junho 19, 2007
Música improvável
Dia desses, premido por uma repentina greve de metrô, saio de carro e bem mais cedo do que o habitual. Chego ao escritório também bem mais cedo que o habitual e noto alguma coisa diferente no ar. Enquanto faço o log in no computador, detecto a fonte da estranheza: música. E não é qualquer música, é música boa. Peraí, não, é música MUITO boa. Até um nematelminto com mal de alzheimer reconheceria a nona sinfonia de Beethoven.
Pego meu squeeze e vou encher de água como mero pretexto para investigar a origem da música improvável. Aparentemente era um cidadão do departamento de marketing testando a potência das caixas de som de seu notebook.
Como sou arisco a fones de ouvido, música no ambiente de trabalho me soa como coisa rara.
Essa música, então, criou uma atmosfera onírica daquelas que te transportam, que você gostaria de ter um vidro aonde pudesse acondicionar o momento e experimentar num futuro remoto qualquer.
A propósito, colocaram música erudita nos trens metropolitanos que trafegam aqui pela marginal do rio Pinheiros. Não sou lá tão fã de música erudita como deveria ser, mas a experiência é deliciosa, embora o programador dessa "rádio" pareça ter uma quedinha pelo romantismo (coisas como Tchaikovsky). Evidentemente, meu entusiasmo pela iniciativa não é largamente compartilhado pelos coleguinhas de transporte público. Hoje, um deles reclamou pro cidadão ao lado do que ele chamou de "música de velório". Estava tocando um concerto para piano e orquestra que não consegui identificar o autor, mas o movimento era andante, com picos de intensidade. Engraçado imaginar um velório embalado por isso.
Me faz pensar que, se repetida aqui a cena de Um Sonho de Liberdade, com Tim Robbins colocando Mozart pros presidiários ouvirem no pátio, ao invés de admirado pela audiência, ele seria linchado.
Posted by marcol at junho 19, 2007 10:31 AM
Comments
Está na lista das coisas que me apoquentam. Se até as aranhas ficam mais mansas e aparentemente felizes ouvindo música de boa estirpe, nenéns dormem como anjinhos aleitados e feras pensam duas vezes antes de pular na jugular da presa, por que nossos conterrâneos, daqui e daí, se portam desse jeito rebarbativo? Só pode ser o maldito adestramento realizado pelo baile funk e pelo pagode de fundo de quintal. Nada contra que haja tempo pra tudo, mas daí a perder o ouvido pra uma harmonia mais que perfeita me parece mutilação, né não?
Posted by: adelaide at junho 21, 2007 7:34 PM
1. Esse lance de colocar pra tocar música clássica e/ou erudita (minha ignorância não consegue distingüir muito bem) no metrô, para mim não passa de uma "nice try". A meu ver, esse tipo de música tem que ter hora e local para se apreciar. Precisa ter um ambiente adequado e (de preferência) companhias adequadas, além de outros fatores que parecem ínfimos, mas que trabalhando em conjunto fazem de um concerto, um programa inesquecível! Colocar música clássica em metrô é como jogar pérolas aos porcos. Eu penso que existem outros ritmos que encaixariam melhor para se escutar em uma viajem de metrô, tais como um blues, jazz, R&B ou até um pop de repente se não for baixar muito o nível.
2. Nematelmintos!! Sim, claro.. como eu não pensei nisso antes?!
Posted by: Luis Henrique at junho 21, 2007 2:41 PM
Música boa em locais de muita gente faz o povo estranhar mesmo, principalmente porque o povão tem outro conceito de "bom". Pessoal quer é sacudir e não relaxar.
Posted by: Tchela at junho 20, 2007 9:23 AM
Gosto muito de música erudita (não gosto é do nome "erudita", pois cheira a pedantismo e "coisa difícil", para poucos - e música clássica é para milhões! Muitos não sabem que aquela melodia que os fez "entrar" no clima de uma cena de filme pode ser de um Beethoven, Mozart, Mahler... Igualmente não dispenso a música popular, pop. Esta é do cotidiano e há muita propriedade em ritmos, etc.
Posted by: Cláudio Costa at junho 19, 2007 6:59 PM
É tanto tempo de má educação musical, que os ouvidos estranham quando a música é boa, é suave, tem melodia rica...
Posted by: claudia lyra at junho 19, 2007 6:34 PM
Ah, a velha nona ...
E a lembrança de Tim Robbins em Um sonho de liberdade (por que será que não reprisam esse filme, hein??) foi boa demais!!
Era a ária da Rainha da Noite, de A Flauta Mágica, se não me engano.
Posted by: didi iashin at junho 19, 2007 5:11 PM
rsrsrs.
Perfeito, ideal mesmo!! faço inglês e essa seria uma ótima saída, aula bem dinâmica!!
abraço.
Posted by: Anderson at junho 19, 2007 3:46 PM
Cara, de começo, estranhei essas músicas dentro do metrô aqui do Rio, mas aos poucos fui me acostumando, aqui também tem vários reclamantes, não sei porque, mas tem...
bom não sei na sua cidade, mas aqui... de tudo se reclama!!!
o povinho insatisfeito.
Posted by: Anderson at junho 19, 2007 12:56 PM
Na boa Marcão imaginei a cena, sim o Tim Robbins seria linchado realmente, pois num mundo onde Tati quebra barraco (graças que esta não tive oportunidade de ouvir por razões que vc conhece rs) mas li a letra e meu Deus esta é nossa cultura, onde a música denigre, agride e nos coloca mais embaixo do que na sola de nosso pobre sapatinho, Bethovenn muito bom espero que este teste da caixa acústica do notebook de seu colega continue inundando de alegrias suas manhãs
Posted by: Cláudia at junho 19, 2007 12:23 PM