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janeiro 30, 2007
Tempos modernos
Eu aguardava minha prima e seu marido para comermos uma pizza lá em casa. Muito depois do horário combinado, ligam dizendo que haviam sido vítimas de seqüestro relâmpago. A história tem tintas de comédia, não fosse a experiência traumatizante que sempre é. Por exemplo, os cidadãos que resolveram passear com eles por entre caixas eletrônicos cutucando-os com suas armas os repreenderam severamente porque não tinham filhos. Disseram que "Deus ajuda" quem tem filhos. Um deles chegou a dizer que cursou até o terceiro ano de educação física na Unisa e ficou feliz de saberem que eram adventistas, pois a mãezinha dele também é. Quão relaxante!
A reação dos dois foi exemplar. Estiveram calmos, conversaram tranquilamente com os meliantes e concordaram felizes e contentes em, sim, apenas bloquear o cartão de crédito na segunda de manhã (era noite de sábado). Claro. O único deslize foi quando o Hélio explicou a ele que só estava com um cartão de banco na mão e não levava talão de cheque nem nada porque "essa cidade está muito violenta, como vocês podem ver". Eles concordaram.
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A reação ao momento em que você tem uma arma apontada para sua cabeça é sempre algo um tanto inusitado. Você não sabe como vai reagir até acontecer.
Sendo paulistano e pegando ônibus desde cedo, tive um monte de experiências do gênero. Nas duas primeiras, entreguei o relógio ou os tostões da carteira para o trombadinha sem refugar. Depois, quando atingi a adolescência e o 1,90m, comecei a querer encarar. Da primeira vez, cercado por cinco infelizes que me exigiam o dinheiro da carteira, simplesmente falei "sai fora", dei meia volta e saí calmamente do cerco. Deu certo. Eles riram como se só estivessem brincando e foram embora. Isso me deixou muito macho.
Aí o cidadão me viu saindo do posto de compra de passes e vales-transporte da finada CMTC com uma mochilinha e veio atrás de mim. Entrou no ônibus e ficou do meu lado. Quando o buzão zarpou ele disse pra eu passar a mochila. Eu empurrei ele e disse: "aí, cobrador, olha o cara me assaltando aqui". O cobrador empalideceu e o função* sacou uma arma, engatilhou e encostou na minha cabeça. Uma senhora levantou um três bancos para trás e começou a dizer pra ele não fazer nada, que Jesus o amava, etc. Eu abri a carteira, mas o cara disse que queria o vale transporte. Abri a mochila e ia dando pra ele minhas duas mirradas cartelas de passe escolar quando ele percebeu que eu não era um office boy levando o vale transporte da empresa. Então ele deixou pra lá, pediu pro motorista parar em pleno túnel da 9 de julho e desceu, não sem antes avisar a senhora que continuava a bradar pra tomar cuidado pra não levar um tiro à toa. Ela não sabia era que Jesus amava mesmo era a mim.
A última experiência também foi a mais traumática. Ficamos uns 40 minutos rodando com três caras completamente piradas. Nesse ínterim, um tiro foi desferido à queima roupa na direção da minha cabeça, batemos o carro e encetamos a conversação mais surreal de todos os tempos com a bandidagem. O detalhe foi que eu já não era mais o machão e fiquei em estado de choque, pouco balbuciando monossílabos. Quem conduziu a conversa e terminou convencendo os caras a nos soltarem, quase como uma velha amiga deles, foi a Tatiana. Estávamos namorando havia um mês, ela tinha só 17 anos.
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Tudo isso é só pra dizer que este é um mundo cão.
* gíria dos anos 80 pra designar os amigos do alheio
Posted by marcol at 8:17 AM | Comments (6)
janeiro 22, 2007
Meu, eu nunca ri tanto...
Nesse tempo de nuvens plúmbeas (urgh), notícias fúnebres e suas respectivas desditas, achei de bom tom lembrar os filmes que mais me fizeram rir. Trata-se, pois, de um Top 5 muito personal, em que o único critério é a quantidade de gargalhadas suscitadas, e não eventuais valores artísticos intrínsecos da obra. Porque pra você rir muito às vezes basta que esteja no clima, basta que o negócio te surpreenda ou faça ativar circuitos mentais que remetam a lembranças ou sensações esquecidas. Basta sei lá o que, chega, de teorizar e passemos logo aos títulos que só de lembrar já despejam endorfinas demontes na minha corrente sangüínea:
Número 5. Um Peixe Chamado Wanda (1988)

Depois do fim do Monty Python essa talvez tenha sido a melhor incursão de ex-membros da abençoada trupe inglesa. A trama é inteligentíssima e conta com atuações memoráveis. Do tipo que te faz perguntar por que raios Kevin Kline não é um ator do primeiríssimo time. Ponto altíssimo: o personagem de Kevin Kline tortura o gago (e genial) Michael Palin engolindo os peixinhos de seu aquário.
Número 4. Apertem os cintos: o piloto sumiu (1980)

Possivelmente muito inspirado no número 1 deste Top 5, Apertem os cintos teve um impacto gigantesco na minha geração e foi o grande disseminador do bom e velho besteirol por aqui. As piadas nonsense são tão excelentemente boas que dispensam boas atuações. Só pra ilustrar, foi por causa desse filme que o péssimo Leslie Nielsen descobriu o que chamam de "sua veia cômica". Mas, em compensação, é duro achar um ponto altíssimo. Vai esse aqui, anyway: momentos de tensão terríveis na torre de controle. O estressado chefe daquilo lá pergunta o que os seus homens vêem no radar. Eles não vêem nada, porque estavam jogando videogame. Logo depois aparece o gay que só quer saber de lavar roupa e dizer incongruências e puxa a tomada deixando a Torre no escuro. Na seqüência diz que foi tudo brincadeirinha.
Número 3: Top Secret (1984)

Um Elvis Presley espião americano em plena Alemanha nazista. No caminho dele, um balé estranhíssimo, fantasias de vaca, flash backs à la Lagoa Azul, lutas de faroeste embaixo d'água e muitas piadas visuais geniais. Foi duro decidir a colocação desse filme e do anterior. Em qual eu ri mais? Este aqui ganhou por causa do seu ponto altíssimo: na prisão alemã, o mocinho invade a cela do pai de sua amada e diz que ele veio até ali para livrá-lo. Colocando a cabeça para fora do buraco de onde saía uma mão com uma colher cheia de terra, o idoso cientista prisioneiro diz: - oh, que ironia. Bem agora que eu estava terminando meu túnel... Val Kilmer coloca a cabeça no buraco e vê um túnel asfaltado, iluminado e com placas de sinalização. Isso acabou comigo!
Número 2. Infielmente Tua (1983)

Pouca gente sabe que filme é esse. Mesmo o Google relutou um pouco em me mostrar alguma coisa dele. É uma comédia despretensiosa, refilmagem de outra de mesmo nome dos anos 40. Aqui, Dudley Moore é o marido ciumento de Natasja Kinski (em sua melhor forma) (física, é claro). Mas a verdade é que aquela noite dos anos 80, em que eu estava sozinho na sala da minha casa vendo Supercine enquanto o resto da família fazia sala para alguma visita lá na cozinha foi uma das que mais ri em todos os tempos. Ponto altíssimo: é uma sucessão de gags geniais calcadas no plano maquiavélico do maestro para matar sua mulher e seu suposto amante. Tudo, absolutamente tudo, sai errado. Situações bizarras, difícil escolher uma só.
1. Monty Python em Busca do Cálice Sagrado (1975)

Ors concours, você diria. E, se não diria, é porque não tem o menor senso de humor. Trata-se de um clássico absoluto. Este filme inspirou boa parte desta lista, é genial do começo ao fim. Mulheres costumam não ver graça nenhuma. Mas e daí?, comédia é um gênero essencialmente masculino. Ponto altíssimo: o sábio da ponte faz três perguntas para os cavaleiros. Aqueles que acertam as perguntas, passam, os que não acertam caem no abismo. Perguntas terríveis, como "qual é sua cor preferida?" E mesmo assim muitos caem no abismo. Até o próprio sábio. Hilário.
Ai, ai. Isso me fez bem. A propósito, notou as datas dos filmes? Dilema à la Tostines: antes se faziam filmes muito mais engraçados ou eu é que fiquei sem graça?
Saudações, terráqueos!
Posted by marcol at 6:08 PM | Comments (11)
janeiro 17, 2007
É bem verdade que na maioria das vezes somos incapazes de precisar o quê no objeto amado despertou o nosso amor. Se pudéssemos saber, ficaríamos surpresos de ver que muitas vezes foram coisas minúsculas. Um certo ângulo do pescoço quando ela(e) olha para baixo, a inflexão da voz, uma risada inopinada. Uma palavra solta no ar, o jeito como os cabelos farfalham no vento, um gesto casual. Um olhar distraído, a curva de um lábio, o formato das mãos. Se pudéssemos saber nos supreenderíamos. Ou, como preferiria Kant, talvez as razões do sem-razão estariam não no objeto amado, mas dentro de nós, em certas lacunas insuspeitas, em certos momentos especialmente vazios, quando uma confluência de casualidades te empurra para o meio do vendaval. Se pudéssemos saber nos supreenderíamos, mas quem sabe deixássemos, assim, de amar? Melhor não saber, portanto.
[excerto de um livro que eu nunca escrevi]
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Assisti a Flores Partidas. Não chega a empolgar.
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Apareceu um buraco no meio da rua. Sugou gente, caminhões, ônibus. Pensei na senhora que voltava à pé da consulta do médico. Teria ouvido boas coisas? E se houvesse atrasado um minutinho? E se houvesse andado mais rápido um pouquinho?
A velha história do timing. Ou, como diria Inagaki.
Frágil é a vida. Impressionante que alguns a vivam sem reflexão. Impressionante, para mim, que alguns reflitam e rejeitem a realidade de Deus.
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Posted by marcol at 5:04 PM | Comments (7)
janeiro 9, 2007
Epigrama de meio de semana:
As pessoas que já têm aquilo que você persegue tão ingentemente parecem felizes?
Posted by marcol at 2:55 PM | Comments (6)
janeiro 4, 2007
Ordem e progresso
Inspirado na triologia das cores de Kieslowski lembrada no último post, comecei a redigir o roteiro de uma bi-logia das cores: verde e amarelo. Os nomes dos filmes serão "Verde" e - adivinhe - "Amarelo". Quando traduzidos para o francês, o russo e o suahili, os títulos poderão ser renomeados para "A ordem é verde" e "O progresso é amarelo".
O primeiro contará a história de um inglês que chega ao Brasil e tenta implantar sem sucesso seus ideais de ordem e método. Para dar a coloração verde que a fita requer, algumas cenas serão feitas num bananal no vale do Ribeira. Como o bananal entra na história é algo que ainda estou definindo. No fim, ele desiste e volta pra Europa.
O segundo filme narrará a vinda de um sul-coreano interessado em abrir uma fábrica de componentes eletrônicos no Brasil que, premido pela absurda carga tributária, pelos ridículos encargos sobre a folha de pagamento, pelos achaques sindicais, pela falta de infra-estrutura e, sobretudo, pela falta de cachorros sem vermes para comer, ele pica a mula de volta pra Coréia no final. A coloração amarela do filme será garantida por figurantes com febre amarela.
Antes de escrever a primeira linha dos roteiros, contudo, redigi meu discurso de agradecimento pelo Oscar que certamente há de vir. Tem seis laudas em frente e verso, tem tudo pra ser lembrado pelo resto da vida da minha mãe.
Posted by marcol at 10:35 AM | Comments (6)
janeiro 2, 2007

* Pra começar o ano bem. Seja por desejar igualdade, liberdade e fraternidade, seja por exibir logo de cara la Delpy, la Binoche e la Jacob. Seja, também, por lembrar desse monumento cinematográfico que marcou minha longínqua primeira juventude. Grande 2007 para o planeta Terra, a gente incluído.
Posted by marcol at 6:30 PM | Comments (3)