem, aí então ninguém sabe o final da história, porque há 658 anos, quando tatatatatatatatataravô celta contava essa história ao tatatatatatatatatataravô celta, seu filho, teve um súbito ataque cardíaco e morreu, interrompendo a narrativa dessa forma abrupta. A história passou a ser contada de forma incompleta, mas nem precisamos saber tudo para tirarmos uma conclusão valiosa: não devemos ser aquilo que não somos. Para sermos seres integrais, completamente completos, precisamos admitir que não somos outra coisa se não exatamente aquilo que somos, embora não tenhamos a menor idéia do que é isso.
Depois eu volto, pequeno gafanhoto. Mas antes, faça o seguinte exercício espiritual: levante os braços lentamente deixando o ar expirar, e dobre o tronco até formar a figura de um tigre siberiano dançando polca. Tente imaginar um catavento sendo destroçado por uma ariranha bêbada. Diga três vezes: "Sofia Loren", então abra os olhos lentamente e mergulhe na primeira piscina de bolinhas que encontrar. Você vai se sentir muito melhor.
Posted by marcol at 7:39 PM | Comments (3)
setembro 14, 2007
Comemorêichans
90.000 visitas

A marca cabalística das 90 mil visitas merece estourar uma garrafa de suco de umbu. Este blogue já é maior de idade, já faz barba e já tem certeza de que não sabe a que veio a este mundo.
Pelo menos ele serve pra postar fotos de biscoitudas. E esta marca será comemorada com duas das mais belas brasileiras, que só perdem pra senhora minha costela em termos de belezura. Carolina Dieckman e Thais Araujo. United Collors of Marcón.
Desculpem a zona feita no template, culpa do novo sistema de postagem aqui do Verbeat, de minha inépcia energumecial e da minha pressa pra irmembora também, que já deu. Esta semana terminou, bom sábado everyone!
Posted by marcol at 5:09 PM | Comments (2)
Coisas da fé
Este é o nosso Deus
5. Soberania
A festa de aniversário se embalava ao som do barulho das crianças que corriam pelas escadas e ao som do cd player que repetia o mesmo CD do Djavan sem parar. Assentado em um sofá de uma das salas, um jovem casal parece alheio a tudo. As risadas, os olhares e o gestual todo indicam que estão em outro mundo. Mas no mundo de cá, Selma observa com aspecto grave, à distância. Osvaldo se aproxima falando com a boca cheia:
- Esse sanduíche tá uma delícia.
- Hein?
- O que foi, Selma? Eu conheço essa sua cara...
- Ai – Selma inclina a cabeça para o lado indicando o casal com os olhos - olha lá o Vadinho, Osvaldo. Está conversando com aquela Janice...
- E qual é o problema?
- O problema – Selma enfatiza com as mãos - é que eles não estão só conversando, você não está vendo?
Osvaldo torna a perguntar, acentuando as palavras e alçando as sobrancelhas:
- E qual é o problema, Selma?
- Essa menina não é pra ele, Osvaldo. Eu sei que não é. Ela não tá fazendo uma faculdade de primeira linha, tá estudando Fisioterapia, Psicologia, sei eu, uma dessas coisas...
- E daí, Selma? – Osvaldo pergunta rindo - Desde quando isso é demérito?
- E daí que a gente cria esse garoto com o bom e o melhor pra ver ele fazer besteira, Osvaldo? Eu sei o que é melhor pra ele, tenho muito mais experiência e sonho com o futuro desse garoto desde antes de ele poder ser chamado de gente!
- É a vida dele, Selma, você não tem o direito de conduzir tudo. Ela me parece uma boa moça, se ele gostar dela e ela dele, deixa eles, oras.
- Deixa eles? Rá, Osvaldo, você sabe muito bem que eu não sou expectadora, não. Eu faço as coisas acontecerem.
Enquanto a discussão prossegue, vendo a cena de Seu telão, Deus diz:
É verdade, Selma. Você faz acontecer. Toma atitudes precipitadas, faz julgamentos rasteiros, age sem pensar, mas se consola dizendo de si pra si que está é seguindo o seu coração. Foi isso que você aprendeu com tudo o que leu e ouviu. Infelizmente você leu e ouviu as coisas erradas, porque a minha palavra diz que “enganoso é o coração mais que todas as coisas”. Além disso, você acredita que deve determinar o curso da vida das outras pessoas segundo o que acha ser o melhor, mas você não é Deus, Selma. Eu sou Deus e ainda assim respeito as vontades das pessoas. Eu quero te ensinar a me consultar e a confiar em mim o que você tem de mais precioso, inclusive o destino de seu filho, por quem eu olho desde antes mesmo de você! Hoje eu vou inspirar seu marido na esperança de que você entenda...
Com um gesto Seu, a tela se enruga em círculos concêntricos como se fosse de água e como se sobre ela houvesse caído uma pedra. Osvaldo, em resposta, aparenta ter uma idéia, e diz:
- Selma, você lembra daquela história de você impedir sua mãe de vender o apartamento do Guarujá? Ela precisava daquele dinheiro pra concluir o sonho dela, mas você veio com aquele discurso de ela estar dilapidando o patrimônio da família e aí o que conseguiu? Ela morreu sem fazer a viagem pra Grécia que sonhou sei lá quanto tempo e hoje a gente tem um apartamento fechado 365 dias por ano, que vale menos e menos a cada ano que passa.
Selma aparenta ter sido tocada com aquela lembrança, mas em seguida chacoalha a cabeça e diz:
- O que é que isso tem a ver, Osvaldo?
- É esse teu negócio de sair intervindo na vida das pessoas, você não pode fazer isso. Teu filho já tem 21 anos, é um rapaz de ouro e a gente tem que confiar na criação que deu pra ele. Se ele vier pedir sua opinião, ok, fale pra ele, mas se não, respeite e encoraje, esse é o papel dos pais...
- Osvaldo, por favor, me poupe de ouvir asneiras. Credo! “Papel dos pais”, hmpf.
Osvaldo aparenta desistir e retorna com ímpeto ao sanduíche que continuava segurando, enquanto Deus fala:
Ok. Como já disse, eu respeito sua decisão de continuar confiando em seu faro e de adotar para com as outras pessoas uma atitude tão avessa à minha própria.
Ele faz um gesto de fast forward e então se vê na tela Vadinho chegando em casa e largando a mochila sobre um sofá enquanto Selma está colocando comida na mesa. Vadinho beija a mãe e belisca alguma coisa que ela está servindo. Ela faz de conta que fica brava e dá um tapinha na mão dele.
- Mãe, a Janice ligou?
Selma pigarreia, coça a nuca e responde:
- Janice? Que Janice?
- A filha do Antenor, aquele primo do tio Cássio...
- Não, não ligou não. Por que, ela ficou de ligar?
- É...
- Rá, aquela lá, filho, tem jeito de que tem muita gente pra quem ligar...
- Você acha? pergunta Vadinho espantado.
Ela faz um meneio de cabeça do tipo “eu preferiria que fosse diferente, mas...” e enquanto prossegue falando, a voz de Deus se sobrepõe:
E assim, com mentiras e falsos testemunhos, você vai minando o interesse de seu filho por ela. Seus caminhos vão se separar, como você quis. Seu filho continua o curso de engenharia, passa algum tempo no exterior, consegue uma posição de trainee numa grande companhia, tudo como você queria. Eu respeito sua decisão de não ouvir minha voz e de agir de forma diferente da minha, Selma, mas você precisa saber que Eu tenho planos. E, neles, seu filho e Janice fariam uma obra fantástica juntos. Se eles decidirem não seguir esse caminho, respeitarei, mas a história deles ainda não terminou.
Agora Vadinho, mais velho, com cabelos mais compridos, está dirigindo quando vê Janice caminhando pela calçada. Ele pára abruptamente, abre o vidro e chama por ela, que atende com agradável surpresa.
- Nossa – ele exclama - que legal te encontrar! E pensar que eu tô atrasado hoje, se saísse na hora de sempre não te encontrava... Acho que eu tô com sorte!
Ela dá um sorrisinho e diz, baixinho:
- Estamos...
- Nossa, faz tanto tempo! Eu te liguei depois do aniversário do Cássio, não te achei, pedi pra sua mãe te dar o recado... lembro direitinho, tinha uma festa que eu tinha pensado em perguntar se você queria ir...
- Ué, mas eu liguei, uma ou duas vezes. Deixei recado com a empregada.
- Será que a Janete não avisou minha mãe? ele disse de si para si, mas em seguida acrescentou: Olha, vão começar a buzinar aí atrás, mas a gente precisa colocar o papo em dia!
- É verdade. Anota meu celular dessa vez, vai.
Vadinho, pegando o celular dele pra anotar: Fala...
Vê-se, então, uma Selma contrariada, abrindo a cortina da sala e vendo Vadinho e Janice descendo do carro e vindo abraçados para a porta. É quando Deus conclui:
Janice vai ser o grande consolo e suporte em sua velhice, Selma. Além disso, ela tem muita coisa para lhe ensinar, e uma das razões pelas quais eu cumpro minha vontade contra a sua é por amá-la demais. Por saber que você, sem as coisas que ela vai ensinar, é muito menos do que eu sonhei a seu respeito também. E por saber que esse será um grande casal, conhecedor de Mim e confiante em minha guia, do tipo cujo lar se torna um porto seguro e um exemplo para muita gente, além de tantas outras coisas que você não entenderia nessa vida. Vou continuar atuando ao seu redor para que você um dia abra os olhos e tome as decisões necessárias para estar no ambiente em que todas essas coisas lhe serão reveladas. Vou continuar agindo para que você saiba que eu Sou Deus.
“Seu é o grande poder, e a glória, e a vitória, e a majestade. Tudo o que existe nos céus e na terra é Seu, ó Senhor, e Seu é esse reino. Nós adoramos a Deus porque Ele dirige todas as coisas.” (1 Crônicas 29:11, BV).
Posted by marcol at 8:10 AM | Comments (1)
setembro 10, 2007
Culturais

Este feriado serviu para eu conseguir ver Maria Antonieta, da Sofia Coppola. Estava na mira havia tempos, já que assisti e gostei bastante de seus dois filmes anteriores, Virgens Suicidas e Lost in Translation.
É inegável que ela filme muito bem. Este último trabalho adicionou uma produção infinitamente mais esmerada e requintada, já que falar de Maria Antonieta é falar de um figurino exuberante. E o filme não decepciona, é uma festa pros olhos com seu desfile de roupas, sapatos, penteados, comidas. Ajuda a acompanhar o fio do enredo conhecer um pouco da História, nem tudo é muito explicado. Kirsten Dunst está ótima, pra variar, mas nem tudo são flores - ou anáguas rendadas. O filme dá uma certa desandada no final, quando as atitudes dos personagens soam um pouco implausíveis e quando certas situações simplesmente não são finalizadas. O rei e a rainha são enxovalhados do palácio de Versalhes e vão para a guilhotina (que não é mostrada, o que é um trunfo, porque seria um ápice trágico fácil e por isso mesmo dispensável) trocando olhares como se se amassem perdidamente. Estranho, porque no período imediatamente anterior Maria Antonieta está pelos matos do palácio com um sueco e o rei correndo atrás de raposas, apenas.
Apesar da leve desandada, o filme merece ser recomendado, decididamente. A filha do Francis é uma cineasta, a toda prova.
Posted by marcol at 9:01 AM | Comments (2)
setembro 5, 2007
Pessoais
Envelheço na cidade
Mas quase não. Ontem estive em Salvador, bate-volta (do tipo o táxi do aeroporto fica na porta esperando pra me levar de volta ao aeroporto). No retorno, contudo, o caos aéreo me fez ir parar em Viracopos às 23h00, ao invés de em Cumbica às 21h00. Aluguei um carro e desabei na cama ao lado quente de minha patroa, já no dia de meu natalício.
Fazer aniversário é bão. A gente sente a decrepitude batendo e analisa a necessidade de comprar Renew. Aí afasta a idéia, coisa de fruta, sô.
Helio Serafino, primo, comparsa, companheiro de composições musicais e outras coisas menos sublimes e, sobretudo, co-autor do finado Ernestinho e Suas Mulatas Besuntadas já tinha feito uma bonita homenagem pública no mesmo Ernestinho há 4 anos. Agora, a homenagem era particular mas eu a torno pública, pra você chorar lágrimas de emoção intensa junto comigo:
Em meados da década de 80, quando o porno-designer Hans Donner, então no auge de sua profícua e criativa carreira, ainda transformava nas vinhetas globais mulheres peladas em coqueiros, berimbaus, monjolos e quejandos, um menino tímido, alto e desengonçado volta para casa depois de mais um dia de aula, como de costume. Trajando um uniforme da escola adventista remendado nos fundilhos com um tecido azul com bolinhas amarelas, de padrão bizarramente diferente do tradicional marrom com bege (pois sua avó – um caso feminino raríssimo de daltonismo – sempre dizia: “à noite e de dia, pra mim, todos os gatos são pardos...”), o garoto, com indizível ansiedade, dispara em direção ao seu quarto, largando a mochila de qualquer jeito no meio da escada.
O motivo para tanto alvoroço é um só: hoje, finalmente, ele terminará sua obra-prima. Meses de dedicação e sacrifício, mas valeu a pena! Uma escultura de coruja, em tamanho natural, feita com caca de nariz. Seu próprio nariz. Isso é o que o menino sabe fazer de melhor. Seu motivo de orgulho. Sua arte...
Marcão, o rapazinho dessa história não é você. Mas bem que poderia ter sido...
Moral da história: no dia em que você comemora seu natalício, lembre-se de que só existe uma coisa que dura para sempre (além, é claro, de uma caixa de Maizena): o amor. Por isso, siga sempre seu coração, pois se você for por um lado e ele por outro, isso é sinal de que você vai ouvir “Unchained Melody” junto com o Patrick Swayze pro resto da vida, ou melhor, pós-vida; só que sem a Demi Moore.
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Agradeço a Deus com tudo que tenho e sou. Foram bons 34 anos.
Posted by marcol at 5:20 PM | Comments (3)
setembro 3, 2007
Culturais
Até o papa é pop mas eu não sou
Na metade dos anos 80 pipocaram bandas de rock nacional por estas bandas. Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, principalmente. Era mesmo um fenômeno interessante de se ver: pela primeira vez, atitude, barulhos, caras e bocas e até roupas diferentes da estética pseudo-sofisticada bossa nova ou escancaradamente carnavalesca do samba ou extremamente sentimentalóide-choramingosa do choro neste país. E, claro, com um salto de qualidade em relação ao pseudo-rock da jovem guarda.
Na segunda metade da década, quando as músicas dessas bandas ganharam as rádios, elas começaram a desfilar por palcos pouco adequados - pra dizer o mínimo - para seu discurso e atitude. Titãs (que, toda vez que eu ouvia ser anunciado crescia o ouvido, na esperança de estarem falando dos Novos Titâs, meus heróis prediletos), Paralamas do Sucesso, RPM, Barão Vermelho, todas elas deram as caras em programas como Viva a Noite, Silvio Santos, Xou da Xuxa, Raul Gil, Bolinha, Chacrinha e que tais. Que visão escalafobética a desses caras dublando suas músicas com dançarinas atrás; guitarra e baixo sem fio, microfone do vocalista sem fio, a bateria só uma caixa e um prato. Em suma: ridículo.
Das grandes, apenas duas bandas não deram as caras na televisão: Legião Urbana e Ira!.
Legião Urbana tinha as melhores composições e Ira! tinha, disparado, os melhores instrumentistas. Essa última, por ser paulistana e com uma temática muito próxima, foi a que acompanhei melhor.
Eles estouraram com o disco Vivendo e Não Aprendendo (frase que compõe um dos versos do coro de um dos hinos nacionais de minha adolescência, a bela XV anos).
Se a memória não me falha, chegaram a vender 250.000 cópias desse disco, número que pra época era grandes coisas e que hoje voltou a ser. O sucesso se deveu a boas músicas como Envelheço na Cidade e Dias de Luta e ao fato da esquisita mas bonita Flores em Você ter sido escolhida como música de abertura da novela O outro, da Globo.
Eu estava na pequena Sapiranga-RS em julho de 1988, quando o Ira! lançou seu disco seguinte, Psicoacústica. Lembro de haver entrado numa loja de discos de lá e perguntado se eles tinham. Me surpreendi quando a resposta foi afirmativa e pedi pra ouvir. Achei tudo muito estranho. Hoje o disco é tido e havido como um clássico, mas a verdade é que ele continua sendo muito estranho. Eles abusaram de músicas mais pesadas, com guitarras fantasmagóricas, uma forma diferente de captação do som da bateria - sem microfones em cada caixa, mas pegando o som como um todo -
e cometeram uma verdadeira heresia: misturaram elementos de - argh! - rap em uma das faixas. Sim, naqueles tempos, rock tinha que ser puro, só baixo, guitarra, bateria e voz berrada. Dessa forma eles foram precursores das misturebas sonoras que viraram objeto de aplausos na década seguinte.
De qualquer forma, ficou muito clara uma coisa: o Ira! se assustou com a fama. Eles não queriam ser vistos como astros Pop, mas como rockeiros, aqueles caras marginais, que pouca gente entende e que não estão ligando muito pra isso, por essa razão fizeram questão de frustrar todas as expectativas rejeitando convites para aparecer na televisão e lançando discos experimentais, revolucionários, densos e anos-luz distante dos gostos das grandes massas. Some-se a isso uma fase - bem longa, aliás - de abuso de drogas, que se refletiu na qualidade de suas composições e a banda decretou seu passaporte para o segundo escalão do rock nacional, onde permaneceu e permanece até hoje, a despeito do sucesso de seu disco pela MTV.
Sua aversão ao pop os relegou ao papel que desejavam na verdade. É óbvio que em diversos momentos deixaram transparecer algum arrependimento dessa escolha, mas mantém a pose. Ainda lembro de ter visto Nasi, o vocalista, andando num Tipo com o porta-malas amarrado com uma cordinha. Havendo ou não recebido o que queriam, fato é que eles foram e são subvalorizados no painel musical brasileiro.
E eu lembrei dessa história toda ouvindo as músicas dos últimos discos do Los Hermanos. Eles estouraram com o coro grudento de Ana Júlia e do mesmo jeito que os paulistas, pareceram se assustar com um sucesso escorado em baladinhas de coro grudento. Por isso, as músicas de seus outros dois trabalhos não têm coro. Necas de coro. Quer coisa mais anti-pop que isso? Como, contudo, gosto das melodias que eles desenham e gosto dos temas incomuns e arranjos bem bolados deles, desejo-lhes mais sorte na vida que tiveram os autores dos hinos nacionais da minha adolescência.
Posted by marcol at 9:27 AM | Comments (4)