agosto 17, 2007
Este é o nosso Deus II
2. Onipresença
Mariana sobe pela escada carregando sacolas do supermercado. Está triste, não há dúvidas disso, seu rosto não esconde. Não esconde especialmente porque julga estar sozinha. Não está. Ao atingir o hall de seu apartamento, percebe que Sergio, o filho caçula da vizinha está à porta, desenhando no chão com canetinhas coloridas.
- Oi, tia Mariana!
- Oi, Serginho – e então, ela pergunta, só para ter algo pra dizer: Sua mãe já está em casa?
- Ainda não.
- O que você está desenhando? – Mariana pergunta enquanto aproxima a chave da fechadura de sua porta.
- Ah, é minha vó, que tá doente. Eu queria mostrar ela pra Deus, pra ele curar ela – ele mostra o desenho a ela e então fica pensativo alguns instantes - Aonde eu acho Deus pra mostrar meu desenho, tia Mariana?
Mariana acha graça, mas seu riso é frouxo. Ela dá de ombros.
- Eu não sei ........, eu realmente não sei – é o que sai enquanto abre a porta. Então se vira com ar amargo para dentro do apartamento e complementa baixinho, para que a criança não escute: Mas suspeito que não seja aqui dentro.
Vendo a cena por seu imenso telão, ainda acompanhando Mariana enquanto ela despeja as compras na cozinha e sai pelo apartamento arrumando as coisas, Deus diz:
- Tudo o que eu queria nesse momento, Mariana, é que você soubesse que eu também estou triste, embora por razões distintas. Você está arrasada por causa do divórcio. Você lutou muito, muito contra ele e agora sente uma mistura de solidão com derrota, como se não só o casamento tivesse acabado mas você tivesse fracassado como pessoa, também. Por isso todos esses lenços de papel das suas muitas noites de choro. Mas a minha tristeza vem do fato de você achar que eu não estou aqui do seu lado nesse exato momento, filha. Na hora em mais você precisa do meu abraço e na hora em que eu mais quero te dar o que você precisa...
Estendendo Sua mão para o telão, Deus a toca, mas ela não sente. Está colocando o lixo para fora, organizando as compras nos armários.
- ... você é simplesmente incapaz de me ver. Embora eu esteja aqui, tão perto.
Sobre a mesa da sala há uma Bíblia num pedestal. O vento que entra pela janela agita as folhas e faz com que ela pare em Isaías, exatamente aonde se lê: “Não temas porque sou contigo; não te assombres porque sou teu Deus; eu te fortaleço e te ajudo e te sustento com a destra da minha justiça” Isaías 41:10.
“Deus” com um gesto paralisa a imagem e diz: Suas lágrimas poderiam servir como o colírio que a faz enxergar, mas você as trata como vendas. Será preciso te levar a algum lugar improvável para você conseguir enxergar finalmente. Você nem sabe, mas já estou trabalhando nisso.
Vemos agora Mariana num dia ensolarado, caminhando pela calçada enquanto atende a uma ligação no celular:
- Alô? Oi, Ricardo, tudo bom? Tudo. Não, não estou no banco, eu saí para ver um... Opa, boa notícia é sempre bom e eu estou mesmo precisando. Transferência? Que transf... ? Ah, aquela que eu pedi logo depois do divór... Pra onde mesmo? Betel, Paraná?
Ela aparenta estar desconsolada, mas disfarça bem:
- Puxa... obrigado, Ricardo! É, foi mesmo muita sorte... – com um sorriso amarelo.
Muda a cena: Mariana está em sua casa, abrindo um mapa e procurando pela sua nova cidade com ar assustado. Deus assiste:
- Chega a ser engraçado ver você formular em pensamento a pergunta que todo mundo faz: aonde está Deus uma hora dessas? Eu gostaria que você soubesse, filha, que ser Deus me dá algumas prerrogativas e dentre elas a de poder estar no lugar exato em que um pai que ama seu filho quer ser sempre estar: perto dele. Você vai encontrar em sua nova vida coisas muito mais preciosas do que aquilo a que dava tanto valor há alguns meses. Mas não precisa chegar lá para me encontrar, eu vou contigo pelo caminho!
A cena na tela se embaralha e vê-se surgir uma outra, Mariana em seu carro, com um mapa ao lado, pegando uma estrada estreita e bem arborizada. Mariana consulta o mapa de quando em quando, olha nas placas mas de repente é surpreendida por um engasgo seco do motor, que desliga na seqüência. Parando o carro no acostamento, Mariana começa a chorar. Mas antes mesmo de conseguir esboçar qualquer reação, um outro carro encosta atrás. Um homem de branco pergunta se ela quer ajuda. Em poucos instantes, o carro está funcionando outra vez.
- Para onde a senhora está indo?
- Betel.
- Betel? Ah, mas a entrada passou há seis quilômetros.
- Puxa, o senhor é um anjo mesmo, muito obrigada! Aonde eu iria parar se não te encontrasse?
Ele dá uma risadinha:
- Pois é... aonde?
Mariana agradece mais uma vez secando suas lágrimas, dá meia volta com o automóvel e avança em sentido contrário ao que estava tomando, enquanto o homem que a ajudou permanecia no meio da estrada, o braço direito estendido num gesto que poderia ser um adeus, mas que na verdade era uma benção.
“Para onde poderia eu escapar do teu Espírito? Para onde poderia fugir da Tua presença? Se eu subir aos céus, lá estás; se eu fizer a minha cama na sepultura, também lá estás. Se eu subir com as asas da alvorada e morar na extremidade do mar, mesmo ali a Tua mão direita me guiará e me susterá.” (Salmo 139:7-10).
Posted by marcol at agosto 17, 2007 10:41 AM