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junho 22, 2007

Longe de casa

Enquanto busco palavras com que preencher o branco imaculado desta
tela, minha mente hospeda uma algazarra de sons, imagens e
sentimentos. Memórias recentes: a estrada que tive de percorrer entre
Dourados e Campo Grande-MS; as pessoas que conheci lá e a aldeia de
índios que cruzamos na estrada; a experiência de debutar como
professor, o sabor do yakisoba e a Hilux atrás da qual viemos o tempo
todo; os enormes silos de cereais que quebram a monotonia do cerrado
e os criadouros de peixes e avestruzes; as imagens do filme que
assisti no hotel, tudo ao mesmo tempo.

Ao lado disso tudo, ecos de chamadas dos jornais reportando o caos
aéreo, meu vôo marcado para daqui a três horas, este aeroporto
entregue praticamente só para mim e mais dois ou três outros
adiantadinhos e o medo de atrasar demais repousando sobre o cansaço
mental e físico das viagens e da espera prolongada.

Sobre tudo isso, as lembranças do sorriso ainda banguela do meu
caçula e do primogênito falando "eu vou sentir saudades, papi", e o
timbre da voz de minha esposa que acabei de ouvir ao celular ainda
ecoando em meu ouvido esquerdo. Há um abismo de distância entre nós,
e isso atiça meu medo de atraso ou de coisas ainda mais desagradáveis.

Graças a Deus falamos português e você entende bem o que é tudo isso
mesmo se eu trocar todo esse palavrório por uma só: saudade. Ela dá
um sentido positivo mesmo ao cansaço, mesmo ao medo, mesmo à
distância e à ausência. Porque existem saudades e saudades. Existem
aquelas pelo que está definitiva e inapelavelmente alijado de nós e
existem aquelas que se misturam à esperança .

Eu sei que estou indo pra casa e isso faz toda diferença do mundo. A
distância dói, mas eu não preciso focar nela, posso muito bem apagá-
la, apagar o noticiário agourento, apagar o peso sobre os olhos e
manter à minha frente única e exclusivamente aquele sorriso banguela.
Posso apenas tentar adivinhar o que vou ouvir de minha esposa quando
estiver enfim na frente dela – e sentir aquele frio na barriga, velho
e querido conhecido.

Graças a Deus porque estou voltando para casa.

O sistema de som acaba de ser acionado. Anunciaram um vôo para
Brasília e de repente a sala de embarque se encheu inesperadamente,
uma enorme algazarra. Chegou a vez deles irem para casa e eu fico
sinceramente feliz por eles, embora sejam completos estranhos, muitos
estrangeiros.

Pronto. Já foram. A porta se fechou e tudo voltou a ficar silencioso.
Vai chegar a hora em que vão me chamar. Hoje, como sempre, fecho os
olhos e sinto o bálsamo eficaz de saber que há um lar para onde estou
indo.
* * * * * * *
A propósito, descobri que os restaurantes de Dourados fecham para o almoço. É isso mesmo, os restaurantes fecham para o almoço.

Posted by marcol at 5:57 PM | Comments (10)

junho 19, 2007

Música improvável

Dia desses, premido por uma repentina greve de metrô, saio de carro e bem mais cedo do que o habitual. Chego ao escritório também bem mais cedo que o habitual e noto alguma coisa diferente no ar. Enquanto faço o log in no computador, detecto a fonte da estranheza: música. E não é qualquer música, é música boa. Peraí, não, é música MUITO boa. Até um nematelminto com mal de alzheimer reconheceria a nona sinfonia de Beethoven.

Pego meu squeeze e vou encher de água como mero pretexto para investigar a origem da música improvável. Aparentemente era um cidadão do departamento de marketing testando a potência das caixas de som de seu notebook.

Como sou arisco a fones de ouvido, música no ambiente de trabalho me soa como coisa rara.
Essa música, então, criou uma atmosfera onírica daquelas que te transportam, que você gostaria de ter um vidro aonde pudesse acondicionar o momento e experimentar num futuro remoto qualquer.

A propósito, colocaram música erudita nos trens metropolitanos que trafegam aqui pela marginal do rio Pinheiros. Não sou lá tão fã de música erudita como deveria ser, mas a experiência é deliciosa, embora o programador dessa "rádio" pareça ter uma quedinha pelo romantismo (coisas como Tchaikovsky). Evidentemente, meu entusiasmo pela iniciativa não é largamente compartilhado pelos coleguinhas de transporte público. Hoje, um deles reclamou pro cidadão ao lado do que ele chamou de "música de velório". Estava tocando um concerto para piano e orquestra que não consegui identificar o autor, mas o movimento era andante, com picos de intensidade. Engraçado imaginar um velório embalado por isso.

Me faz pensar que, se repetida aqui a cena de Um Sonho de Liberdade, com Tim Robbins colocando Mozart pros presidiários ouvirem no pátio, ao invés de admirado pela audiência, ele seria linchado.

Posted by marcol at 10:31 AM | Comments (9)

junho 13, 2007

Abismo

A inveja é possivelmente um dos sentimentos mais precoces do ser humano. Lembro com cristalina clareza do sentimento que me invadia ao ver meu coleguinha de terceira série primária mostrando seu Falcon que mexia os olhos. E a memória que tenho do fato é de que o sentimento não era novo, era um velho conhecido, já.

Esse Falcon, pra quem não sabe, não lembra ou finge que esqueceu, era um boneco tosco do tamanho dos Max Steel (ou Max Stís, como diz o Dudu, meu filho, referindo-se a eles no plural). Todos tinham a mesma cara, mas alguns tinham uma barbinha mequetrefe que lhes conferia um ar meio Village People (se você não sabe, não lembra ou finge que esqueceu o que é Village People, azar o teu).

Embora a semelhança distante do Falcon com o Max Steel, há uma diferença brutal: na época, Falcon era o que havia de mais avançado para a gurizada. Apenas o Ferrorama poderia rivalizar com ele em legalzice (se você não sabe, não lembra ou finge que esqueceu o que é Ferrorama, é uma boa oportunidade de encetar conversação com aquele seu primo balzaquiano). E aquele Falcon em especial, meu, ele mexia os olhos! Tinha uma alavanca na nuca que você mexia e aí aqueles olhos azuis andavam de um lado pro outro e aquilo era simplesmente magnífico!

Penso em tudo isso navegando pela internet em banda larga, logo depois de fechar o CD-Rom que meu filho adora, procurando meu filho mais novo em meio à montanha de coisas do Spiderman e outros tantos brinquedos descolados sobre a cama ao meu lado.

Engraçado pensar que eu ainda fugi à tendência vigente, que é ser pai apenas perto dos 40. Se o abismo de mundos existente entre a infância que vivi e a que vivem meus filhos já é grande, imagine como não seria tê-los daqui a dez anos!

Como a gente consegue sentar do lado deles e dizer: cara, eu te entendo, já passei por isso? Deve soar para ele como as conversas de nossos avós soavam pra gente, todo aquele papo de "no meu tempo...", falando coisas surreais como árvores frutíferas, quintal, banho de rio, etc.

Well, isso é problema mais pra diante. Por enquanto eu consigo maquiar a distância sabendo todas as músicas dos Backyardigan e Lazy Town, sabendo o que é Avatar e Jimmy Neutron e sobretudo desfilando meu gigantesco cabedal de informações sobre heróis. Para o futuro, que Deus me ajude.

Posted by marcol at 11:37 AM | Comments (6)

junho 6, 2007

Letra e música

music-and-lyrics-by-poster-0.jpg Para se divertir muito com Letra e Música, filme de Marc Lawrence, que assina o roteiro também, você tem que:

1. Estar num dia leve e sem pretensão alguma a refletir nos grandes dilemas da humanidade;

2. Estar disposto a ignorar uma situação meio inexplicada no meio do filme - porque para o final ser bacana como é, os protagonistas tinham que se separar e o culpado tinha que ser o Hugh Grant;

3. E principalmente: ter vivido nos anos 80.

Reunidos os três elementos, o filme vai ser tudo o que foi pensado pra ser. Hugh Grant está ótimo no seu papel predileto - o de covarde, medíocre, atrapalhado, mas bem sucedido e dono de tiradinhas inteligentes - mas com índice de mico em níveis alarmantes. Afinal, ele passa boa parte do tempo rebolando.

Ele é o ex-integrante da banda fictícia POP, inspirada meio que no Wham de George Michael (e o outro cara, quem é mesmo o outro cara? Pois é, aqui o Hugh Grante é "o outro cara") e meio que no Duran Duran, pelos figurinos e tudo. 20 anos depois do sucesso, ele tem a chance de compor uma música pra Britney Spears do momento, mas ele é canhoto e tem dois braços direitos quando o assunto é escrever letras de músicas. É aí que entra Drew Barrymore.

As músicas são todas ótimas e todas assinadas por Adam Schlesinger. Você deixaria o cinema cantando alguma delas, seguramente.

Aliás, o filme começa com o vídeoclipe do maior sucesso de POP. Só esses três minutos valem o ingresso, o preço da locação do filme ou o que quer que seja. Como já existe o YouTube, você pode ter isso de grátis.

Posted by marcol at 3:57 PM | Comments (4)

junho 4, 2007

Eu conheço a Olivia Maia

Este é o nome de uma comunidade do Orkut. Outro dia fiz uma limpa das comunidades que tinham a honra de contar comigo entre seus integrantes. Tirei a "Eu odeio pessoas que te cutucam quando falam", a "Eu tive um bilboquê" e a "Eu tenho medo de comer cachorro-quente na praça da Sé", entre outras cento e vinte e seis. Mas deixei a "Eu conheço a Olivia Maia" porque, diferentemente de todas aquelas outras, é verdade que eu conheço a Olivia Maia. E também porque isso é uma coisa boa, do tipo que deveria causar inveja.

Olivia Pinto Albuquerque dos Góes Assis Silva e Maia, dona do Forsit, é também autora de Desumano, publicado pela Brasiliense. Por essas e muitas outras é que é importante e causador de inveja poder dizer que eu conheço a Olivia Maia.

desumano.jpg
Eu acabei de ler Desumano. A Olivia defende uma literatura de entretenimento, que por aqui é sempre malvista e subestimada. Seu interesse, portanto, é divertir e ponto. E diverte. Desumano é um pseudo-policial, tem um crime, tem uma investigação em curso, tem um suspeito com amnésia... mas por que raios eu escrevi "pseudo"? Porque isso é só o pano de fundo. Lá pelas tantas a dúvida quanto à autoria do crime desvanece, a investigação perde o fôlego, e fica no lugar só a descrição de uma relação ambígua (entre o acusado, no caso, o filho da vítima, e uma prostituta que ele conhece na sua quase inconsciente fuga) e a tentativa de acompanhar o que se passa na cabeça dele.

Eu li dela também o inédito Operação P2 e devo dizer que Desumano é bem melhor, envolve mais, tem um ritmo mais uniforme e chega a um clímax mais bem amarrado. Nesse caso, arrisco dizer que Olivia, além do evidente talento já demonstrado, está em construção e vai render muito mais lazer. Bom pra todo mundo. Mas especialmente para nós, os que conhecemos Olivia Maia.

Posted by marcol at 4:19 PM | Comments (2)