setembro 11, 2006
Bagagem
O pessoal deste aprazível, delicioso lugar aqui me encomendou um conto sobre culpa, mágoa e tristeza. O resultado deverei ler lá no próximo sábado, estão todos convidados. Mas vocë, leitor portador do cartão fidelidade É por aqui que vai pra lá?, pode ler em primeira mão.
Por ser grandinho, posto em quatro partes:
1.
Foi mais ou menos enquanto dobrava as blusas de lã que às lágrimas abundantes de Laura somou-se uma certa irritação. É que notou que estava fazendo sua mala seguindo o roteiro exato que havia aprendido de Cássio: primeiro as calças, dispostas de forma esticada, para fecharem-se como um pacote sobre os outros itens do vestuário que seriam colocados por cima delas. Por isso mesmo seu nervosismo, sua revolta e a certeza de estar agindo certo só aumentaram quando o vulto titubeante dele recortou-se contra a moldura da porta aberta. Rapidamente ela começou a inverter a ordem dos fatores para que ele não tivesse aquele gostinho de vitória relativa: pelo menos o que aprendeu comigo ela vai levar...
- Laura, acho isso tudo muito precipitado, a gente precisa conversar... – ele disse após um longo e profundo suspiro.
- Precipitado, Cássio? Que idéia idiota! Olha a passagem aqui, está comprada há um mês. Ou você acha que alguém um dia despiroca, faz a mala e pega um avião pra casa da mãe sem mais nem mais?
- Mas Lau, você não pode jogar oito anos de casamento pela janela desse jeito, você me deve, na pior das hipóteses, uma explicação...
- Cássio, eu não agüento mais, essa é a explicação. Simples, pronto. Eu não tô satisfeita.
- Tá, ok, mas pelo amor de Deus, eu preciso saber o que é que você não agüenta mais! Eu não consigo conceber uma coisa assim tão grave que eu não possa mudar...
- Não é uma coisa, são várias, várias, Cássio.
- Dá um exemplo.
- Ai, sei lá. Eu nunca engoli você ter me esquecido no salão...
- Mas isso faz mais de um ano!
- Nunca engoli, Cássio, nunca! E você sempre esquece de comprar o que eu te peço, não lembra duma data importante...
- Lau, eu esqueci o aniversário do casamento só uma vez...
- Duas, Cássio. Duas!
- Tá, mas...
- Não dá, Cássio. Nessas coisinhas é que a gente vê o que é importante pra pessoa. Tá na cara que eu não sou importante nesse seu mundinho fechado. Se eu não sou importante pra que se enganar? Hein? Besteira. O que tem valor pra você é claro: sua mãe, os chopes sagrados com os caras da escola e o que acontece naquele maldito escritório. Deus é testemunha que eu tentei. Dei milhões de indiretas, você com esse ar de sonso sempre fez que não viu. E se não viu, azar. Isso não me satisfaz, cansei de dar murro em ponta de faca, de nadar contra essa correnteza. Você devia saber que tem coisas que não têm perdão.
Cássio hesitou quanto a o que falar. Ficou ali, de boca aberta, encostado ao batente, as mãos nos bolsos, com ar desesperado. De fato, a entonação daquela última frase dela parecia não admitir apartes, tinha ares de ponto final.
Cabeça baixa, os cabelos sobre a face, ela dobrava as roupas com fúria, tirava as coisas do toucador e jogava sem método na mala já cheia, limpando os olhos de quando em quando com o punho.
Mesmo sem olhar, sentiu que ele chorava em silêncio e sua náusea só fez aumentar, porque sabia que Cássio nunca chorava. Azar. Que chorasse. Devia ter feito isso antes.
- Droga, vou precisar da outra mala – resmungou enquanto tentava fechar o enorme volume que precisaria carregar.
Posted by marcol at setembro 11, 2006 6:27 PM
Comments
E,vem cá... o cartão de fidelidade dá direito a algum sorteio de brindes, também?
(À espera das outras partes...)
[]´s
Posted by: Baiano at setembro 13, 2006 12:03 PM
Anda. Bota logo a outra parte. Novela passa todos os dias, menos aos domingos. Hoje é terça.
Posted by: Ana. at setembro 12, 2006 5:57 PM