agosto 24, 2007
Este é o nosso Deus III
3. Onipotência
Em silêncio, Deus observa Sua grande tela dividida em incontáveis quadros, cada um com foco em uma pessoa diferente ao redor do mundo todo. O que há de comum entre cada uma delas é uma expressão de angústia ou desesperança nos olhos.
- Imaginem seus filhos se aproximando de vocês para pedir algo que vocês têm. Imaginem que esse algo não seja algo prejudicial para eles, é uma coisa boa. Uma mão para levantarem quando caírem. Agora imaginem seus filhos pedindo o que precisam e o que vocês querem dar como quem não crê que vocês vão se importar e dar. Como vocês se sentiriam? O que achariam se seus filhos duvidassem de sua capacidade para levantá-los do chão?Isso doeria fundo em seus corações, não é? Então por que agem para comigo como esses filhos imaginários? Por que, queridos, insistem em viver como se Eu não me importasse, como se Eu não pudesse resolver os problemas ou como se Eu fosse limitado pelas circunstâncias?
Na tela, um dos pequeninos quadros cresce e toma o primeiro plano. Mostra Raquel, uma jovem bióloga brasileira, no aeroporto de Kiev, tentando explicar que está ali para um congresso para o qual foi convidada. As autoridades locais abanam a cabeça e dizem em bom russo um monte de coisas que ela não entende exatamente mas cuja suma ela entende bem: ela não pode entrar no país. Ela arranha um inglês mequetrefe que eles não fazem questão de traduzir. Seu desespero é palpável e a faz orar por ajuda.
A um gesto de Deus, a tela se divide. Na outra metade vê-se um homem dirigindo um carro na mesma Kiev. A outro gesto, a tela se triparte e na terceira faixa vê-se um homem fazendo uma ligação telefônica. É para o homem do carro. Eles conversam em russo por um breve instante, ao cabo do qual o homem do carro dá meia volta e toma o sentido oposto. O terceiro homem desaparece, o homem do carro estaciona no aeroporto de Kiev e entra. Logo a tela tem uma cena só, onde se vê esse homem conversando com uma senhora que trabalha no aeroporto tendo ao fundo Raquel, fazendo uma última desesperada tentativa de demover as autoridades aeroportuárias. O homem ouve a cena, pede licença à sua interlocutora, se aproxima de Raquel e pergunto o que está havendo, em português. Ele troca três ou quatro frases em russo com os agentes e ela é finalmente liberada. Enquanto Raquel chora agradecida balbuciando “muito obrigado” dezenas de vezes, ele explica que é português, mas mora em Kiev e que por “acaso” teve de passar ali para desembaraçar uma carga.
- A encarnação de Meu Filho entre vocês – diz Deus fazendo com que a tela volte a ficar repartida em inúmeros pequenos quadros – deveria ser suficiente para que entendessem que Eu não sou indiferente e muito menos impotente. Deveria ser suficiente para que percebessem que tenho as chaves de situações para as quais vocês não têm a solução!
A tela volta a ser tomada por um único quadro, o de um homem sentado em um banco de praça em Toledo, na Espanha. Ele olha fixamente para o chão. Agitado, esfrega as mãos, reclina o corpo para frente, depois para trás, movimenta as pernas. Levando as mãos ao rosto, pressionando as têmporas, ele ora. Diz que não sabe se Deus realmente existe e se está ouvindo, mas ainda assim ele vai suplicar. Durante os mais de vinte minutos que duram essa oração desesperada, Deus sorri e, então meneia a cabeça a indicar aquiescência. O homem na tela abre os olhos, abaixa as mãos, paralisa as pernas. Olha em volta, respira profundamente e então enfia a mão no bolso, tira de lá um maço de cigarros que amassa lenta mas firmemente, jogando-o na lixeira ao lado. Então se levanta e vai.
- A cada instante vocês estão rodeados de milagres em curso, mas, como ovelhas, vocês enxergam muito mal. Não conseguem ver. Tratam o sublime como corriqueiro. Por isso não sabem que podem e devem recorrer a Mim. Que eu ouvirei e atenderei, porque Sou Pai, não sou indiferente. Que Eu farei muito mais do que vocês acham que precisam. Que Eu os salvarei. E que sua salvação começará com o mais fantástico de todos os milagres...
A tela se fecha no quadro que mostra um homem calvo e uma mulher de óculos em um laboratório. Eles estão discutindo, em inglês, os dados de uma pesquisa sobre certas funcionalidades do sistema muscular humano. De quando em quando o homem aperta os olhos num microscópio. De repente, seus olhos se fixam no nada. Ela pergunta o que há, ao que ele, pendulando levemente a cabeça, responde:
- Não, é que... acho que eu creio em Deus.
A mulher de óculos sorri e estremece um pouco. Sorrindo, do lado de cá do telão, Deus completa sua frase:
- ... o milagre da fé.
Posted by marcol at agosto 24, 2007 11:12 AM
Comments
Essa fábula me fez lembrar uma irmã do colégio onde estudei, que sempre falava de Deus assim, como um pai providencial ajudando sempre seus filhos. Bom pensar nele desse jeito. Beijo pra você.
Posted by: adelaide at agosto 27, 2007 4:34 PM