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maio 28, 2007

São Paulo by night

O carro deu umas três engasgadas antes de parar. Cheia de vergonha, Liliana explicou às duas colegas da faculdade que pegavam carona que estavam sem gasolina. Eram quase dez da noite, mas a vizinhança até que não era tão ruim assim. Acertaram que ela pegaria uma perua até um posto de gasolina, encheria uma garrafa com combustível e voltaria. Elas esperariam.

Pernada até o ponto mais próximo, aboletou-se à janela da lotação maldizendo a sorte. Estava ainda proferindo impropérios mentais quando subiram três cidadãos de aspecto suspeito. E eram do tipo que não fica só na suspeita, eles logo a confirmam. Sacando seus berros, anunciaram o seqüestro geral da lotação, desviando seu curso para destinos incertos e não sabidos e repetindo ameaças à incolumidade física dos circunstantes.

A incolumidade psíquica, contudo, já havia sido atingida. Uma senhora lá atrás começou a berrar e a invocar a Virgem Maria, implorando pela sua vida, mencionando todos os muitos descendentes que dela dependiam para sobreviver e coisas assim. Controlando bravamente suas emoções, Liliana, boa estudante de psicologia, pediu vênia aos meliantes para ir falar com a desvairada. Vênia prontamente concedida, que ladrão também sofre com altos decibéis.

Aos poucos, o pranto descontrolado foi minguando, dando lugar a uma lamúria quase inaudível. Enquanto isso, a perua ganhava vielas soturnas e mal iluminadas. Nesse tanto é que os tais donos da situação exigiram o repasse imediato de todo e qualquer dinheiro e/ou objeto de mínimo valor possível de todos os passageiros.

Nesse ponto, nossa heroína, que andava tão calma e senhora de si, surtou. Disse que não tinha dinheiro, que não sabia como ia voltar pra casa, que só tinha o dinheiro da lotação - na verdade tinha o dinheiro da gasolina, mas isso eles jamais saberiam. E tudo isso chorando muito e com muitos gestos histéricos. Tanto que despertou a compaixão do larápio. Com efeito, ao serem todos os passageiros abandonados no meio do nada, ele estendeu a ela dois passes, pra ajudar na condução.

Os dados à coisa, ao verem-se livres das armas, persignaram-se e louvaram cada um a seu santo de predileção. Mas não fizeram mais nada. Coube novamente a Liliana tomar a iniciativa e foi de parar o caminhão de lixo que por ali passava. Todos aboletaram-se, pois, na boléia do dito cujo, de onde um suave odor de rosas - pura ironia - subia. Todos menos aquela histérica do começo da história, que recusou-se a subir e ficou sozinha lá no meio do nada.

O melhor que o caminhão do lixo podia fazer era deixá-los todos não mais no nada, mas no quase nada. Um cruzamento em que ninguém parava, pois já dera meia noite, e onde, claro, não passava qualquer coletivo.

O único que parou foi um sujeito bem apessoado. Liliana aproximou-se muito timidamente e pediu licença pra falar com ele. Visivelmente ressabiado, ele abaixou dois ou três dedos do vidro, quando ela resumiu o mais rápido que pôde a situação e pediu carona. Viu-se um evidente conflito interno travar-se. O anjinho do bem pareceu ganhar a muito custo e o cidadão abriu a porta pra Liliana entrar.

Explicou aonde seu carro deveria estar e foi contando a sua história triste muito atabalhoadamente. Quando estava mais ou menos na altura ali dos passes que ganhara do safardana, notou que o sujeito embarafustara o carro por caminhos estranhos. Já sem freios emocionais, desandou a chorar e a perguntar o que ele pretendia fazer com ela.

O motorista assegurou que não ia fazer nada não, que estava pegando um atalho, que era de Jesus, na verdade, pastor luterano e estava exatamente vindo de um culto. Aí ela, que simpatizava com protestantes em geral, verteu as lágrimas de susto em lágrimas de alegria e começou a agradecê-lo profusamente.

E agradecendo profusamente foi até chegarem, como de fato chegaram, ao seu carro, após uma providencial pausa para comprar a tal garrafa de gasolina. Ao descer, foi logo recebendo pedradas verbais das duas colegas que a desancaram até à terceira e quarta gerações. Motivo para novos choros e coube, então, ao pastor, coitado, explicar em breves tintas o ocorrido.

Quando Liliana chegou em casa naquela madrugada, sã e, vá lá, salva, encontrava-se ávida por narrar suas desventuras ao marido, que a esperava sobressaltado. Toda excitada com o curso dos fatos, iniciou sua minuciada descrição de tudo o que passara, mas aí ocorreu um fato ainda mais curioso: Sandro, o marido, caiu no sono em pleno calor da narração. Ali, sentado, na frente dela, e dormindo pesada e inapelavelmente.

O desconsolo de Liliana foi completo, como o leitor há de imaginar, e nesse estado de espírito é que largou-se na cama do jeito que estava e teve sonhos irrequietos.

Na manhã seguinte Sandro perguntou se havia sido sonho dele ou ela estava chorando na véspera e ela sentiu vontade de chorar de novo, sem nem saber porque.

* * * * * * *

História mais implausível, não fosse real e ocorrida com muito amiga nossa.

Posted by marcol at maio 28, 2007 4:32 PM

Comments

Como disse Tom Clancy: a diferença entre realidade e ficção é que a ficção tem de fazer sentido.

Posted by: Zarastruta at maio 31, 2007 11:01 PM

Ah vá! Isso que é história...
bjos!

Posted by: Rachs at maio 29, 2007 10:07 PM

Marco, essa história é muito louca e a realidade de fato mostra-se tão surpreendente quanto a mais inspirada ficcção. Quer outra prova? Olha o relato desse cara:

http://superedge.blogspot.com

Posted by: Hemeterio at maio 29, 2007 9:17 PM

Desculpa... mas o que me soou totalmente absurdo foi o marido dormir no meio do relato da moça... caraca, que insensibilidade!

Posted by: claudia lyra at maio 29, 2007 5:44 PM

É.. pequenas vicissitudes de grandes centros..

Posted by: Luis Henrique at maio 28, 2007 6:23 PM

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