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novembro 16, 2006

Ninguém é perfeito

A muito custo conseguiram desligar a televisão para ter um legítimo jantar em família. Contrariado, o filho assentou-se meio que bufando, mas esticando o olho para ver o que a mãe havia feito. A filha também tomou seu lugar, posicionando com extremo carinho o celular ao lado do prato. O pai fez de conta que não viu e mandou o filho sentar direito enquanto se servia de arroz. Afobada, a mãe apareceu com uma panela fumegante de feijão.

- Pronto, gente. Pronto.

Ela ficou algum tempo de pé ao lado da mesa, esfregando as palmas das mãos nas calças e verificando se estava tudo certo. Não estava:

- Mulher, eu já falei mais de um milhão de vezes pra tomar cuidado com o cabo desses talheres. Olha aí, queimou todo o garfo – disse o pai pegando bruscamente o talher que estava na tigela com os bifes – Por isso nada dura nessa casa, mesmo! É um desleixo...

A mãe soltou um profundo aaaaah como quem confessa uma culpa e sofre com ela. Mas o pai não estava satisfeito:

- Só tem um pra pagar as contas nessa casa. O mínimo que se espera é cuidado com o que a gente compra com o suor do rosto. Parece surda! A gente fala, fala, fala e nada. Eu falo com uma porta, é? Você não tem jeito mesmo. Um caso perdido – encerrou o monólogo enchendo a boca de comida. Mas a mãe agora estava ofendida. Não precisava tanto, né? Fechou o rosto e foi sentando.

- Pois é, pai. Sua mulher é cheia de defeitos, mesmo. Perfeito, aqui, só você.

Enquanto mastigava com os olhos fixos na panela do feijão ele pensava: “pronto. Fiz besteira de novo. Olha lá, ficou chateada e agora é uma semana de aiaiai e não-me-toques. Que droga. Eu tinha decidido só dar essas broncas quando a gente tivesse sozinho, e maneirando. Que saco. Fiz de novo. Bom, paciência. Ninguém é perfeito”.

O celular tocou. Com a rapidez de um relâmpago a filha atendeu com seu alô mais agudo. Seguiram-se sete minutos e meio de comentários sardônicos sobre colegas do colégio e risadinhas enquanto os demais ocupantes da mesa trocavam olhares de desconforto. Menos a mãe, que estava ofendida e só sinalizava com olhares para a própria filha, que fazia que não via porque a conversa estava quente.

- Êita, que linguão, hein? Tá escorrendo o veneno – disse o filho quando ela desligou.

- Não enche. Vocês não vão acreditar – disse em tom de quem vai anunciar a coisa mais importante do universo, os olhos faiscando: parece que o Plínio ficou com a Roberta no sábado! Todo mundo tá abismado, porque ela tinha jurado amor eterno pro Heitor. Dizem até que ela fez uma tatuagem com as iniciais dele. Lógico que a mãe dela não sabe, se não morria. Já teve um treco quando a Letícia apareceu com o piercing. Mas o Plínio fica com fama de galinha também, porque na sexta tinha ficado com a Márcia, aquela que tá com aquele cabelo meio raspado hor-rí-vel – mas homem tudo bem, né, faz parte...

- Filha, eu já te falei que você vai ter problemas demais com essa mania de fofoca. Que coisa, parece que vive pra isso!

- Ai, mãe, que saco!

Muito contrariada, a filha volta ao seu prato e pensa: “qual o problema? Faz parte da minha personalidade, pombas, deixa eu. Deus sabe o quanto eu já tentei parar de fofocar, mas ninguém é perfeito”.

O jantar transcorreu em silêncio. O filho praticamente engolia a comida. Quando terminou o bife, que já era o maior de todos, esticou o garfo rapidinho e espetou o último que havia sobrado na travessa. O pai deu aquela olhada mas não disse nada.

O filho continuou comendo dando de ombros e dizendo de si pra si: “Normal. Tô em fase de crescimento. Só falta virem pra cima de mim com esse papo de obesidade e tralálá. Pô, fiquei aqui o maior tempo na minha, o bife ali olhando pra mim, eu tentando nem olhar, ele olhando pra mim, meu, assim não há santo que agüente. Ninguém é perfeito, pô”.

A menina continuou comendo de olho no celular, que acariciava de quando em quando. A mãe continuou remoendo sua indignação mas esqueceu a panela do feijão sobre a toalha da mesa ao invés de devolvê-la sobre o descanso. O pai viu, grunhiu e bufou e o garoto levantou a cabeça do seu bife para perguntar:

- Tem sobremesa?

* * * *
“O Senhor me... enviou para ... proclamar a libertação aos cativos” (Lucas 4:18).

Posted by marcol at novembro 16, 2006 2:07 PM

Comments

Ih Marquito, jah tinha achado bom o texto na sexta, relendo hoje achei ainda melhor. Por enquanto o jantar aqui eh leite, mas se a gente nao se policia...

bjokas pra todos,
Keiko

Posted by: Keiko at novembro 17, 2006 2:05 AM

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