setembro 15, 2006
É pra acabar... (Bagagem, última parte)
3.
Alice também fazia sua mala e sentia nesse ato um inescapável deja vu, porque sempre que se preparava para viajar tinha ímpetos de tascar na bagagem todas as roupas que poderiam ser de luto. Como fizera um ano e meio atrás.
Um ano e meio antes foi a primeira vez que Alice visitara sua cidade natal em quatro anos. Tanto trabalho. Não tivera férias todo aquele tempo. Agora tirava, mas para enterrar seu pai. Desde então Alice ouvia uma gravação na cabeça, uma frase que não lhe dava descanso, e era seu pai na última vez em que falaram pelo telefone:
- Filha, eu queria passar uns dias contigo na praia e te ouvir tocar violão. Quanto tempo faz que...
A voz dele morrera num murmúrio meio rouco e ela prometeu que no próximo feriado faria tudo para dar um pulo lá, como havia prometido milhares de outras vezes antes.
“O que eu queria...” ela ouvia agora ainda, enquanto acomodava suas coisas na mala. “Quanto tempo faz...” E ela visualizou aquele feriado, no qual prometera ir vê-lo: trabalho na quinta, na sexta, no sábado e um domingo inteiro de pijamas, dormindo ou vendo TV e comendo comida congelada. Pensando bem, tinha sido igualzinho todos os outros feriados dos últimos quatro anos, com minúsculas variantes: uma festa aqui, uma balada ali, um cineminha, mas tudo isso eram acessórios, os protagonistas de seu tempo eram mesmo o trabalho e a tentativa desesperada de recuperar-se dele, dormindo o mais que pudesse.
Alice fazia sua mala, ouvia na cabeça a voz do pai, aquele timbre esforçado para esconder alguma melancolia, revia o emprego do seu tempo, pegava automática e inconscientemente muitas peças de roupa pretas e, como sempre acontecia, passava a imaginar o pai sentado perto do telefone e esperando que ele tocasse, como a mãe lhe descrevera depois, imaginar o pai andando pela casa, passando na frente do seu quarto, o pai dizendo para a mãe que não estava lá com muita vontade de ir para a casa na praia, o pai, o pai, seus recados na secretária eletrônica e ela longe, sempre longe, sempre noutra esfera, noutras coisas, e Alice acabava chorando todas as vezes e se apressando para não perder o vôo e colocando coisas demais, precisando de outra mala para levar suas muitas, muitas roupas pretas.
4.
Na fila do check-in, Alice, Geraldo e Laura, separados apenas por suas muitas malas, olham angustiados para seus relógios e para o painel com as informações dos vôos domésticos. A fila está enorme e parece não andar.
De repente, como que a torturá-los, um som absolutamente improvável, ofensivo, uma verdadeira afronta. Era um assobio. Ao mesmo tempo os três viram-se na direção de tamanho disparate e dão com um rapaz entrando sem sombra de pressa em um espaço completamente despovoado, com uma das mãos no bolso da calça e a outra segurando descuidadamente o documento. Ele passa e é prontamente atendido, recebe um sorriso e seu ticket de embarque. Sempre sem pressa, sai em direção à sala de embarque e sobre sua cabeça, a indicar o espaço que ele utilizou, podia-se ler em grandes letras: sem bagagem.
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Cansei do calor que faz em São Paulo, por isso fui ontem pra Cuiabá. Achei uma cidade meio sem personalidade, sem direção nem cara muito definida. Acho que a temperatura não permite. Pelo menos tem manga a rodo. Mas não é época de manga. Bom, pelo menos, com aquele calorzão todo não deu vontade de andar na rua e descansei bastante no hotel. Mas o hotel era ruim. Pelo menos tinha TV a cabo. Mas eu assisti a Tom Raider na esperança de não ser o lixo completo - e era, claro. Ok, esse negócio de Poliana e always look on the bright side of the life não tá funcionando. Tá. Chega.
Posted by marcol at setembro 15, 2006 1:08 PM
Comments
Rapaz... achei o texto ao qual a menina se referiu. :)
Ele tem até um bom número de composições com projeção...
[]´s
Posted by: Baiano at setembro 18, 2006 3:22 PM
Foi meu professor, inclusive. Você achou que ele fosse português?
[]´s
Posted by: Baiano at setembro 18, 2006 3:06 PM
Prezado amigo
Vasculhando a net em busca de uma letra de música para um trabalho, encontrei um antigo post seu, onde cita uma música de um cd Maria Bethânia, composta por Jorge Portugal. Não sei se já pesquisou sobre o assunto, mas Jorge é um professor, compositor e poeta dos mais respeitados de SALVADOR, na Bahia. De português não tem nada...rsrs. Não sei a idade dele, mas é novo ainda, deve ter uns 45 a 50 anos, e apresenta um programa para vestibulandos de sucesso aqui, e suas parcerias com Mendes são sempre felizes. Espero ter contribuído...
Um abraço!
Posted by: Patricia at setembro 17, 2006 4:27 PM
O nome é Tomb Raider. E, sim, é péssimo.
A bagagem de Alice me pareceu a mais pesada. Não que comparar seja o caso, claro...
Esta, a forma que a gente se constrói, só pode ser entendida - passar é difícil -, como você registrou, até.
Muito bom.
[]´s
Posted by: Baiano at setembro 15, 2006 4:57 PM