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maio 30, 2007
Quotes
Somos moldados por aquilo que amamos - Goethe
Aonde estiver o seu tesouro, aí estará também o teu coração - Jesus Cristo
e
Não há vergonha alguma em alguém ser feliz, mas seria vergonhoso ser feliz sozinho - Albert Camus
Posted by marcol at 7:12 PM | Comments (4)
maio 28, 2007
São Paulo by night
O carro deu umas três engasgadas antes de parar. Cheia de vergonha, Liliana explicou às duas colegas da faculdade que pegavam carona que estavam sem gasolina. Eram quase dez da noite, mas a vizinhança até que não era tão ruim assim. Acertaram que ela pegaria uma perua até um posto de gasolina, encheria uma garrafa com combustível e voltaria. Elas esperariam.
Pernada até o ponto mais próximo, aboletou-se à janela da lotação maldizendo a sorte. Estava ainda proferindo impropérios mentais quando subiram três cidadãos de aspecto suspeito. E eram do tipo que não fica só na suspeita, eles logo a confirmam. Sacando seus berros, anunciaram o seqüestro geral da lotação, desviando seu curso para destinos incertos e não sabidos e repetindo ameaças à incolumidade física dos circunstantes.
A incolumidade psíquica, contudo, já havia sido atingida. Uma senhora lá atrás começou a berrar e a invocar a Virgem Maria, implorando pela sua vida, mencionando todos os muitos descendentes que dela dependiam para sobreviver e coisas assim. Controlando bravamente suas emoções, Liliana, boa estudante de psicologia, pediu vênia aos meliantes para ir falar com a desvairada. Vênia prontamente concedida, que ladrão também sofre com altos decibéis.
Aos poucos, o pranto descontrolado foi minguando, dando lugar a uma lamúria quase inaudível. Enquanto isso, a perua ganhava vielas soturnas e mal iluminadas. Nesse tanto é que os tais donos da situação exigiram o repasse imediato de todo e qualquer dinheiro e/ou objeto de mínimo valor possível de todos os passageiros.
Nesse ponto, nossa heroína, que andava tão calma e senhora de si, surtou. Disse que não tinha dinheiro, que não sabia como ia voltar pra casa, que só tinha o dinheiro da lotação - na verdade tinha o dinheiro da gasolina, mas isso eles jamais saberiam. E tudo isso chorando muito e com muitos gestos histéricos. Tanto que despertou a compaixão do larápio. Com efeito, ao serem todos os passageiros abandonados no meio do nada, ele estendeu a ela dois passes, pra ajudar na condução.
Os dados à coisa, ao verem-se livres das armas, persignaram-se e louvaram cada um a seu santo de predileção. Mas não fizeram mais nada. Coube novamente a Liliana tomar a iniciativa e foi de parar o caminhão de lixo que por ali passava. Todos aboletaram-se, pois, na boléia do dito cujo, de onde um suave odor de rosas - pura ironia - subia. Todos menos aquela histérica do começo da história, que recusou-se a subir e ficou sozinha lá no meio do nada.
O melhor que o caminhão do lixo podia fazer era deixá-los todos não mais no nada, mas no quase nada. Um cruzamento em que ninguém parava, pois já dera meia noite, e onde, claro, não passava qualquer coletivo.
O único que parou foi um sujeito bem apessoado. Liliana aproximou-se muito timidamente e pediu licença pra falar com ele. Visivelmente ressabiado, ele abaixou dois ou três dedos do vidro, quando ela resumiu o mais rápido que pôde a situação e pediu carona. Viu-se um evidente conflito interno travar-se. O anjinho do bem pareceu ganhar a muito custo e o cidadão abriu a porta pra Liliana entrar.
Explicou aonde seu carro deveria estar e foi contando a sua história triste muito atabalhoadamente. Quando estava mais ou menos na altura ali dos passes que ganhara do safardana, notou que o sujeito embarafustara o carro por caminhos estranhos. Já sem freios emocionais, desandou a chorar e a perguntar o que ele pretendia fazer com ela.
O motorista assegurou que não ia fazer nada não, que estava pegando um atalho, que era de Jesus, na verdade, pastor luterano e estava exatamente vindo de um culto. Aí ela, que simpatizava com protestantes em geral, verteu as lágrimas de susto em lágrimas de alegria e começou a agradecê-lo profusamente.
E agradecendo profusamente foi até chegarem, como de fato chegaram, ao seu carro, após uma providencial pausa para comprar a tal garrafa de gasolina. Ao descer, foi logo recebendo pedradas verbais das duas colegas que a desancaram até à terceira e quarta gerações. Motivo para novos choros e coube, então, ao pastor, coitado, explicar em breves tintas o ocorrido.
Quando Liliana chegou em casa naquela madrugada, sã e, vá lá, salva, encontrava-se ávida por narrar suas desventuras ao marido, que a esperava sobressaltado. Toda excitada com o curso dos fatos, iniciou sua minuciada descrição de tudo o que passara, mas aí ocorreu um fato ainda mais curioso: Sandro, o marido, caiu no sono em pleno calor da narração. Ali, sentado, na frente dela, e dormindo pesada e inapelavelmente.
O desconsolo de Liliana foi completo, como o leitor há de imaginar, e nesse estado de espírito é que largou-se na cama do jeito que estava e teve sonhos irrequietos.
Na manhã seguinte Sandro perguntou se havia sido sonho dele ou ela estava chorando na véspera e ela sentiu vontade de chorar de novo, sem nem saber porque.
* * * * * * *
História mais implausível, não fosse real e ocorrida com muito amiga nossa.
Posted by marcol at 4:32 PM | Comments (5)
maio 15, 2007
Notas de uma viagem familiar
Roteiro
Definido meio conforme o sabor dos ventos e os humores momentâneos, depois de estarmos já na estrada: saímos de São Paulo na 6a feira, 4/05, às 16h00. Chegamos a Ribeirão Preto às 20h00, onde permanecemos, hospedados na casa da cunhada, até terça-feira, 08/05, às 12h00. De lá rumamos ao norte para Inhumas-GO, nas proximidades de Goiânia. Chegamos às 21h00. No dia seguinte, estivemos com nossos anfitriões, um casal de amigos que costumava morar no Sri Lanka (trabalhavam para uma ONG chamada ADRA), em Brasília. A 5a feira passamos em Inhumas, rumando à noite em sentido sul, para Caldas Novas, onde passamos a 6a feira 11, no Hot Park, o parque da Pousada do Rio Quente. À tardezinha rumamos mais ao sul, para São Sebastião do Paraíso-MG, onde passamo o sábado no lindíssimo hotel fazenda Leão de Judá. Mais um tiro noturno até Campinas-SP, onde dormimos num hotel e de lá para o dia das mães em família, em Jundiaí-SP. Aportamos em casa no domingo, 13/05, às 22h00.
* Kms rodados: perto de 2.000
* Personagens: um pai de férias, uma mãe em licença maternidade, um guri de 4,5 e um bebê de 45 dias
Estradas
Ótimas e cheias de pedágios em São Paulo. Ruins em Minas, razoáveis em Goiás. Como toda incursão pelo interior do país, nosso carro tornou-se um abatedouro de insetos. Perpetramos um verdadeiro genocídio deles, esmagados contra o pára-brisas e a frente do carro. Afora isso, só o fato curioso de as estradas do Goiás serem polvilhadas de gatos à noite.
Nota negativa: embora as estradas paulistas sejam no geral excelentes, o pior sufoco que tivemos foi numa delas. Para atingir São Sebastião do Paraíso, tínhamos que pegar a estrada que liga Orlândia a Batatais, uma pista única e escura feito breu. No meio dela, uma placa de desvio nos atirando para o meio de um canavial, em estrada de terra. Uma vez dentro do tal canavial soturno, você está entregue à sua sorte. Não há qualquer placa nem nada que o valha, e uma penca de bifurcações pra te assustar. O relógio marcava meia-noite quando nos vimos ali. Esperávamos protagonizar a qualquer momento uma versão tupiniquim de Colheita Maldita. Graças a Deus, achei a estrada de volta antes que a musiquinha de terror atingisse o clímax.
Gastronomia
No geral, comemos excelentemente bem, até o vegetariano aqui. A comida em Ribeirão Preto e no Goiás é barata, em Minas nem tanto. Destaques: a pizza do Ateliê da Pizza, em Ribeirão, satisfaz até paulistanos metidos a besta. A pamonha goiana, especialmente a de sal, do Zezinho, em Inhumas, é coisa de louco. A comida mexicana e a simpatia dos garçons do Chilli Peppers, em Brasília, fazem um conjunto fantástico. E a musse de goiaba do Leão de Judá é coisa pra se servir a rainhas, divina. Vale menção ainda o Sorvete do Jô, em Ribeirão, com seus sabores exóticos e seu preço baratinho.
Lazer
O Hot Park é imbatível. Toboáguas gigantescos, escorregadores, piscinas infantis cheias de encantos, tudo com a deliciosa água quente que brota ali. A adrenalina mais cavalar é a do Half Pipe, que tem uns 15 metros e você desce em declive absoluto numa bóia dupla. A foto da minha expressão de pânico faz sucesso por aqui.
Em Brasília, perdemos a visita ao Palácio da Alvorada por meia hora. Contentamo-nos com a cerimônia do arriamento da bandeira, que assisti pela segunda vez.
No Leão de Judá, que estava vazio por conta do dia das mães, a decoração é de extremo bom gosto e convida à preguiça. Tem uma massagista famosa, mas como tínhamos um único dia, satisfizemos a curiosidade do Eduardo por ordenhar uma vaca, tomar o leite fresquinho, andar de charrete (que eu pilotei à la Ben Hur, para desespero da minha urbaníssima esposa) e de pedalinho.
Combustível
O álcool que eu pago R$ 1,34 em São Paulo chega a custar R$ 2,05 de Ribeirão pra frente. Chega a ser irônico ver aqueles postos com preços assim exorbitantes justamente cercados de cana de açúcar.
Outras notas
O sotaque goiano compete com o mineiro como o mais engraçado do país. É do tipo que quando você menos percebe está embarcando também.
Os goianos são também o povo mas entusiasta de rotatórias e lombadas eletrônicas que existe.
Eles curtem muito um som automotivo coletivo. Se os caras têm uma certa quantia para comprar um carro, eles compram um que custe a metade desse valor, porque o resto aplicam no som. Dá pra ver até algumas motocicletas, como a Honda Biz, com música sertaneja a todo volume.
As rádios do interior do Goiás só pegam freqüências evangélicas ou sertanejas. Ou você entra no clima de cornidão, ou não se ambienta.
Uma viagem dessas te deixa afiadíssimo pra trocar fraldas. É incrível a agilidade e a capacidade desenvolvida de fazer isso em qualquer circunstância!
Saldo: família feliz, mas que não coloca mais o nariz na porta por um bom tempo.
Posted by marcol at 5:36 PM | Comments (9)