julho 20, 2007
Esperança
Na segunda-feira passada, ligo para a agência de viagens e acerto os detalhes da ida a Porto Alegre: reservas para mim, um colega e meu chefe, que viria da Argentina especialmente para a reunião na capital gaúcha, saindo às nove da manhã de Congonhas e voltando para o mesmo aeroporto no vôo que partia de lá às 17h40.
Não, não fomos salvos por algum acaso feliz, a viagem foi na quarta-feira, e não na terça. O vôo que deveria ter saído às 09h00 foi sair às 12h30 e o que deveria ter partido de Porto Alegre às 17h40 só foi partir às 21h30, pousando plácida e tranqüilamente em Congonhas uma hora e meia depois, mas, tirando os atrasos, a viagem transcorreu na mais perfeita paz. Os aeroportos estavam mais vazios, todos pareciam muito serenos, os funcionários dos aeroportos e das companhias aéreas agiam como se nada houvesse acontecido.
Mas a verdade é que embora não tenhamos precisado tão ostensivamente de uma intervenção divina para não estarmos no vôo acidentado, poderíamos perfeitamente estar nele. Se meu chefe tivesse decidido fazer essa viagem um dia antes, isso poderia ter acontecido.
Na dinâmica da vida urbana contemporânea estamos cotidianamente na dependência do trabalho de milhares de pessoas que não conhecemos. Estamos confiando nos mecânicos contratados pela companhia aérea, nas autoridades que determinam se uma pista é segura ou não, nos controladores de vôo. Estamos confiando nas autoridades que determinam se a matriz energética é suficiente – e somos surpreendidos por apagões, como há alguns anos e como os argentinos estão enfrentando agora; de repente, nossos chuveiros podem não funcionar, nossos computadores podem pifar e – tragédia das tragédias – nossos aparelhos de televisão também. Estamos confiando que os técnicos de trânsito estão fazendo o trabalho necessário a que as cidades não fiquem paradas, que as obras dos metrôs não abram crateras aonde estamos passando, que o leite que compramos é leite mesmo, que a alface da salada que comemos no restaurante foi bem lavada e que o palmito não nos deixará entrevados durante anos. Estamos confiando que podemos sair de casa com tranqüilidade para chegar no trabalho sem sofrer ameaças com armas de fogo apontadas para nossas cabeças.
Mas de quando em vez, e com cada vez mais freqüência, somos notificados de que nossa confiança é traída. Aquelas pessoas não fizeram seu trabalho.
Para não viver sob o signo do medo, o que significa apenas sobreviver, só temos duas opções: ser otimistas ou ter esperança. O otimismo tem a ver com temperamento ou então com auto-sugestão. É o caso de repetirmos para nós mesmos que tudo está bem, que tudo vai ficar bem. Think positive, dizem os livros de auto-ajuda.
Esperança é algo distinto. A esperança repousa na confiança no autor de uma promessa. Como nasce de um relacionamento com alguém confiável, é claramente muito mais eficaz do que o otimismo. A boa notícia é que a esperança é possível. “Deus, nosso Salvador, e Cristo Jesus, esperança nossa” (I Timóteo 1:1).
Feliz sábado, @migos!
Posted by marcol at julho 20, 2007 10:40 AM
Comments
Cara, muito bom!! tenho lido em blogs sobre esse assunto. Gostei bastante a forma que escreveu. Também penso que a esperança é firme. Necessitamos de acreditar.
prefiro ter esperança ao pensar positivo, nesses casos para que pensar positivo mascara a coisa. eu acho.
abraço.
Posted by: Anderson at julho 23, 2007 3:39 PM
Me faz pensar....
Na boa isso é real confiamos mesmo nas pessoas que elas irão realizar seu trabalho com maior destreza e competência e as vezes realmente caímos feio do cavalo, e numa dessas quedas podemos fraturar a coluna cervical e veja só que destino trágico,porém compartikho de sua idéia com Deus e Jesus tudo podemos, valeu Marcão.
Posted by: Cláudia at julho 22, 2007 11:28 PM
Olá Marco, cheguei aqui pelo post do Cláudio do Prás Cabeças, e devo dizer que foi uma ótima indicação.
Depois de ler seu texto e pensar nas várias pessoas que conheço que tbm deveriam estar naquele vôo e que, por obra do destino, não estavam, me ative ao seu último parágrafo, e lí várias vezes.
Eu gostei muito da forma como vc deixa a esperança firme e viva.
Muito bonita toda ela estampada no seu texto.
Beijo
Posted by: Erika at julho 22, 2007 9:15 AM
Você trata de um tema super importante e o faz brilhantemente, mesclando sentimentos necessários e imprescindíveis para nossa aventura na Terra. "Confiar" no outro, pautar nossas condutas e decisões baseados na esperança de que todos cumpram o próprio dever: somos interdependentes e, se alguém fura o esquema, estamos perdidos.
Elucubrei há alguns meses acerca da Esperança, e compartilho minhas reflexões com você, no link que se abrirá ao clicar sobre meu nome, aqui na caixa de comentários. Depois você me diga o que achou! [Se o link não funcionar, copie este atalho: http://prascabecas.blogspot.com/2005/12/da-esperana-ou-idias-para-comear-mais.html ]
Posted by: Cláudio Costa at julho 21, 2007 9:44 PM
Marco, deve dar uma sensação estranhíssima saber que poderia ter acontecido no seu vôo. Deve dar ao mesmo tempo alívio e uma sensação de mais ligação com as vítimas. É realmente um momento para pensar no sentido da vida.
Bem, I'm glad you're alive!
Posted by: Leila at julho 21, 2007 12:34 AM
Marco... por essa e por outras que sou sua fã descarada. Nunca me passou pela cabeça que otimismo e esperança fossem coisas tão distintas. E sua coragem em ser esperançoso, não meramente otimista, me inspira. Obrigada.
Posted by: claudia lyra at julho 20, 2007 1:05 PM