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agosto 21, 2007

viver e cantar

Nos últimos anos tenho ouvido muito pouca coisa que não seja música cristã. Um problema é que há bem pouca coisa passível de ser chamada de muito boa nesse filão aqui no Brasil. O casamento de uma letra inspirada, com arranjos, produção e repertório idem é raro.

Foi com alívio, portanto, que descobri que o trabalho do Leonardo Gonçalves está nessa faixa minoritária. Acaba de sair seu segundo CD, Viver e Cantar.

Vê-se que a gravadora (Novo Tempo) deu-lhe liberdade completa. Uma coisa boa da música cristã é que não se espera de seus protagonistas fidelidade estrita a um estilo musical. Eles podem, portanto, flertar com diversas linguagens. Poucos, contudo, são tão versáteis quanto o Leonardo. Leo.jpg Certa vez estive numa loja evangélica na Rua Conde de Sarzêdas aqui em São Paulo, cujo dono entende muito de música; comentando sobre o Leonardo ele fez um comentário esclarecedor: ele não conhece nenhum outro artista procurado por tanta gente diferente: negros, brancos, jovens e velhos parecem gostar do que ele faz. Pois bem, nesse trabalho ele flerta com inúmeras linguagens, a exemplo do que já acontecera em seu primeiro CD. Ele pode num momento inserir elementos de flamenco, noutro abraçar a black music, para na sequência empregar arranjos inspiradíssimos de cordas, vocais inusitados, música hebraica e MPB.

Aqui, contudo, vê-se mais ousadia e mais maturidade. As composições todas têm letras muito substanciosas. A maturidade transparece, por exemplo, na inclusão de três músicas que tratam da liberdade em Cristo. "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará", mas para a maioria esmagadora das pessoas, o cristianismo é o fim da liberdade, é onde você tem que respeitar regras e padrões de comportamento. Entender o caráter libertário da fé requer reflexão e tempo.

São 18 faixas (há algumas vinhetas, prelúdio, interlúdio e poslúdio, todas a capella com ele próprio fazendo ao mesmo tempo 4 vozes diferentes) que requerem alguma digestão, portanto fica difícil destacar momentos mais brilhantes. Gostei, numa segunda audição, de absolutamente tudo, destacando-se a densa "Ele virá", a minimalista e maravilhosamente arranjada "Um dia" e a de coro pegajoso de tão belo "Ele vive".

O CD está dividido em três "livros" ou "CDs": História da Redenção", "Relacionamento com D-us" (influenciado pelo judaísmo, Leo não grafa Deus no encarte) e "Louvor e Adoração". Foi algo pensado, meditado e burilado, o que explica ter demorado tanto a acontecer. Uma outra coisa que fica bastante clara é a incrível capacidade vocal dele.

O Leonardo viveu um tempo com a família na Alemanha e é formado em Letras. Lembro quando ele pintou por aqui. Foi estudar no colégio interno IASP (hoje Unasp campus 3), em Hortolândia-SP, aonde foi convidado a integrar um grupo vocal chamado Tom de Vida. Havia acabado de deixar o colégio um cara que tinha ficado relativamente famoso cantando justamente no Tom de Vida e solando algumas músicas mais populares. Precisavam de um substituto, mas para um menino de algo como 17 anos, substituir um cara famoso é sempre complicado. Inteligentemente, para evitar comparações e confusões, Leonardo inseriu na sua forma de cantar elementos da black music, ainda escassos por aqui, e deu muito certo.

Quando se anunciou o lançamento de seu primeiro CD, todos esperamos um trabalho bem convencional, bem ao gosto do grande público, com baladinhas pop, versões de músicas americanas e overdose de tecladinhos e percussões eletrônicas ralas. Optando por um caminho bem diferente, ele surpreendeu e angariou respeito. Taí o segundo CD para vaticinar e ampliar isso tudo.

Deus seja louvado por essas coisas belas.

Posted by marcol at agosto 21, 2007 10:57 AM

Comments

Olá Marco, tudo bom?

Gostei muito do seu texto. Será que poderia entrar em contato comigo no email citado, para conversarmos?

Posted by: Douglas at agosto 29, 2007 1:56 AM

O DVD também ficou bem interessante! Recomendo, pois.

Posted by: Tiago Jokura at agosto 27, 2007 10:35 AM

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