« Culturais | Main | Culturais »
agosto 31, 2007
Coisas da fé
Este é o nosso Deus IV
4. Imutabilidade
Marcio está dirigindo sem nem saber muito bem para onde. A paisagem se alterna ao redor dele, mas sua mente voa muito longe. Sobre o banco do passageiro, a carta que oficializa o convite feito por uma grande consultoria para ser trainee. Na mente, a batalha entre a vontade de acomodar-se no pequeno escritório de contabilidade de seu pai e o desejo de, mesmo ganhando bem menos a princípio, alçar um vôo solo, fazer sua própria história, criar uma carreira.
Com um fundo suspiro, Marcio começa a mudar o dial do rádio a esmo, parando um pouco em cada resultado. Na terceira estação, sua atenção é capturada pelo coro de uma música:
Então prossiga/ Pelo seu ideal/ e vá lutando pra alcançá-lo afinal...
Marcio começa a rir, e, olhando para cima, diz: “obrigado, Pai!”enquanto a melodia prossegue:
Tudo é possível/ pois esse Deus de amor/ move as montanhas/ se preciso for
Olhando a cena de sua tela, Deus diz: - Ah, Marcio, como é bom ver que você reconhece minha voz falando com você. Usei essa música para lhe encorajar a perseguir esse seu sonho, porque esse passo é importante no processo de amadurecimento. E a obra que eu tenho para você requer um outro Marcio, sabedor de outras coisas... Mas essa habilidade para reconhecer minha voz quando ela fala com você depende de que passe tempo comigo. E, infelizmente, nem sempre você vai dedicar tempo a mim.
A um gesto de Deus, a cena se alterna para mostrar um instante futuro. Marcio está agora com o cabelo mais curto e trabalha em casa sobre um notebook, com uma calculadora financeira ao lado e papéis espalhados pela mesa. No canto, lá no fundo, em meio a uma porção de livros, uma Bíblia fechada.
Deus: Embora eu queira vê-lo maduro e crescendo profissionalmente, jamais pediria que isso fosse alcançado com o sacrifício de tempo de relacionamento comigo e com sua família. Aí está você, trabalhando o final de semana inteiro para a vaga de analista sênior. Sem perceber, mudanças profundas estão acontecendo dentro de você, levando-o para longe de mim. E isso se reflete não apenas na incapacidade de ouvir minha voz...
Na tela que Deus tem a sua frente, nota-se que pela janela entreaberta da sala de Márcio uma melodia vinda não se sabe de onde se insinua para dentro:
Hoje é o dia de voltar/ Não, não olhes para trás/ se teu coração falar/ não adies nada mais/ É Jesus que fala ass...
Nesse momento, Marcio fecha a janela para não ser incomodado.
Deus: ... isso se reflete também nos novos prazeres que você escolheu, no egoísmo extremo de suas atitudes e principalmente nos novos tipos de relacionamento em que se meteu. Não por acaso, todos eles acabam de forma muito parecida.
Na tela vê-se uma rápida sucessão de cenas muito parecidas. Vê-se a porta do apartamento de Marcio se abrindo com fúria para a saída de uma moça carregada de malas.
- Você é um porco, Marcio! Não sei como eu fui perder tanto tempo com um egoísta como você...
E outra, também puxando uma grande mala:
- Você é um monstro, Marcio, um monstro! Só olha pro seu umbigo. Você acha que eu tenho que ficar perdoando suas escorregadas pro resto da vida?
Outro fade para outra despedida:
- Você é um idiota, Marcio! Quando você descobrir o que quer da vida vai ser tarde demais. Aliás, já é. Cresce!
Deus com um gesto paralisa a imagem em close no rosto contrariado de Marcio antes que ele comece se discurso de tentativa de convencimento: Você tentou reatar com todas elas e não conseguiu. Percebeu que traiu sua confiança e agora é impossível fazer com que elas acreditem que você pode ser a mesma pessoa por quem elas se apaixonaram um dia. Você está convencido de que uma vez que magoe alguém, terá posto a perder o relacionamento com ele para sempre, porque a atitude desse alguém para contigo vai ter que mudar, necessariamente. Eu quero te mostrar que isso pode ser verdade, em regra, quando se trata de relacionamentos humanos, mas que eu sou diferente. E que ainda nutro por você o mesmo sentimento de quando você reconhecia minha voz nas músicas que ouvia. Hoje, Marcio, eu vou ser bem explícito:
Muda a cena outra vez. Marcio está sozinho em seu sofá, com um pacote de biscoitos na mão. Atrás dele, uma árvore de natal piscando melancolicamente. Ele toma o controle remoto da TV e começa a zapear pelos canais. Num deles, uma música está sendo executada com a legenda “música especial de natal”. A câmera percorre os rostos de jovens de um coral vestidos com camisas de diversas cores. Antes de abrirem a boca para a primeira frase, contudo, Deus recita o primeiro verso e assim sucessivamente:
Tudo que eu criei foi pra você/ O vento que eu soprei fez você viver/ Um dia contemplando o que eu construí/ Eu planejei fazer você feliz/ Mesmo assim, o que aconteceu?/ Você não me conhece ou se esqueceu/ Eu olho e então te vejo tão longe de mim/ Mas sei que vou fazer você feliz/ Eu não mudei, ainda sou o mesmo / Meus braços inda estão abertos Minhas mãos estão feridas/ Eu não mudei / Ainda sou o mesmo/ Tão cheio de amor/ Volte pra mim porque eu não mudei
Enquanto grossas lágrimas escorrem do rosto de Marcio, Deus sorri e chora também.
“Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, que não muda como sombras inconstantes” (Tiago 1:17 NIV).
Nota: a primeira música citada é “Prossiga”, gravada por Ronaldo Arco. A segunda é “Hoje é dia de voltar”, gravação do grupo Carisma. A última é “Ainda sou o mesmo”, composição de Evaldo Vicente gravada pelo Coral Adventista Jovem do Rio (que de fato esteve na televisão no natal de 1999, mais precisamente no programa dominical da apresentadora Xuxa) e por Regina Mota.
Posted by marcol at agosto 31, 2007 8:38 AM