setembro 13, 2006
Bagagem - continuêichan
2.
Em outro canto da cidade Geraldo também fazia sua mala. Mas ali reinava um silêncio sepulcral. As cortinas baixadas reforçavam o lúgubre da situação, que ele, absorto na escolha dos itens que deveria colocar na bagagem, não notava. Tudo parecia ter o mesmo tom – um tom de confinamento, de isolamento, de lusco-fusco. Será que havia sido sempre assim?
Pegou nas mãos um álbum de fotografias que não folheava havia muito tempo. Foi virando as páginas sem saber muito porque, pouco atinando na atmosfera captada naqueles instantâneos. De repente deu com uma foto intrigante. Cismou ali, olhando para ela muito, muito tempo, ele nem saberia dizer quanto e muito menos porque. O quê naquela foto lhe parecia desconhecido? O quê exatamente lhe inoculava esse senso recém inaugurado de estranhamento?
Mostrava quatro rapazes de seus dezesseis anos, se tanto. Três deles estavam abraçados, alguns mostravam o polegar para a lente, todos sorriam rasgadamente. Flávio, Edmilson e Sergio. Ele repetiu os nomes, para ver se decifrava assim o enigma da foto. Mas o outro era ele e o que lhe intrigava era exatamente isto: ele. Porque embora soubesse que era ele, o rosto da foto lhe parecia apresentar um perfeito estranho. Sorriso. Era isso. Não, não só isso, mas aquele brilho no olho. Aquela coisa de saber que vai dar tudo certo. Isso, mais a capacidade de sorrir fácil fácil, era isso que tornava o Geraldo de dezesseis uma pessoa absolutamente diferente da do Geraldo de trinta e nove, como se pertencessem a essências diametralmente opostas.
Digamos assim que perceber que ele já havia perdido a capacidade de sonhar e de esperar coisas boas do futuro, e que havia também esquecido como é que se sorri, não ajudou muito no estado de espírito atual de Geraldo.
Passou rápido as folhas do álbum. Encontrou algumas de Priscila, mas não se demorou em nenhuma. Ou pelo menos tentou não se demorar em nenhuma. Aquela ali, dela segurando a Luiza ainda bebê bem pertinho do rosto, era inignorável. Lembrou daquele dia. Tinham ido levar Luiza para tomar um pouco de sol no parque Burle Marx. Tinham se divertido imaginando futuros possíveis para ela. Ele insistia que ela seria designer de móveis e dava como argumento o fato dela passar tanto tempo segurando na perna da mesa da sala e olhando em volta. Dizia que ela teria um excelente faro para homens e que ele jamais teria trabalhado com os namorados dela. Enquanto Luiza segurava seu dedo indicador e tentava levá-lo à boca, ele descrevia cada detalhe do casamento que ela um dia teria. Priscila ria gostoso e discordava de tudo. Ela seria médica, mais especificamente dermatologista. Ela exigiria dela noites inteiras de conversas sobre rapazes, porque viveria mil conflitos. Como acontecera com ela, Priscila, embora não tivesse uma mãe assim tão bacana com quem conversar. E não, o buquê dela seria redondo, de rosas vermelhas, pequeno, lindo e destacado contra um vestido de branco imaculado sobre sua pele morena. Geraldo lembrou daquele dia como se fora a véspera. Tentou imaginar o que estariam fazendo àquela hora.
Virou a página e deu com uma foto em que ele e Vitor posavam sorridentes na fachada da empresa que abriram juntos e que falira sete anos depois, acabando com uma amizade, as finanças dele e muitas outras coisas que aquele álbum de fotografias insistia em não permitir que ele simplesmente esquecesse. Como se alguém pudesse esquecer.
Fechou o álbum, olhou para a mala já cheia de coisas: troféus de futebol do ensino médio, cartas de amigos dos tempos em que se escrevia cartas, muitas roupas amarrotadas. E decidiu que, embora a princípio houvesse decidido que não levaria muita coisa para sua nova vida, levaria o álbum também. Mas, para isso e para o que mais decidisse levar, precisaria, seguramente, de uma outra mala.
Posted by marcol at setembro 13, 2006 4:52 PM
Comments
A foto eu achei no Yahoo!, a história era real, a menina ordinária, no sentido técnico da palavra.
E esse baianês é de novela da globo, "meu".
A gente não fala assim, não.
(E cadê o resto da história? Isso é propaganda enganosa! Para quem reclama tanto da justiça em função da liberdade de expressão, cê perdeu a razão dessa vez... hehehe)
[]´s
Posted by: Baiano at setembro 15, 2006 3:19 PM
Duas partes e duas histórias diferentes, embora os temas sejam iguais.
Não deixou de me atentar a idéia de que na terceira parte você vai mandar um terceiro divórcio, o que seria engraçado. Mas, se bem conheço, foi só para atiçar mais a curiosidade, e agora as histórias vão se conectar... :)
[]´s
Posted by: Baiano at setembro 14, 2006 12:28 PM
E a temática do duplo encontrado na foto, muitos anos depois, também me apraz muitíssimo!
A pergunta é: quantas malas ainda vamos precisar para levar tudo? (porque estou quase certa de que sempre, inevitavelmente, precisamos levar tudo.)
Saludos cronopianos!
Posted by: caos portátil at setembro 13, 2006 11:01 PM