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fevereiro 21, 2007
Culturais
Terminei de ler O Marcador de Página, coletânea de contos de um russo de nome polonês (por isso mesmo impronuncíavel) que se escreve assim: Sigismund Krzyzanowski. Creio que para 100 % de meus seis leitores o tal tipo é um absoluto estranho. O que é uma pena.
Trata-se dum tipo que escrevia coisas interessantíssimas e que fariam muito sucesso não fosse o detalhe de ele viver na URSS durante os anos 20-40 e de não escrever coisinhas otimistas e que valorizam a grandeza do operário e do trabalho humano. Ou seja, era um cara que não se ajustava muito bem ao regime comunista de tio Stalin.
Foi descoberto depois da Perestroika, quando já era praticamente impossível descobrir mais detalhes sobre sua biografia. Fotografia, por exemplo, nenhuma.
Tudo isso é uma pena, mas o livrinho que me caiu nas mãos por uma cadeia de acasos curiosos (parece que ele estava sendo dado de grátis na compra de outra coisa qualquer em alguma livraria mega-store dessas por aí; parece que meu amigo Helio Serafino ganhou o dito cujo; parece que ele estava justamente saindo de viagem pra alguma praia paradisíaca; parece que só por isso o livro foi lido; e parece que só porque foi lido, foi havido como excelente e emprestado; parece que ele foi emprestado para mim) é genial.
Tem o cara que ganha um produto que ao passar nas paredes de seu diminuto quarto faz com que ele cresça de tamanho assustadoramente. Tem o cidadão que vai a um sarau e encontra lá o personagem de seu romance, cantando uma mulher. Tem o cidadão que, ao aproximar-se para beijar sua biscoita, vê em sua pupila um homenzinho que é sua cópia completa, dando tchauzinho pra ele. Tem também o cara que vivia pra conseguir morder o próprio cotovelo. É um jorro de criatividade com a estética mestra que parece que só os russos entendem bem.
As histórias, embora absurdas, têm um pé no chão e, embora redigidas num mundo tão distante como o da Rússia bolchevique, são atemporais e universais. Recomendo.
(editora 34, São Paulo)
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Assisti nesse feriado a Crianças Invisíveis.
Pra quem não sabe, são histórias filmadas em diversos países enfocando o universo infantil, mais precisamente aquele universo infantil mais relegado ao esquecimento, à invisibilidade. Crianças nas quais se tropeça o tempo todo sem notar.
A história brasileira é tocada pela competente Katia Lund, a diretora do elenco de Cidade de Deus. É possivelmente a história menos deprê de todas. Embora os protagonistas sejam catadores de papel que moram na favela que fica espremida entre os prédios sofisticados de escritórios da Avenida Luis Carlos Berrini e a Avenida Roberto Marinho, em São Paulo, o tom do curta é positivo e enaltece o poder de adaptação e sobrevivência na selva fria e cruel.
Todos os episódios têm assinatura de peso. Em Hong Kong, John Woo filma um conto bonito e impactante mostrando suas crianças invisíveis em mundos distintos: uma filha de ricaços com o casamento em crise, a outra abandonada na rua pela mãe, achada por um mendigo que a cria com amor e que morre tentando reunir dinheiro pra mandá-la pra escola.
Ridley Scott faz o filme mais diferente de todos, num tom meio onírico, em que o protagonista, um fotógrafo de guerra, tem uma crise nervosa momentos antes de embarcar de novo para o front. Durante a crise, se vê criança, cercado de amigos, passando por situações de sua infância misturadas às cenas de guerra que estava acostumado a testemunhar.
Emir Kusturica filma em tom de comédia uma história que, de outra forma, seria quase insuportável: mostra o abuso de crianças postas para roubar na Grécia por adultos inescrupulosos.
Há ainda bonitos episódios passados na Itália e outro em, salvo engano, Ruanda, cujos diretores me fogem e estou sem paciência pra ir procurar na internet, sorry. E, claro, o episódio soco na boca do estômago de Spike Lee, que acompanha o dia-a-dia de uma menina que do dia pra noite descobre que seus pais são aidéticos e viciados em drogas e começa a ser hostilizada na escola.
Nem preciso dizer que o filme vale a pena.
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No momento que deveria ser mais relax do feriadão, vimos Separados pelo Casamento. O nome é estúpido porque, pra começar, o casal vivido por Jennifer Anniston e Vince Vaughn não é casado. E, embora o filme esteja nas prateleiras de comédia, você vai conseguir dar muito poucas risadas. Aliás, o tom geral dele é meio pra baixo mesmo.
Mas é um filme muito bom. A idéia é dar uma anti-lição, mostrando atitudes que não se deve tomar numa relação amorosa. A contraposição de marte a vênus é conduzida com segurança e o final foge aos desfechos fáceis de Hollywood.
Posted by marcol at 11:05 AM | Comments (7)
fevereiro 19, 2007
A grande ilusão do carnaval
Há um ano nem havia ainda a crise nos aeroportos, o que só reforça a genialidade desta minha idéia aqui. Para os que odeiam carnaval (eu não devo ser o único) e moram numa cidade em que pegar estradas e - agora - avião nessa época do ano é tortura da inquisição, a única saída são mesmo os bunkers que bloqueiam o sinal da televisão e do rádio, dentro do perímetro urbano mesmo. Preciso de um sócio capitalista pra entrar com o cacau.
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Porque nestes dias, escorregar sem querer no controle remoto e achar um canal da TV aberta, seja o horário que for, significa ver, fatalmente: a) uma mulher pelada rebolando com ar voluptuoso; b) um repórter banguela girando um pandeiro no dedo; ou c) um repórter afetando animação embaixo do maior calor e dizendo: "aqui a festa não tem hora pra acabar".
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Mas acaba. Na quarta-feira. E eu lembrei Vinícius:
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha
O ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra vestir a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
E tudo se acabar na quarta-feira
Coincidentemente eu estou estudando esses dias o Eclesiastes, de Salomão. Sim, Salomão, o rei rico e sábio, mas que, com 300 esposas e 700 concubinas despirocou. Eclesiastes deve ter sido escrito na sua velhice, quando andava desencantado com a vida e pensando que grande asneira havia feito com sua vida. É desse livro pérolas do spleen como "vaidade das vaidades, tudo é vaidade", ou "não há nada abaixo do sol, tudo o que o homem faz é correr atrás do vento".
Eu nunca havia notado o caráter eclesiástico da Felicidade, do Vinícius e do Tom. Portanto, escorregar no controle remoto por estes dias é ver multidões correndo atrás do vento. "Não há nada de novo abaixo do sol".
Posted by marcol at 9:02 AM | Comments (1)
fevereiro 13, 2007
Nostalgia
Este final de semana levei meu filho a uma festa de criança dentro do parque da Xuxa, num shopping aqui de São Paulo. Aproveitei a desculpa para andar nuns brinquedos com ele e os demais piás da festa e para chorar de emoção ao ouvir ila-ri-la-riê.
Um dos brinquedos em que me enfiei foi o velho e sempre bom carrinho de bate-bate. Foi curioso recuperar algumas das sensações de 20 (cruzes!) anos atrás. Primeiro, você fica na fila domando a ansiedade, mordendo os dedos, chacoalhando as pernas. Aí, quando vai chegando perto da vez de você entrar, você começa a escolher qual carro vai usar, torcendo para ele parar perto de você e ninguém pegar antes. O que sempre acontece, e aí você tem que escolher outro na hora e fica tentando se conformar enquanto encaixa o cinto. De repente toda ansiedade retorna e você fica pisando loucamente no acelerador mesmo antes de a tiazinha apertar o botão que liga as máquinas.
Quando elas começam a andar, você fica tentando mostrar maestria, desviando de todos os carros, até perceber que fazer isso pra sempre é impossível e que na verdade o mais bacana é bater com tudo nos outros.
Aí tem uma hora que todos os outros carros ficam enroscados num canto da pista e você fica sozinho do outro lado. Você fica andando em largos círculos, se sentindo o gostosão.
E de repente a campainha toca e acaba. O sentimento de frustração por acabar tão cedo é inevitável. Todo mundo se entreolha meio melancolicamente, alguns ainda tentam dar uma aceleradinha, mas em vão. E aí todos saem pensando em qual brinquedo vão se enfiar na seqüência.
Fui tentado a fazer algumas aplicações filosóficas, tentando encontrar no carrinho de bate-bate metáforas evidentes da vida e seu sentido, mas achei que seria forçar demais a barra para uma tarde no parque da Xuxa.
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E depois do parque da Xuxa, vendo o finalzinho do jogo que passava na televisão, constatei algo mais que evidente: meu filho Eduardo é essa criatura alegre, saudável, carismática, linda e parecida comigo, todos sabem. O que nem todos se dão conta é de que ele, com seus 4 anos e pouco, jamais viu o São Paulo perder para o Corinthians. Será este um fator a mais a explicar sua personalidade especial?
Se sim, bem, tem outro filho chegando nos próximos dias. Vai-se chamar Davi. A Tatiana já está de resguardo, não pode trabalhar, tem que manter repouso, porque o Davi quer sair antes, logo, devemos ter novidades nos próximos dias. Dizem que os três primeiros anos são vitais para a formação do caráter e da personalidade de alguém, logo, estou planejando a próxima vitória dos gambá sobre o tricolor para algo como a segunda rodada do campeonato brasileiro de 2011, quando o São Paulo já for matematicamente campeão.
Posted by marcol at 9:34 AM | Comments (6)
fevereiro 8, 2007
Excelências
Há alguns dias, um juiz, com uma canetada, determinou o bloqueio ao acesso ao YouTube no Brasil, uma decisão que fez o país virar alvo de piadas ao redor do mundo. A ignorância completa quanto ao que seja internet e como ela é percebida no resto do mundo foi catastrófica (nos EUA existe uma lei denominada DMCA - Digital Millenium Copyright Act, de 96 [!], e na Europa uma Diretiva da Comunidade Européia [a 200/31] estabelecem o critério de que o provedor de serviços de internet - como o YouTube, o Google, o UOL, a Globo.com, o Terra, o Yahoo, o Hotmail, o iG, o MercadoLivre, etc - NÃO são responsáveis pelo conteúdo que eles hospedam, desde que eles não tenham sido os originadores da mensagem. Eles só são responsáveis depois de avisados do conteúdo ilícito e não fazem nada.Tudo porque a internet tem características que a distinguem de outras mídias, mas isso é assunto para outro post). Outro dia vi outra sentença lapidar na mesma linha: a sujeita recebeu um e-mail com um link, clicou nele, foi levada a um site que parecia supostamente ser um famoso site de compra e venda (no caso, o Arremate.com), comprou lá um produto sem precisar se cadastrar como usuária, pagou adiantado na conta que lhe pediram e não recebeu produto nenhum, claro. Ficou provado no processo que a compra não foi feita no Arremate.com, mas num site falso parecido com o do arremate. Mesmo assim o juiz condenou o Arremate dizendo que ele "devia fiscalizar o meio virtual para saber se alguém não está usando seu nome". Sim, sim.
Aí na semana passada um juiz determina que o aeroporto de Congonhas não funcione para a maioria das aeronaves. A decisão já caiu, mas fico pensando na impressão que a nobre classe dos magistrados passa: eles têm o poder de bloquear o acesso a um site extremamente popular (partindo da suposta ofensa à suposta honra de incautos namorados praianos), de responsabilizar qualquer empresa por qualquer coisa e de simplesmente fecharem o aeroporto mais movimentado do país. Mas são incapazes de enviar corruptos para cadeia e manter lá os poucos que lá chegam.
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Não sou um sujeito raivoso. Dificilmente tenho raiva de algo. Mas tem um negócio que me provoca tendências homicidas. Cigarro. Sim, especialmente aquele inusitado, que o cara que tá andando na sua frente na calçada acende sem você perceber e de repente você se vê cercado por uma nuvem de tabaco. Imediatamente me imagino com as mãos comprimindo o pescoço do cidadão e vociferando coisas como: quer se matar, faça-o sozinho!
Os fumantes que me perdoem, mas um amigo meu tem toda razão: todo fumante é, por definição, um mal educado.
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Não é raiva que me provoca a notícia desta manhã: bandidos cariocas roubaram um carro mas não aguardaram a criança de 6 anos conseguir se desprender do cinto de segurança. Arrastaram-no por 4 km antes de parar e chutar o corpo já morto para fora. Não é bem raiva, mas um sentimento de pobreza, de desencanto que beira o absoluto.
Com certeza "eles não sabem o que fazem", mas preciso de doses mais maciças de graça para conseguir pedir o perdão para eles.
Posted by marcol at 8:37 AM | Comments (5)
fevereiro 5, 2007
Um relato pormenorizado sobre o I Vale Tudo Gay da periferia de Belém-PA, outro sobre o menor bebê prematuro a receber alta da UTI no Brasil; um outro sobre a Maratona do Samba em São Paulo, mais um sobre uma procissão de zumbis famintos por miolos em plena Porto AlegreRS. Uma série de artigos sobre natação, incluindo um depoimento de Oliver Sacks e um conto de Umberto Eco. Um outro relato sobre a chegada ao inferno do cara que inventou as embalagens de CDs. Um depoimento sobre o dia-a-dia de uma atriz e cantora que participa da montagem do Fantasma da Ópera na "Broadway Brasileira" e que vive fazendo testes para comerciais de TV. Pra terminar, uma viajada sobre as Mil e Uma noites by Salman Rushdie.
Tudo isso e muito mais na PIAUÍ de janeiro. Que você provavelmente não vai mais encontrar na banca. Sinto muito, mas é que a Piauí é uma revista tão grande que só agora terminei de ler a minha.
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Ontem teve chá de bebê pro meu vindouro rebento. Sempre achei esquisito o nome desse trem. Imagino um bebê tipo sachê embebido numa chícara de água quente. Mas mais esquisito mesmo é participar. A filha duma amiga da Tatiana, de uns 5 anos, chegou pra mim e perguntou: "O que é que você tá fazendo aqui?", decerto intrigada por eu ser o único macho num raio de duzentos quilômetros, ao que eu respondi: "boa e sábia pergunta, Luana..."
Mas eu sabia porque estava lá. Alguém precisava encher bexigas.
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Ontem a Fox estreou Shark. Eu gosto pra dedéu do James Woods, é um ator diferenciado. Achei a série um pouco atropelada, em ritmo muito rápido demais, do tipo que acaba não aprofundando os personagens. Mas o saldo é positivo, mesmo assim fica acima da média.
Posted by marcol at 4:43 PM | Comments (3)