novembro 27, 2006
Natal em 4 faces
O pessoal do Nova Semente me encomendou outro conto, dessa vez um natalino. Vamos lê-lo no próximo sábado, às 18h00, como introdução à programação da série de eventos que trata do natal sob um prisma inovador. Uéu, o resultado foi este aqui, evidentemente inspirado no batidaço Conto de Natal, de Charles Dickens:
Olá. Eu sou o fantasma dos natais do presente. Meus colegas, os fantasmas dos natais passados e dos natais futuros foram dispensados por restrições orçamentárias, culpa dos tempos atuais, você sabe como é.
Outro problema da vida pós-moderna é que absolutamente tudo é sujeito a mil interpretações, nada parece ser verdade absoluta. Nem o natal. Vou levar você para conhecer algumas de suas muitas versões:
1.
Veja, por exemplo, o Joelmir. Para ele, natal é a época em que ele pode certificar se é ou ainda não é uma pessoa popular. Ele tem um sistema muito peculiar de medição de sua popularidade pela quantidade de cartões de natal que recebe.
Ele tenta não notar que tem recebido menos cartões a cada ano. Veja como ele os dispõe sobre a mesa de centro com extremo afeto. Note que ele não presta muita atenção aos dizeres dos cartões, de resto sempre muito formais e repetitivos. Não presta atenção também em quem os assina. O que é importa é quantos são, pois há uma relação direta desse número com o tanto de pessoas que se lembra dele quando tem que enumerar os que lhe são caros. Joelmir precisa desesperadamente sentir que é caro para alguém.
Ele constata com alguma melancolia que, quando era casado, recebia muito mais cartões. Desconfia que talvez popular mesmo fosse sua ex-esposa. A idéia não lhe agrada, então ele afasta o pensamento com a mão. Mas ela volta e ele lembra de como sua ex-mulher chorava lendo os cartões, de como ela gostava também de os redigir, buscando mensagens criativas.
Ele coloca uma música e fica olhando os cartões. De repente uma lufada de vento vinda sabe-se lá de onde, os derruba. Todos os quatro. A música é triste e ele está triste também.
2.
Agora veja o Cássio. A idéia do natal começa a doer-lhe logo à vista dos primeiros enfeites que pipocam em meados de novembro. Natal é o tempo de ter que comprar presentes. Geralmente isso consome todo o 13º, porque a Carmen Lúcia faz questão de presentear todo e qualquer sobrinho, e são muitos. Natal é o tempo de festas com aqueles parentes com quem não se identifica, que acha chatos até a morte. Mas, sobretudo, natal é o tempo de amigo secreto na empresa.
O ano todo é uma cultura de ódio em fogo alto. Competição, puxões de tapete, todos os advogados do departamento jurídico tentando mostrar que trabalham mais pesado que os demais, hostilidades veladas, explosões de raiva. Então chega o dia do amigo secreto. As chances de tirar o papelzinho com o nome de alguém minimamente simpático são remotíssimas. As trocas de bilhetinhos na caixinha colocada ao lado da máquina de café são protocolares, têm que afetar algum bom humor, mas no fim das contas só se prestam a saber o que outro quer ganhar e pronto.
Aí vem o dia da revelação. As pessoas se sentem obrigadas a trocar sorrisos e demonstrações gratuitas e deslocadas de afeto. Afeto afetado, claro, hipocrisia pura.
Nessa época, o que Cássio mais repete para si mesmo é um mantra que serve como consolo relativo: é uma vez no ano, só, é uma vez no ano, só, é uma vez no ano, só.
3.
Flávia, contudo, adora o natal. Nos primeiros dias de novembro ela se lança no metrô e vai à rua 25 de março. No final do dia, carregando um monte de sacolas, toma o caminho de volta, cansada mas realizada. Achou um monte de novidades.
Passa semanas decorando a fachada e o interior da casa. Tem enfeites natalinos até no banheiro.
Os enfeites que mais gostam não são os papais noéis de todos os tipos, formatos e tamanhos, com e sem musiquinhas, espalhados por todo canto. São os bonecos de neve. Este ano ela vai encontrar um boneco de neve que, quando tocado, dança e canta “noite feliz” em inglês.
Os filhos já estão adolescentes e não a acompanham mais naquele entusiasmo natalino. Eles estão mais ocupados planejando viagens com os amigos. Lucas, o primogênito, deu-lhe um duro golpe, este ano: vai viajar com a turma da faculdade no dia 22 de dezembro. Será o primeiro natal sem o filho na ceia, e não existe santo que o convença a ficar. Pelo menos ela se revelou incapaz. Não conseguiu explicar a ele porque é importante a família estar junta no natal. Ele perguntou milhões de vezes: por que? O que o natal tem de mais? O que?
Ele está grande. Já faz a barba. Tem um cabelo estranho e fica fora a noite toda. Não dá mais para ela dizer “porque sim”. Mas ela toca no boneco de neve novo, que foi posicionado com extremo cuidado no centro do buffet da sala. A musiquinha e a dança tosca a consolam. Ela só pensa agora numa desculpa para chamar a vizinha lá dentro e poder mostrar.
4.
Agora estamos na ceia de natal da família Migliori. Arrastando a grande boneca de pano pelo pé, Clara sorri seu encanto a todo mundo, olhando para cima. Não importa se as pessoas a notam ou não, sua reação é a mesma: um sorrisinho silencioso que cava as duas covinhas nas faces, um leve inclinar da cabeça para o lado, enquanto a mãozinha livre vai até o queixo. Depois continua andando, até o próximo par de pernas e o próximo sorriso. Alguns tentam chamar sua atenção, pegá-la no colo, falar com ela, mas ela dribla, vai espalhando os sorrisinhos, fitando a decoração.
Olha silenciosa para os primos mais velhos que, de quando em quando, passam feito uma manada. Aceita uma uva que a tia lhe estende, e vai comê-la mirando longamente a árvore de natal na sala, as luzes, enfeites e o monte de caixas de presente embaixo das folhas verdes. O presépio de plástico, sobretudo. Passa o dedinho sobre o bebê na manjedoura. Vira de costas para a árvore e fica por algum tempo admirando a confusão de copos, vozes, roupas coloridas, maquiagens esdrúxulas, o Frank Sinatra no som e a risada estridente da tia Leonor compondo a moldura. Então resolve refazer o caminho inteiro, cruzando a casa de fora a fora.
Vê a prima chorando, vai até ela e lhe dá a boneca. Passa por entre as diversas rodinhas mandando beijos estalados para todos. Faz cafuné na cabeça do cachorro deitado na porta da cozinha, abre um sorriso lindo para o primo que derrama o copo de ponche.
Por fim abre a porta do quarto escuro com grande esforço, anda até a cama, trepa nela e dá um grande beijo no rosto da vó moribunda. Depois aninha a cabeça no peito dela e adormece.
* * * * *
Estes são alguns dos natais do presente. Espero que nosso tour por entre eles tenha atingido seu objetivo. Você sabe, não é sempre que eu, o fantasma dos natais do presente, aparece. Se você não aproveitou dessa vez, quem sabe quando de novo?
Ah, antes de ir embora: feliz natal!
Posted by marcol at novembro 27, 2006 8:14 AM
Comments
Caro amigo, talvez tenha se esquecido de um natal do presente, do passado e do futuro. O natal em que a familia rica, pobre ou mediana se reune, soltam sorrisos e cumprimentos p/ aqueles que não viram o ano todo, e passarão o proximo ser ver novamente.E qndo vai chegando a hora alguem abençoado e inspirado por Deus diz: vamos fazer uma oração? um agradecimento? e naquele momento 'tds' esquecem dos presentes, falsidade, sorrisos, choros e mentiras e lembram-se apenas do que cristo fez por tdos nós, e que nesse dia comemora-se o nascimento do homem que salvou o mundo, seja ou não o dia do nascimento, só uma data simbólica. Feliz natal amigo, que eu consiga esse ano parar de reclamar das falsidades e apenas agradecer a cristo de tdo o meu coração, um dia mágico vem ai, o natal? não! escolha qualqr dia para torna-se o seu dia mágico!
Posted by: Dalton at dezembro 17, 2006 12:48 AM
Eu tava com saudade do sabor dessa uvinha, heheehehhehe
Beijos, meu amigo! Dê notícias da patroa e dos patroezinhos!
Posted by: Lux at dezembro 2, 2006 2:27 PM
Muito, mas muito bom!
Posted by: Marconi Leal at novembro 27, 2006 5:20 PM