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novembro 27, 2006
Natal em 4 faces
O pessoal do Nova Semente me encomendou outro conto, dessa vez um natalino. Vamos lê-lo no próximo sábado, às 18h00, como introdução à programação da série de eventos que trata do natal sob um prisma inovador. Uéu, o resultado foi este aqui, evidentemente inspirado no batidaço Conto de Natal, de Charles Dickens:
Olá. Eu sou o fantasma dos natais do presente. Meus colegas, os fantasmas dos natais passados e dos natais futuros foram dispensados por restrições orçamentárias, culpa dos tempos atuais, você sabe como é.
Outro problema da vida pós-moderna é que absolutamente tudo é sujeito a mil interpretações, nada parece ser verdade absoluta. Nem o natal. Vou levar você para conhecer algumas de suas muitas versões:
1.
Veja, por exemplo, o Joelmir. Para ele, natal é a época em que ele pode certificar se é ou ainda não é uma pessoa popular. Ele tem um sistema muito peculiar de medição de sua popularidade pela quantidade de cartões de natal que recebe.
Ele tenta não notar que tem recebido menos cartões a cada ano. Veja como ele os dispõe sobre a mesa de centro com extremo afeto. Note que ele não presta muita atenção aos dizeres dos cartões, de resto sempre muito formais e repetitivos. Não presta atenção também em quem os assina. O que é importa é quantos são, pois há uma relação direta desse número com o tanto de pessoas que se lembra dele quando tem que enumerar os que lhe são caros. Joelmir precisa desesperadamente sentir que é caro para alguém.
Ele constata com alguma melancolia que, quando era casado, recebia muito mais cartões. Desconfia que talvez popular mesmo fosse sua ex-esposa. A idéia não lhe agrada, então ele afasta o pensamento com a mão. Mas ela volta e ele lembra de como sua ex-mulher chorava lendo os cartões, de como ela gostava também de os redigir, buscando mensagens criativas.
Ele coloca uma música e fica olhando os cartões. De repente uma lufada de vento vinda sabe-se lá de onde, os derruba. Todos os quatro. A música é triste e ele está triste também.
2.
Agora veja o Cássio. A idéia do natal começa a doer-lhe logo à vista dos primeiros enfeites que pipocam em meados de novembro. Natal é o tempo de ter que comprar presentes. Geralmente isso consome todo o 13º, porque a Carmen Lúcia faz questão de presentear todo e qualquer sobrinho, e são muitos. Natal é o tempo de festas com aqueles parentes com quem não se identifica, que acha chatos até a morte. Mas, sobretudo, natal é o tempo de amigo secreto na empresa.
O ano todo é uma cultura de ódio em fogo alto. Competição, puxões de tapete, todos os advogados do departamento jurídico tentando mostrar que trabalham mais pesado que os demais, hostilidades veladas, explosões de raiva. Então chega o dia do amigo secreto. As chances de tirar o papelzinho com o nome de alguém minimamente simpático são remotíssimas. As trocas de bilhetinhos na caixinha colocada ao lado da máquina de café são protocolares, têm que afetar algum bom humor, mas no fim das contas só se prestam a saber o que outro quer ganhar e pronto.
Aí vem o dia da revelação. As pessoas se sentem obrigadas a trocar sorrisos e demonstrações gratuitas e deslocadas de afeto. Afeto afetado, claro, hipocrisia pura.
Nessa época, o que Cássio mais repete para si mesmo é um mantra que serve como consolo relativo: é uma vez no ano, só, é uma vez no ano, só, é uma vez no ano, só.
3.
Flávia, contudo, adora o natal. Nos primeiros dias de novembro ela se lança no metrô e vai à rua 25 de março. No final do dia, carregando um monte de sacolas, toma o caminho de volta, cansada mas realizada. Achou um monte de novidades.
Passa semanas decorando a fachada e o interior da casa. Tem enfeites natalinos até no banheiro.
Os enfeites que mais gostam não são os papais noéis de todos os tipos, formatos e tamanhos, com e sem musiquinhas, espalhados por todo canto. São os bonecos de neve. Este ano ela vai encontrar um boneco de neve que, quando tocado, dança e canta “noite feliz” em inglês.
Os filhos já estão adolescentes e não a acompanham mais naquele entusiasmo natalino. Eles estão mais ocupados planejando viagens com os amigos. Lucas, o primogênito, deu-lhe um duro golpe, este ano: vai viajar com a turma da faculdade no dia 22 de dezembro. Será o primeiro natal sem o filho na ceia, e não existe santo que o convença a ficar. Pelo menos ela se revelou incapaz. Não conseguiu explicar a ele porque é importante a família estar junta no natal. Ele perguntou milhões de vezes: por que? O que o natal tem de mais? O que?
Ele está grande. Já faz a barba. Tem um cabelo estranho e fica fora a noite toda. Não dá mais para ela dizer “porque sim”. Mas ela toca no boneco de neve novo, que foi posicionado com extremo cuidado no centro do buffet da sala. A musiquinha e a dança tosca a consolam. Ela só pensa agora numa desculpa para chamar a vizinha lá dentro e poder mostrar.
4.
Agora estamos na ceia de natal da família Migliori. Arrastando a grande boneca de pano pelo pé, Clara sorri seu encanto a todo mundo, olhando para cima. Não importa se as pessoas a notam ou não, sua reação é a mesma: um sorrisinho silencioso que cava as duas covinhas nas faces, um leve inclinar da cabeça para o lado, enquanto a mãozinha livre vai até o queixo. Depois continua andando, até o próximo par de pernas e o próximo sorriso. Alguns tentam chamar sua atenção, pegá-la no colo, falar com ela, mas ela dribla, vai espalhando os sorrisinhos, fitando a decoração.
Olha silenciosa para os primos mais velhos que, de quando em quando, passam feito uma manada. Aceita uma uva que a tia lhe estende, e vai comê-la mirando longamente a árvore de natal na sala, as luzes, enfeites e o monte de caixas de presente embaixo das folhas verdes. O presépio de plástico, sobretudo. Passa o dedinho sobre o bebê na manjedoura. Vira de costas para a árvore e fica por algum tempo admirando a confusão de copos, vozes, roupas coloridas, maquiagens esdrúxulas, o Frank Sinatra no som e a risada estridente da tia Leonor compondo a moldura. Então resolve refazer o caminho inteiro, cruzando a casa de fora a fora.
Vê a prima chorando, vai até ela e lhe dá a boneca. Passa por entre as diversas rodinhas mandando beijos estalados para todos. Faz cafuné na cabeça do cachorro deitado na porta da cozinha, abre um sorriso lindo para o primo que derrama o copo de ponche.
Por fim abre a porta do quarto escuro com grande esforço, anda até a cama, trepa nela e dá um grande beijo no rosto da vó moribunda. Depois aninha a cabeça no peito dela e adormece.
* * * * *
Estes são alguns dos natais do presente. Espero que nosso tour por entre eles tenha atingido seu objetivo. Você sabe, não é sempre que eu, o fantasma dos natais do presente, aparece. Se você não aproveitou dessa vez, quem sabe quando de novo?
Ah, antes de ir embora: feliz natal!
Posted by marcol at 8:14 AM | Comments (3)
novembro 24, 2006
Quote
Aprecio muito outro prazer humano: ouvir uma orquestra sinfônico. Quando o faço, a principal fonte do que interpreto como prazer está localizada dentro do meu ouvido. Ali posso detectar freqüências de som que me roçam os tímpanos com uma proximidade igual a um bilionésimo de centímetro (distância equivalente a um décimo do diâmetro de um átomo de hidrogênio). Essa vibração é transmitida para o ouvido interno por três ossinhos coloquialmente conhecidos como martelo, bigorna e estribo. Quando a freqüência de um dó médio é percutida em um piano, o êmbolo dos ossos do ouvido interno vibra 256 vezes por segundo. Em uma parte ainda mais interna encontram-se cílios individiauis, comparáveis aos bastonetes e cones dos olhos, que transmitem mensagens sonoras específicas para o cérebro. Este os combina com outros fatores - o grau do meu apreço pela música, a familiaridade que tenho com a peça executada, o estado da minha digestão, os amigos com quem estou - e apresenta a combinação de impulsos de uma forma como prazer.
Philip Yancey e Dr. Paul Brand, in Feito de modo especial e admirável, editora Vida
Posted by marcol at 11:49 AM | Comments (1)
novembro 21, 2006
Porque me ufano de meu país
Os nobres parlamentares estão votando um projeto que lhes concede um aumento nominal nos vencimentos de 91,4%. Nominal porque o projeto, bonzinho que é, prevê o corte de algumas ajudas que hoje correm como extras, tipo auxílio moradia, ticétera. Assim, não pense que eles estão querendo simplesmente dobrar o valor do seu salário, nada disso. É um pouco menos.
Nada mais justo. Aprovar isso assim, às vésperas do natal, como costumam passar tais projetos, seria um mais que devido prêmio à excelente, impoluta, profícua e supimposa legislatura que fizeram nestes últimos quatro anos.
Porque meu ufano de meu time
Ganhamos. O campeonato brasileiro tão indiscutível, duas rodadas antes do fim, sobrando pra todo lado, é a cerejinha do bolo desse trabalho digno de aplausos do São Paulo, que começou há três anos.
Que é o clube mais organizado, profissional e sério do país, todo mundo concorda. Poucos clubes têm eleições tão disputadas como este, o poder se alterna, não existem ditadores. Mas tem ainda um outro fator interessante: o São Paulo tem uma comissão técnica (preparador de goleiros, assistente técnico, preparador físico, etc) fixa. Se muda o treinador, ele tem que chegar praticamente sozinho e o trabalho mantém uma constância cujos resultados são evidentes.
Posted by marcol at 10:45 AM | Comments (3)
novembro 17, 2006
Nova Semente
Uma das coisas mais interessantes que me aconteceu nos últimos tempos foi conhecer o Nova Semente. Eu raramente falo aqui de coisas relacionadas à minha fé, mas hoje eu preciso apresentar esse projeto fantástico e fazer um convite para quem mora em São Paulo.
Nova Semente não é uma igreja. É um projeto diferente de tudo. Todo sábado, às 18h00, ele acontece em um auditório de instalações excelentes na Rua Dr. Bacelar, 1.043, esquina com a Luis Góes, na Vila Clementino (bem pertinho da Rubem Berta, do Hospital do Servidor Público, Sena Madureira, Aeroporto, ticétera). Tem boa música e mensagem substanciosa num clima muito descontraído.
A tal mensagem substanciosa aborda assuntos contemporâneos como stress, depressão, felicidade, etc. Ela é dividida em séries de palestras.
Embora não seja uma igreja e embora não toque em assuntos doutrinários (divergências de entendimento sobre assuntos polêmicos da fé), o Nova Semente é tocado por cristãos comprometidos.
Meu sogro e alguns bons amigos que não pisavam em igrejas agora não passam um sábado sem aparecer por lá e isso se deve ao fato de o projeto ser tocado por gente inteligente e realmente apaixonados pelo que fazem, tudo na base do voluntariado.
Para quem tem crianças, há um espaço dividido por faixas etárias aonde elas são cuidadas por monitores cheios de idéias enquanto os pais ficam tranqüilos no auditório.
Enfim, é uma coisa que realmente vale a pena ser conhecida. O que você tem para fazer neste sábado à tarde?
Posted by marcol at 9:06 AM | Comments (2)
novembro 16, 2006
Ninguém é perfeito
A muito custo conseguiram desligar a televisão para ter um legítimo jantar em família. Contrariado, o filho assentou-se meio que bufando, mas esticando o olho para ver o que a mãe havia feito. A filha também tomou seu lugar, posicionando com extremo carinho o celular ao lado do prato. O pai fez de conta que não viu e mandou o filho sentar direito enquanto se servia de arroz. Afobada, a mãe apareceu com uma panela fumegante de feijão.
- Pronto, gente. Pronto.
Ela ficou algum tempo de pé ao lado da mesa, esfregando as palmas das mãos nas calças e verificando se estava tudo certo. Não estava:
- Mulher, eu já falei mais de um milhão de vezes pra tomar cuidado com o cabo desses talheres. Olha aí, queimou todo o garfo – disse o pai pegando bruscamente o talher que estava na tigela com os bifes – Por isso nada dura nessa casa, mesmo! É um desleixo...
A mãe soltou um profundo aaaaah como quem confessa uma culpa e sofre com ela. Mas o pai não estava satisfeito:
- Só tem um pra pagar as contas nessa casa. O mínimo que se espera é cuidado com o que a gente compra com o suor do rosto. Parece surda! A gente fala, fala, fala e nada. Eu falo com uma porta, é? Você não tem jeito mesmo. Um caso perdido – encerrou o monólogo enchendo a boca de comida. Mas a mãe agora estava ofendida. Não precisava tanto, né? Fechou o rosto e foi sentando.
- Pois é, pai. Sua mulher é cheia de defeitos, mesmo. Perfeito, aqui, só você.
Enquanto mastigava com os olhos fixos na panela do feijão ele pensava: “pronto. Fiz besteira de novo. Olha lá, ficou chateada e agora é uma semana de aiaiai e não-me-toques. Que droga. Eu tinha decidido só dar essas broncas quando a gente tivesse sozinho, e maneirando. Que saco. Fiz de novo. Bom, paciência. Ninguém é perfeito”.
O celular tocou. Com a rapidez de um relâmpago a filha atendeu com seu alô mais agudo. Seguiram-se sete minutos e meio de comentários sardônicos sobre colegas do colégio e risadinhas enquanto os demais ocupantes da mesa trocavam olhares de desconforto. Menos a mãe, que estava ofendida e só sinalizava com olhares para a própria filha, que fazia que não via porque a conversa estava quente.
- Êita, que linguão, hein? Tá escorrendo o veneno – disse o filho quando ela desligou.
- Não enche. Vocês não vão acreditar – disse em tom de quem vai anunciar a coisa mais importante do universo, os olhos faiscando: parece que o Plínio ficou com a Roberta no sábado! Todo mundo tá abismado, porque ela tinha jurado amor eterno pro Heitor. Dizem até que ela fez uma tatuagem com as iniciais dele. Lógico que a mãe dela não sabe, se não morria. Já teve um treco quando a Letícia apareceu com o piercing. Mas o Plínio fica com fama de galinha também, porque na sexta tinha ficado com a Márcia, aquela que tá com aquele cabelo meio raspado hor-rí-vel – mas homem tudo bem, né, faz parte...
- Filha, eu já te falei que você vai ter problemas demais com essa mania de fofoca. Que coisa, parece que vive pra isso!
- Ai, mãe, que saco!
Muito contrariada, a filha volta ao seu prato e pensa: “qual o problema? Faz parte da minha personalidade, pombas, deixa eu. Deus sabe o quanto eu já tentei parar de fofocar, mas ninguém é perfeito”.
O jantar transcorreu em silêncio. O filho praticamente engolia a comida. Quando terminou o bife, que já era o maior de todos, esticou o garfo rapidinho e espetou o último que havia sobrado na travessa. O pai deu aquela olhada mas não disse nada.
O filho continuou comendo dando de ombros e dizendo de si pra si: “Normal. Tô em fase de crescimento. Só falta virem pra cima de mim com esse papo de obesidade e tralálá. Pô, fiquei aqui o maior tempo na minha, o bife ali olhando pra mim, eu tentando nem olhar, ele olhando pra mim, meu, assim não há santo que agüente. Ninguém é perfeito, pô”.
A menina continuou comendo de olho no celular, que acariciava de quando em quando. A mãe continuou remoendo sua indignação mas esqueceu a panela do feijão sobre a toalha da mesa ao invés de devolvê-la sobre o descanso. O pai viu, grunhiu e bufou e o garoto levantou a cabeça do seu bife para perguntar:
- Tem sobremesa?
* * * *
“O Senhor me... enviou para ... proclamar a libertação aos cativos” (Lucas 4:18).
Posted by marcol at 2:07 PM | Comments (1)
novembro 14, 2006
Ultimatum
(lido pela Maria Bethania no show)
ULTIMATUM
"Fora tu,
reles
esnobe
plebeu
E tu, imperialista das sucatas
Charlatão da sinceridade
E tu, qualquer outro
Ultimatum a todos eles
E a todos que sejam como eles
Todos
Monte de tijolos com pretensões a casa
Inútil luxo, megalomania triunfante
E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral
Que nem te queria descobrir
Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular
Que confundis tudo
Vós, anarquistas deveras sinceros
Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhador
Para quererem deixar de trabalhar
Sim, todos vós que representais o mundo
Homens altos
Passai por baixo do meu desprezo
Passai aristocratas de tanga de ouro
Frouxos
Passai radicais do pouco
Quem acredita neles?
Mandem isso tudo para casa
Descascar batatas simbólicas
Fechem-me tudo isso a chave
E deitem a chave fora
Sufoco de ter só isso a minha volta
Deixem-me respirar
Abram todas as janelas
Abram mais as janelas
Do que todas as janelas que há no mundo
Nenhuma idéia grande
Nenhuma corrente política
Que soe a uma idéia grão
E tu, Brasil...
O mundo quer a inteligência nova
O mundo tem sede de que se crie
Porque aí está o apodrecer da vida
Quando muito é estrume para o futuro
O que aí está não pode durar
Porque não é nada
Eu da raça dos navegadores
Afirmo que não pode durar
Eu da raça dos descobridores
Desprezo o que seja menos
Que descobrir um mundo novo
Proclamo isso bem alto
Braços erguidos
Fitando o Atlântico
E saudando abstractamente o infinito."
Alvaro de Campos, em, pasmem, 1917
Posted by marcol at 1:11 PM | Comments (2)
novembro 13, 2006
Applause now
Se me perguntassem até o domingo de manhã quem é a melhor artista do Brasil, mais completa e que preza mais pela excelência do que faz, eu acho que responderia que é a Maria Bethania.
Mas hoje eu responderia com total certeza.
Ontem fui ver o show que ela apresentou em três curtos e rasteiros dias aqui em São Paulo. É um banho pra alma, você sai boquiaberto. Primeiro porque ela canta muito. Você pode até não gostar do timbre de contralto dela, mas se tem um mínimo de noção e já a viu ao vivo vai concordar que ela é rainha e soberana absoluta da platéia com suas variações dinâmicas de intensidade, seu fraseado que sempre enfatiza a melodia, sua dicção perfeita (dá até pra entender as palavras inteiras que canta naquelas músicas de macumba) e sua interpretação rasgada, derramada, entregue. Dá a impressão de que ao fim do show ela sai de maca e tomando soro, de tanto que vive o que canta.
Segundo, porque ela é definitivamente quem melhor escolhe repertório neste país. Ela acha cada pérola enterrada, impressionante.
Terceiro, porque os arranjos de suas músicas são coisa de gênio. Aí se vê mais uma vez seu extremo bom gosto. A banda do show é enxuta, tem um teclado, uma bateria (com o excelente Carlos Bala), um percussionista, dois violões, um baixo e um cello. Inútil dizer que são todos grandes instrumentistas, mas o ponto é que com o pouco se faz muito. Dão leveza quando se quer leveza, ruído quando ruído, ápice quando precisa de ápice. Os arranjos estão sempre a serviço da comunicação do sentimento e da mensagem da canção.
Quarto porque eu nunca vi um cenário tão bonito. É uma gigantesca foto de um céu com nuvens e as variações de luz dão ao céu um ar soturno ou de manhã luzidia ou de por-do-sol. Pela frente delas, tiras de vual te supreendem voejando quando a canção fala de vento. E ainda pequenas lâmpadas vermelhas fazem desenhos por entre as nuvens.
Quinto, porque Bethânia continua com sua prática de recitar pequenos excertos de poesia entre algumas canções e aí mais uma vez se vê sua inteligência e extremo bom gosto. São versos soltos ou estrofes inteiras de textos escolhidos após garimpo intenso.
Sexto porque não tem telão transmitindo o show, assim a gente só vê a cantora de longe. Hum, acho que nisso fui meio cruel.
Faltaram apenas músicas mais conhecidas. Ela cantou exclusivamente coisas dos dois CDs que está lançando, assim a gente sente falta de cantar um pouco com ela. No mais, ela se esmera para que você seja colocado em estado de graça tão alto que o faça durar muito tempo.
Posted by marcol at 9:38 AM | Comments (3)
novembro 10, 2006
Toda caricatura é um exagero. Nessa condição, isto aqui é ótimo! Especialmente se você está acompanhando o projeto de lei assinado pelo Senador Eduardo Azeredo, que pretende moralizar a internet acabando com os crimes que por ela se cometem. O preço disso é uma tal de liberdade, bah, quem é que liga pra isso??
Sorte que a sociedade acordou em tempo, gritou, os gritos ecoaram no senado e o PL foi retirado de pauta. Ufa.
* * * *
Saudações tricolores a todos. Paramos de só cercar a taça e botamos logo o dedinho nela. Nham nham.
Posted by marcol at 4:36 PM | Comments (5)
novembro 8, 2006
Enviagem
Destino da semana: Teresina-PI.
* * * *
Caminhei por entre as prateleiras de revistas da livraria Laselva no aeroporto de Cumbica, antevendo uma longa viagem. Longas viagens exigem um tipo muito peculiar de literatura. Primeiro, precisa ser leve. Literalmente falando. Porque na hora que anunciam o embarque, eu tenho que carregar o que estiver lendo na mão - abrir a pasta e guardar o trem para depois tirar de novo quando estiver acomodando a bagagem de mão, enfim, não dá. Precisa ser fácil, fluída, do tipo que entretém e informa.
Revistas semanais são o mais indicado. Aí eu vi as capas de todas elas estampando o rosto feliz e contente do senhor presidente. O estômago embrulhou na hora.
Dei então com uma revista enorme, capa de fundo verde com uma gravura do Che vestindo uma camiseta com a cara do Bart Simpson. Hum, interessante. O nome? Piauí. Talvez sugestionado pelo meu atual destino, acabei comprando o número 2 dessa novíssima revista da Abril.
Eu tinha também a impressão de Operação P-2, literatura policial com a grife da fantástica e profícua companheira verbeat Olivia Maia, o que me tomou metade da viagem de divertidíssima leitura. Mas a outra metade (a volta), não foi suficiente para ler toda Piauí, de tão grande que é. O que li, contudo, foi de apaixonar. É um troço alternativo, com ilustrações excelentes, que tratam de pessoas não exatamente sob os holofotes, com muito estilo e verve. Por exemplo, tem uma matéria assinada por Antonio Prata (filho do Mario Prata) descrevendo suas anotações de uma viagem pela Rodovia Presidente Dutra. É genial, o elan de escritor parece ser genético, no caso. Outra coisa bacana: eles pedem para um tipo comum escrever um diário de um mês. Nesse número a tarefa foi dada para um residente de medicina do Rio.
Piauí parece ter nascido para resolver meu problema de tedius viajandis.
* * * * *
Teresina é assim um lugar verde e quente. Parece Cuiabá só que mais bonita. É a única capital do norte/nordeste que não fica no litoral, culpa da colonização de baixo pra cima, via sertão. Hã, eu disse que lá é quente? Errei. É MUITO quente! Cruiz.
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Umas horinhas antes da audiência, vou dar uma volta pelos entornos do hotel. Tem um certo teatro piauiense bem ao lado. Entro. Duas tiazinhas que conversavam na recepção me olham com um leve ar de irritação. Parece que eu interrompi uma prosa boa. Disse bom dia, ninguém respondeu. Meio sem saber o que fazer, entrei na primeira sala à direita. Tinha um monte de fotos dum velhinho que nao fazia a menor idéia de quem é. Talvez um historiador local. Tinha uns livros velhos dentro dumas caixas com tampa de vidro. Super legal. Caí fora.
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No centro de artesanato tive mais sorte. Um monte de esculturas bacanas, algumas imponentes mesmo. Tirei uma foto com o celular abraçado a uma escultura de barro de um tiozinho de chapéu e mandei para a Tatiana. Isso tá virando mania. É um jeito de fazer ela viajar comigo.
Na saída, uma exposição de caricaturas absolutamente geniais de um certo Loredano. Santo Google me explica que se trata de Cássio Loredano. Seus caricaturizados são gente como Orson Welles, Oscar Wilde, Monteiro Lobato, Didi (o atacante da folha seca), Sartre, Mario Andrade, Fernando Pessoa e por aí afora.
* * * *
Na volta, a menina da TAM disse que eu ia ficar na saída de emergência no trecho Brasília-Congonhas. Acho que ela errou. Me botou uma fila antes da dita cuja e eu vim todo muito espremido demais por conta do mais metro e noventa que ostento. Pra ter uma idéia, minha Piauí não cabia no espaço entre minha barriga e o banco da frente, ela tinha que ficar meio dobrada. O mais enervante é que eu não pude sentar na primeira fila porque ela já estava ocupada. Dentre outras pessoas, descobri na hora, pelo deputado ACM neto, notabilizado pela sua estatura pouco privilegiada.
* * * * *
E na segunda à noite teve bolo para o Dudu. Completou 4 anos. Eu estava voando na hora e pensar nisso me dá nos nervos. Mas a Tatiana me mandou uma foto dele ao lado do bolo e eu passei boa parte do dia com ele, antecipando os beijos e abraços, o que serve como meio-consolo. Ele é uma criatura magnífica. Ele é a prova irrefutável que Deus me ama demais da conta, sei lá porque. Que o irmão dele que está a caminho seja da mesma estirpe, é o que oro sem parar.
Posted by marcol at 2:47 PM | Comments (4)
novembro 3, 2006
il cinema
Fazia décadas que não ia ver filmes na telona, mas só nesta semana tive ocasião de ver dois. Estava agora em Uberaba, sem necas pra fazer, dependendo de vôos muito espaçados para voltar a São Paulo e então tentei um filme. Estava passando Dália Negra. Achei que seria uma boa. Brian de Palma, Mdme. Johanson e roteiro baseado em história do mesmo de Los Angeles, Cidade Proibida.

Esperava ver um roteiro inteligente, surpreendente, uma direção segura e precisa e boas atuações, fatores que até desculpariam algum exagero na sordidez, como foi em Los Angeles... .
Decepção total. O filme é ruim de doer. Inverossímil, confuso, com atuações fracas demais (exceção à sempre boa Hilary Swank), tudo fazendo com que a tal sordidez pareça gratuita e forçada.
Mas ontem acabei meio sem querer indo ver Pequena Miss Sunshine com a patroa. São filmes diametralmente opostos. Um seria um policial noir enquanto o outro uma comédia alternativa. Mas não só por isso. O primeiro é ruim e o segundo é excelente, e aquela história de roteiro inteligente e boas atuações eu só achei mesmo em Miss Sunshine.

Greg Kinnear é um ator de primeiríssima grandeza e o resto do time não fica atrás. As situações do filme são extremamente engraçadas, o que é especialmente surpreendente se considerarmos que temos como personagens um palestrante de auto-ajuda obcecado com a visão norte-americana de vencedores X perdedores absolutamente perdedor, um gay suicida, um adolescente com voto de silêncio, um velho viciado em heroína, uma mãe que não conhece os filhos e uma menina gorducha com obsessão por concursos de miss. Personagens de um drama deprê embalado a canções dos Smiths, não é? Pois não, uma comédia engraçadíssima.Trata-se de um road movie cheio de surpresas, sem soluções fáceis, sem lições de moral e, sobretudo, muito endorfinante.
Posted by marcol at 11:14 AM | Comments (3)