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setembro 27, 2006
Uéu, andei desaparecido uns dias por razões da mais alta relevância. Na verdade o micro deu chabú, peguei um estepe, o link de donde postamos estava no favoritos do outro e foi necessário encontrar o sempre alerta Milton Ribeiro no MSN para redescobrir o caminho das pedras. Agora tudo isso é passado/ela está aqui do meu lado/ nosso lar é um ninho de amor/comprei os móveis, fiz questão de qualidade/preços baixos e facilidade/o segredo vou contar:/é na casa de móveis brasil, tá?
* * * * * *
Falando em Milton Ribeiro, eis que terminei a leitura do intrigante O Louco do Cati, obra ímpar de Dyonelio Machado (ou seria Dionelyo??). É um livro diferente, com uma fluidez estranha, um roteiro meio incomum e inovações de linguagem que admiram ter sido escrito em 1942. O protagonista é louco mesmo. Parece que foge de lembranças tenebrosas de um passado talvez distante, quando a bala comia solta no interior do Rio Grande do Sul. Cati era o lugar para levavam os simpatizantes da revolta separatista espelhada na recentemente reexibida Casa das Sete Mulheres, da Globo. Mas o livro quase não toca nisso. Ele descreve a estranha viagem que o tal louco faz saindo de Porto Alegre, indo de caminhão até o litoral, depois pegando outro caminhão até não lembro onde, dali saindo preso até Florianópolis, depois de navio até o Rio, e aí sendo solto e voltando pelo interior do sul do país.
O louco vai sendo conduzido, levado por outras pessoas com uma passividade curiosa. O autor emprega símbolos quase escondidos no estilo meio oral de escrita, como se alguém estivesse contando a história e recheando as reticências com gestos e expressões faciais. Tais símbolos envolvem referências a animais em pessoas, como o próprio louco, que vivia farejando o ar. No final, uma cena um tanto obscura o leva a encontrar-se com um lobisomem.
O Louco acaba parando, sem querer, adivinhem onde. Nas ruínas do Cati. O Cati de onde passou o tempo todo fugindo.
Dionelyo é autor de uma obra prima chamada Os Ratos, que infelizmente pouca gente conhece. Foi escrito em 1935, ano em que ganhou o prêmio Jabuti, empatado com Música ao Longe, de Erico Verissimo. Aliás, é muuuuuuuuuito melhor que o livro do Verissimo. No resto de sua vida o autor, que era psiquiatra, foi pouco ou nada compreendido em obras como esta que acabei de ler e que felizmente ganhou uma nova edição recentemente pela editora Planeta. Uma pena. Realmente uma pena.
Posted by marcol at 1:54 PM | Comments (0)
setembro 19, 2006
Tortura amável
Juntei-me ontem a minha esposa (grávida), minha sogra (quase idosa, vai), meu sogro (além da idade, é deficiente físico, já que por causa do atropelamento narrado aqui em novembro passado ainda precisa de cadeira de rodas para andar) e meu filho (uma criança de 3 anos), numa loja gigantesca com materias de construção, utilidades domésticas e afins. Não vou dizer o nome aqui, nem entregar que é uma rede francesa, que seu símbolo é um triângulo verde e que seu nome é composto, as iniciais são L e M e o primeiro rima com herói e o segundo rima com marfim. Chegamos às 18h00.
Meu sogro queria comprar uns produtos de construção e lá fomos nós. Depois de andar a loja inteira, o que levou cerca de uma hora, descobrimos que haviam dado uma orientação errada: tínhamos que ter feito um cartãozinho sei lá pra que em cada departamento porque passamos, e não apenas copiar os códigos dos produtos num papel.
Fomos obrigados a refazer todo o trajeto. Mas tudo bem. Aí eles erraram o pedido e ficaram consultando o terminal do sistema uma eternidade e aí erraram de novo, e eu levei meu filho pro carro, voltei, levei de volta, deixei na sala com brinquedos para crianças até ela fechar, aí fiquei brincando de Batman com ele pelos corredores, aí experimentamos as cadeiras de jardim - porque estávamos exaustos, aí deu um problema com a financeira deles, aí ficaram sem comunicação e então deu certo. Mas faltava uma penca de produtos que deveriam estar no pedido e que não podiam ser incluídos, porque a essas alturas a loja já estava fechada havia eras e os empregados dos respectivos departamentos já tinham picado a mula.
Saímos às 23h00, cinco horas depois de chegarmos, portanto, com nervos em frangalhos, cansados e pensando em como apresentar a esses tipos um tal de Código de Defesa do Consumidor.
Mas uma coisa precisa ser dita: eles sempre sorriram muito e foram muito afáveis. Pra que ser eficiente quando se pode só ser simpático?
Posted by marcol at 11:36 AM | Comments (5)
setembro 15, 2006
É pra acabar... (Bagagem, última parte)
3.
Alice também fazia sua mala e sentia nesse ato um inescapável deja vu, porque sempre que se preparava para viajar tinha ímpetos de tascar na bagagem todas as roupas que poderiam ser de luto. Como fizera um ano e meio atrás.
Um ano e meio antes foi a primeira vez que Alice visitara sua cidade natal em quatro anos. Tanto trabalho. Não tivera férias todo aquele tempo. Agora tirava, mas para enterrar seu pai. Desde então Alice ouvia uma gravação na cabeça, uma frase que não lhe dava descanso, e era seu pai na última vez em que falaram pelo telefone:
- Filha, eu queria passar uns dias contigo na praia e te ouvir tocar violão. Quanto tempo faz que...
A voz dele morrera num murmúrio meio rouco e ela prometeu que no próximo feriado faria tudo para dar um pulo lá, como havia prometido milhares de outras vezes antes.
“O que eu queria...” ela ouvia agora ainda, enquanto acomodava suas coisas na mala. “Quanto tempo faz...” E ela visualizou aquele feriado, no qual prometera ir vê-lo: trabalho na quinta, na sexta, no sábado e um domingo inteiro de pijamas, dormindo ou vendo TV e comendo comida congelada. Pensando bem, tinha sido igualzinho todos os outros feriados dos últimos quatro anos, com minúsculas variantes: uma festa aqui, uma balada ali, um cineminha, mas tudo isso eram acessórios, os protagonistas de seu tempo eram mesmo o trabalho e a tentativa desesperada de recuperar-se dele, dormindo o mais que pudesse.
Alice fazia sua mala, ouvia na cabeça a voz do pai, aquele timbre esforçado para esconder alguma melancolia, revia o emprego do seu tempo, pegava automática e inconscientemente muitas peças de roupa pretas e, como sempre acontecia, passava a imaginar o pai sentado perto do telefone e esperando que ele tocasse, como a mãe lhe descrevera depois, imaginar o pai andando pela casa, passando na frente do seu quarto, o pai dizendo para a mãe que não estava lá com muita vontade de ir para a casa na praia, o pai, o pai, seus recados na secretária eletrônica e ela longe, sempre longe, sempre noutra esfera, noutras coisas, e Alice acabava chorando todas as vezes e se apressando para não perder o vôo e colocando coisas demais, precisando de outra mala para levar suas muitas, muitas roupas pretas.
4.
Na fila do check-in, Alice, Geraldo e Laura, separados apenas por suas muitas malas, olham angustiados para seus relógios e para o painel com as informações dos vôos domésticos. A fila está enorme e parece não andar.
De repente, como que a torturá-los, um som absolutamente improvável, ofensivo, uma verdadeira afronta. Era um assobio. Ao mesmo tempo os três viram-se na direção de tamanho disparate e dão com um rapaz entrando sem sombra de pressa em um espaço completamente despovoado, com uma das mãos no bolso da calça e a outra segurando descuidadamente o documento. Ele passa e é prontamente atendido, recebe um sorriso e seu ticket de embarque. Sempre sem pressa, sai em direção à sala de embarque e sobre sua cabeça, a indicar o espaço que ele utilizou, podia-se ler em grandes letras: sem bagagem.
*************
Cansei do calor que faz em São Paulo, por isso fui ontem pra Cuiabá. Achei uma cidade meio sem personalidade, sem direção nem cara muito definida. Acho que a temperatura não permite. Pelo menos tem manga a rodo. Mas não é época de manga. Bom, pelo menos, com aquele calorzão todo não deu vontade de andar na rua e descansei bastante no hotel. Mas o hotel era ruim. Pelo menos tinha TV a cabo. Mas eu assisti a Tom Raider na esperança de não ser o lixo completo - e era, claro. Ok, esse negócio de Poliana e always look on the bright side of the life não tá funcionando. Tá. Chega.
Posted by marcol at 1:08 PM | Comments (4)
setembro 13, 2006
Bagagem - continuêichan
2.
Em outro canto da cidade Geraldo também fazia sua mala. Mas ali reinava um silêncio sepulcral. As cortinas baixadas reforçavam o lúgubre da situação, que ele, absorto na escolha dos itens que deveria colocar na bagagem, não notava. Tudo parecia ter o mesmo tom – um tom de confinamento, de isolamento, de lusco-fusco. Será que havia sido sempre assim?
Pegou nas mãos um álbum de fotografias que não folheava havia muito tempo. Foi virando as páginas sem saber muito porque, pouco atinando na atmosfera captada naqueles instantâneos. De repente deu com uma foto intrigante. Cismou ali, olhando para ela muito, muito tempo, ele nem saberia dizer quanto e muito menos porque. O quê naquela foto lhe parecia desconhecido? O quê exatamente lhe inoculava esse senso recém inaugurado de estranhamento?
Mostrava quatro rapazes de seus dezesseis anos, se tanto. Três deles estavam abraçados, alguns mostravam o polegar para a lente, todos sorriam rasgadamente. Flávio, Edmilson e Sergio. Ele repetiu os nomes, para ver se decifrava assim o enigma da foto. Mas o outro era ele e o que lhe intrigava era exatamente isto: ele. Porque embora soubesse que era ele, o rosto da foto lhe parecia apresentar um perfeito estranho. Sorriso. Era isso. Não, não só isso, mas aquele brilho no olho. Aquela coisa de saber que vai dar tudo certo. Isso, mais a capacidade de sorrir fácil fácil, era isso que tornava o Geraldo de dezesseis uma pessoa absolutamente diferente da do Geraldo de trinta e nove, como se pertencessem a essências diametralmente opostas.
Digamos assim que perceber que ele já havia perdido a capacidade de sonhar e de esperar coisas boas do futuro, e que havia também esquecido como é que se sorri, não ajudou muito no estado de espírito atual de Geraldo.
Passou rápido as folhas do álbum. Encontrou algumas de Priscila, mas não se demorou em nenhuma. Ou pelo menos tentou não se demorar em nenhuma. Aquela ali, dela segurando a Luiza ainda bebê bem pertinho do rosto, era inignorável. Lembrou daquele dia. Tinham ido levar Luiza para tomar um pouco de sol no parque Burle Marx. Tinham se divertido imaginando futuros possíveis para ela. Ele insistia que ela seria designer de móveis e dava como argumento o fato dela passar tanto tempo segurando na perna da mesa da sala e olhando em volta. Dizia que ela teria um excelente faro para homens e que ele jamais teria trabalhado com os namorados dela. Enquanto Luiza segurava seu dedo indicador e tentava levá-lo à boca, ele descrevia cada detalhe do casamento que ela um dia teria. Priscila ria gostoso e discordava de tudo. Ela seria médica, mais especificamente dermatologista. Ela exigiria dela noites inteiras de conversas sobre rapazes, porque viveria mil conflitos. Como acontecera com ela, Priscila, embora não tivesse uma mãe assim tão bacana com quem conversar. E não, o buquê dela seria redondo, de rosas vermelhas, pequeno, lindo e destacado contra um vestido de branco imaculado sobre sua pele morena. Geraldo lembrou daquele dia como se fora a véspera. Tentou imaginar o que estariam fazendo àquela hora.
Virou a página e deu com uma foto em que ele e Vitor posavam sorridentes na fachada da empresa que abriram juntos e que falira sete anos depois, acabando com uma amizade, as finanças dele e muitas outras coisas que aquele álbum de fotografias insistia em não permitir que ele simplesmente esquecesse. Como se alguém pudesse esquecer.
Fechou o álbum, olhou para a mala já cheia de coisas: troféus de futebol do ensino médio, cartas de amigos dos tempos em que se escrevia cartas, muitas roupas amarrotadas. E decidiu que, embora a princípio houvesse decidido que não levaria muita coisa para sua nova vida, levaria o álbum também. Mas, para isso e para o que mais decidisse levar, precisaria, seguramente, de uma outra mala.
Posted by marcol at 4:52 PM | Comments (3)
setembro 11, 2006
Bagagem
O pessoal deste aprazível, delicioso lugar aqui me encomendou um conto sobre culpa, mágoa e tristeza. O resultado deverei ler lá no próximo sábado, estão todos convidados. Mas vocë, leitor portador do cartão fidelidade É por aqui que vai pra lá?, pode ler em primeira mão.
Por ser grandinho, posto em quatro partes:
1.
Foi mais ou menos enquanto dobrava as blusas de lã que às lágrimas abundantes de Laura somou-se uma certa irritação. É que notou que estava fazendo sua mala seguindo o roteiro exato que havia aprendido de Cássio: primeiro as calças, dispostas de forma esticada, para fecharem-se como um pacote sobre os outros itens do vestuário que seriam colocados por cima delas. Por isso mesmo seu nervosismo, sua revolta e a certeza de estar agindo certo só aumentaram quando o vulto titubeante dele recortou-se contra a moldura da porta aberta. Rapidamente ela começou a inverter a ordem dos fatores para que ele não tivesse aquele gostinho de vitória relativa: pelo menos o que aprendeu comigo ela vai levar...
- Laura, acho isso tudo muito precipitado, a gente precisa conversar... – ele disse após um longo e profundo suspiro.
- Precipitado, Cássio? Que idéia idiota! Olha a passagem aqui, está comprada há um mês. Ou você acha que alguém um dia despiroca, faz a mala e pega um avião pra casa da mãe sem mais nem mais?
- Mas Lau, você não pode jogar oito anos de casamento pela janela desse jeito, você me deve, na pior das hipóteses, uma explicação...
- Cássio, eu não agüento mais, essa é a explicação. Simples, pronto. Eu não tô satisfeita.
- Tá, ok, mas pelo amor de Deus, eu preciso saber o que é que você não agüenta mais! Eu não consigo conceber uma coisa assim tão grave que eu não possa mudar...
- Não é uma coisa, são várias, várias, Cássio.
- Dá um exemplo.
- Ai, sei lá. Eu nunca engoli você ter me esquecido no salão...
- Mas isso faz mais de um ano!
- Nunca engoli, Cássio, nunca! E você sempre esquece de comprar o que eu te peço, não lembra duma data importante...
- Lau, eu esqueci o aniversário do casamento só uma vez...
- Duas, Cássio. Duas!
- Tá, mas...
- Não dá, Cássio. Nessas coisinhas é que a gente vê o que é importante pra pessoa. Tá na cara que eu não sou importante nesse seu mundinho fechado. Se eu não sou importante pra que se enganar? Hein? Besteira. O que tem valor pra você é claro: sua mãe, os chopes sagrados com os caras da escola e o que acontece naquele maldito escritório. Deus é testemunha que eu tentei. Dei milhões de indiretas, você com esse ar de sonso sempre fez que não viu. E se não viu, azar. Isso não me satisfaz, cansei de dar murro em ponta de faca, de nadar contra essa correnteza. Você devia saber que tem coisas que não têm perdão.
Cássio hesitou quanto a o que falar. Ficou ali, de boca aberta, encostado ao batente, as mãos nos bolsos, com ar desesperado. De fato, a entonação daquela última frase dela parecia não admitir apartes, tinha ares de ponto final.
Cabeça baixa, os cabelos sobre a face, ela dobrava as roupas com fúria, tirava as coisas do toucador e jogava sem método na mala já cheia, limpando os olhos de quando em quando com o punho.
Mesmo sem olhar, sentiu que ele chorava em silêncio e sua náusea só fez aumentar, porque sabia que Cássio nunca chorava. Azar. Que chorasse. Devia ter feito isso antes.
- Droga, vou precisar da outra mala – resmungou enquanto tentava fechar o enorme volume que precisaria carregar.
Posted by marcol at 6:27 PM | Comments (2)
setembro 5, 2006
Loucura, loucura
Torno ao tema de três posts atrás: blogs e liberdade de expressão. Os autores do blog Imprensa Marrom foram condenados em primeiro grau de jurisdição a pagar R$ 3.500,00 como indenização por danos morais supostamente sofridos por um dos sócios de uma empresa de RH. É que postaram críticas aos métodos discutíveis de empresas como a dele. Ele foi citado no post? Não, foi citado num dos comentários (!!!)
A juíza de São José dos Campos-SP entendeu que os autores do blog deveriam ser responsabilizados e tascou a condenação.
Aqui o ponto deixa de ser liberdade de expressão - não sei em que termos estava o comentário malfadado - mas a sanha que tomou a Justiça Brasileira de ignorar por completo uma coisa chamada nexo de causalidade.
No Direito Clássico, para alguém ser obrigado a indenizar outrem era preciso demonstrar um dano, um ato ilícito da outra parte e o nexo de causalidade entre um e outro. Por exemplo: velhinha que recebe um vaso de plantas na cabeça precisa demonstrar o dano que sofreu e precisa demonstrar que o vaso foi atirado (de propósito ou por mancada) pelo morador do sétimo andar.
A lei do consumidor suprimiu o item "culpa". O consumidor lesado não precisa mais demonstrar que o fornecedor do produto ou serviço agiu com culpa ou dolo. Mas precisa ainda (pelo menos é o que a lei manda) provar o dano e o nexo de causalidade.
No caso do Imprensa Marrom, o agente que causou o suposto (e muito discutível dano) não foram os autores do blog, mas um visitante deste. Para a juíza isso não tem importância. Logo, se alguém pinta no muro da minha casa uma ofensa contra o prefeito, por exemplo, eu posso ser condenado por aquilo.
Não há de ser a primeira decisão que faz pouco da lei que deveria proteger.
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A despropósito, hoje é meu aniversário. O orkut não me permite esquecer. Nem meu filho, que fez questão de comemorar já ontem, no Burguer King. Claro. É o lugar ideal para vegetarianos como eu. Mas ele, que não é e não tem nada com isso, é quem manda. Pagou o lanche e o brinquedo que veio junto com muitos beijos e abraços e senti que estou devendo alguma coisa ainda.
Posted by marcol at 11:34 AM | Comments (11)
setembro 4, 2006

Eu já confessei aqui ser um grande fã de Jane Austen. Pois a admiração cresceu neste final de semana, quando, chegando meio desesperançado na locadora às nove da noite de sábado, crente de que só haveria lixo disponível, encontro Orgulho e Preconceito, de Joe Wright, com Keira Knightley, dando sopa. Filme pra ver com a esposa? Jane Austen de bobeira? Não pensei duas vezes.
Mas sempre fica aquele medo do filme não ser fiel ao livro, de ser uma adaptação chinfrim, sei lá. Nada, é um belo e muito bem feito filme, com boas atuações. Mas nada consegue rivalizar o brilho do próprio enredo, dos diálogos, dessa atmosfera estranha que é uma obra de Jane Austen. Estranha porque é tudo muito pueril, inocente, insípido e boboca na superfície, mas abaixo da superfície existe um universo inteiro de intensidade de sentimentos, de verossimilhança e de capacidade de observação da alma humana. Não à toa Jane Austen continua sendo apontada como escritora do primeiro time, mesmo entrados no século XXI e sua natural aversão à estética que impera ali.
Nesta obra, os caracteres do pai e da mãe da protagonista são absolutamente excelentes e a moral da história, contra julgamentos precipitados, fica excelentemente acentuada. E tem final feliz, que a mulherada adora.
Posted by marcol at 1:48 PM | Comments (2)
setembro 1, 2006

Sim, sim, ontem estive lá. Tatiana, eu e os amigos Regina e Marcelo, todos empolgados, como os outros milhares de pessoas, de todas as faixas etárias, que se encontraram no Tom Brasil.
Um show de Chico Buarque é um negócio sui generis, diferente. Tem um clima diferente. Ele tem razão de fazer isso poucas vezes, a atmosfera adquire contornos de um verdadeiro acontecimento. Fazia sete anos que não subia aos palcos para um show seu e daqui a sete anos pode ser que já estejamos no Céu, então não dá para perder. E não perdemos.
A iluminação é excelente. A banda é fantástica. O cenário é simples e eficiente. E o repertório. Bom, o repertório deu umas dicas sobre o atual estado de espírito do cara. Por exemplo, em pleno ano eleitoral e visto tudo que se viu no último ano, nenhuma música política, à exceção, talvez, do genial baião "Ode aos ratos", se bem que não tenho certeza se é de política que fala a letra dessa música do novo CD. Nenhuma canção falando de grandes profundidades, não, não. Os bis foram: "não é por estar em sua presença meu prezado rapaz/mas você tá mal/mas tá mal demais...", "Hoje o samba saiu" e outras canções que tratam apenas de amenidades amorosas, embora sempre com a genialidade de praxe.
Cantou todo o CD novo e mais "Futebol", "Morena de Angola", "As vitrines", "Dois irmãos", "Futuros amantes", "Bye bye Brasil", "Funcionário e dançarina", além de algumas canções que eu não conhecia. Dentre essas, pincei esta pérola que consegui memorizar: "no bucho do analfabeto/ letras de macarrão/ letras de macarrão/fazendo poesia concreta". Nas outras, vez ou outra flagrei sutis mudanças de letra, como brincadeiras para ver se povo tava prestando atenção - e acho que não estava, ninguém percebia. Por exemplo, em "Funcionário e Dançarina", trocou "quando eu não salário/ela sim propina" por uma brincadeira com lexotan e outros remédios da moda. Em "Bye, bye Brasil", em lugar "puseram uma usina no mar/ talvez fique bom pra pescar", ele cantou "talvez fique ruim pra pescar", que é mais ecologicamente correto e que não deixa de ser engraçado, já que o personagem que estaria cantando seria um cara meio obtuso ("pintou um lance lá na capital/nem tem que ter ginasial...").
Mas vendo aquele vôo panorâmico e descontada a péssima companhia do grupo ao lado, que parecia histérico no começo do show, como se fossem fãs aos pés da RBD, e que depois perderam o interesse e ficaram conversando e tirando fotos, estourando flashes na nossa cara, e ainda por cima fumando, bem, descontado esse pormentor, o fato é que o show me fez ver que Chico Buarque continua essa estrela de grandeza primeira, mesmo a despeito de toda sua timidez, sua forma travada e contida de cantar e sorrir, sua voz feia, enfim, a despeito dos contras, porque ele tem o que muito, muito pouca gente tem: composições acima do bem e do mal. A música é boa, todo mundo reconhece isso, não dá pra fugir. E eu nem quero.
Buenas, deu vontade de ressuscitar aqui uma entrevista exclusiva que Chico Buarque deu pra mim e que está acima de qualquer suspeita, tanto que já publiquei aqui neste blogue uma pá de vezes. Vai mais uma portanto. Foi dada em 2004:
Uma palavra
Uma entrevista exclusiva com Chico Buarque de Holanda
Este final de semana ele não apareceu nos gramados do Polytheama, o campo de peladas por ele organizadas desde tempos imemoriais (e que, dizem as boas línguas, apresenta um futebol melhor do que muita partida da primeira divisão). Em lugar disso tomou a ponte aérea e veio dar em São Paulo, onde pegou um telefone e entrou em contato com "É por aqui que vai pra lá?".
- Eu queria ser entrevistado por vocês - ele disse.
Considerando que se tratava do compositor, escritor e quase-cantor Chico Buarque, e que ele é notoriamente bastante avesso a entrevistas e holofotes em geral, destacamos uma equipe de dezoito jornalistas, fotógrafos, carpinteiros, maquiadores, marceneiros, contra-regras, cabos-men e dubladores e encontramo-nos todos na sede mundial da É por aqui que vai pra lá? Inc., onde se realizou a seguinte entrevista:
EPAQVPL?:Muito bem, Chico, por quê É por aqui que vai pra lá?
CB: Entendo que vocês são o grande acontecimento midiático em muito tempo! Formam, informam, transmitem cultura, bom senso, análises certeiras, críticas eficazes e, além de tudo, são caras muito bonitões e que esbanjam inteligência.
EPAQVPL?: Ótimo. Deixemos de redundâncias. O que tem feito desde Cambaio?
CB: Ouço sempre "Vai trabalhar, vagabundo".
EPAQVPL?: Isso foi uma citação!
CB: Muito perspicaz.
EPAQVPL?: Tem escrito alguma obra prima?
CB: Uma aqui, outra acolá.
EPAQVPL?: Falemos de Marieta Severo. É verdade que você, mesmo separado, tem um ciuminho do Marco Nanini, a despeito de ele parecer inofensivo?
CB: Essa foi uma pergunta meio Caras.
EPAQVPL?: Ok, desculpe. É verdade que Beatriz foi escrito para uma pessoa de nome Beatriz?
CB: Essa foi uma pergunta meio estúpida.
EPAQVPL?: Ok, desculpe. Você tem uma composição predileta?
CB: Acho que algumas das musiquinhas que eu fiz não são de todo más...
- o entrevistador levanta-se e esmurra violentamente o entrevistado
CB: Está certo, elas são geniais. Obrigado por ter me chamado à razão. Creio que Construção seja a composição mais proeminente.
EPAQVPL?: Certo. É verdade que você escreveu Todo Sentimento em uma espécie de transe místico provocado por haver tomado tubaína enquanto comia lasanha e logo em seguida ter lido Antologia Poética do Drummond duma sentada só, numa rede de frente pro mar?
CB: Achava que isso tivesse ficado em segredo!
EPAQVPL?: É que você contou isso dormindo, uma vez, e nossas fontes estavam próximas o bastante para registrar.
CB: Oh!
EPAQVPL?: Você tem ouvido muita música contemporânea?
CB: Tenho evitado, por perscrição médica.
EPAQVPL?: Muito sábio. Nem tribalistas...?
CB: Especialmente. Depois de ouvir frases como [cantarolando] "eu gosto de você/e gosto de ficar com você" eu tentei durante umas oito horas achar uma palavra que rimasse com feijão, sem conseguir. Percebi que essas composições desconstruíam meu cérebro.
EPAQVPL?: Chico, como escrever letras de música geniais como Corrente, Meu guri, Pivete, A Moça do Sonho, Ludo Real, Geni e o Zepelim, Caros Amigos, Pelas Tabelas, Futebol, O velho e tantas, tantas outras?
CB: Ah, veja você. Meu pai estava preocupado porque eu andava com umas más amizades, meio perdidão na vida. Aí ele me chamou num canto e contou que o Noel Rosa tinha passado para ele uma formulinha muito simples e eficaz de construção de letras geniais. Meu pai mesmo nunca havia usado por absoluta falta de tempo. Aí eu comecei a usar e percebi que a mulherada caía em cima, então não parei mais.
EPAQVPL?: Opa! Que fórmula é essa?
CB: Não posso falar.
EPAQVPL?: Aqui no ouvidinho, vai?
CB: Tá bom.
- e cochicha no ouvido do entrevistador
EPAQVPL?: Ah, então é isso? Chico, pode ficar tranqüilo que daqui pra diante você terá em mim um legítimo sucessor de sua fina arte. Essa bandeira será levada adiante, pode ter certeza!
CB (chorando): Estou emocionado! É justamente o que eu queria e sabia que só você poderia me substituir...
EPAQVPL?: Uma última mensagem?
CB: O Brasil precisa de inteligência e cultura. Por isso, que todos leiam É por aqui que vai pra lá? todo dia. A propósito, como acaba Persela, a vesga?
EPAQVPL?: Isso é segredo...
Nesse ponto meu filho começou a chorar e eu acordei. Enquanto fazia a barba tentava a todo custo recuperar a tal formulinha mágica das letras geniais, mas em vão (pelo menos isso rima com feijão). Mas eu ainda vou lembrar, ou meu nome não é Temístocles!
Nesta imagem Chico faz uma bem humorada brincadeira com o onze de setembro e deixa no ar: teria ele um irmão gêmeo? Sim, porque os aviões atingiram as torres gêmeas, entende? Mistério
Posted by marcol at 3:24 PM | Comments (4)