agosto 3, 2006
O senhor da guerra não gosta de crianças
Descobri há pouco tempo que tenho ascendência dinamarquesa. Assim, corre em minhas veias algo de português, algo de dinamarquês e - a única certeza que eu tinha desde sempre - algo de libanês.
Meu bisavô veio de lá fugido da guerra. Segundo meu avô, que não sei por qual razão específica trocou o sobrenome das filhas de Mauad para Brasil - possivelmente havia alguma discriminação aos "turcos" por aqui, entonces - seu pai lhe contava de um paraíso chamado Líbano, cheio de prados verdes, colinas cobertas de trigo e cevada, regatos plácidos. Faz sentido. A Bíblia mostra em vários momentos que os cedros do Líbano eram valiosíssimos, foi com essa madeira que Salomão construiu boa parte de seu famoso templo. Reza a tradição oral, aliás, que o Jardim do Eden ficaria ali.
Há um mês atrás o Líbano estava longe de ser um paraíso, mas estava andando bem. Estradas novas, cidades bem apanhadas.
Mas o ódio do homem não gosta de paraísos, nem da mera memória de paraísos. Hoje de manhã vi uma matéria no jornal sobre refugiados fugindo da zona mais bombardeada. Vi duas garotas pegando carona para qualquer lugar, só com a roupa do corpo e uma bolsinha na mão. Mais que os velhinhos desabrigados e as mães desesperadas, essas duas moças me comoveram. Elas se pareciam muito com minha mãe, conforme as fotos dela de quando jovem. E é triste também precisar me reconhecer na face dos sofridos para odiar o fruto do ódio, para odiar a guerra.
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Eu ontem tive um presságio. Manja, presságio? Pois é. Estava tentando um caminho diferente para chegar no metrô. Esse caminho tem uma ladeira um tanto íngreme, não chega a 90º, mas só uns 85. Estava garoando, um frio desgraçado. No finalzinho da ladeira, escorreguei no barro que havia sobre a calçada. Num átimo de segundo me vi esborrachado no barro, todo lascado, tendo que subir a ladeira de volta, ou melhor, escalar a bichinha pra trocar de roupa, cortes, escoriações múltiplas e quejandos. Mas numa demonstração fenomenal de reflexo, agilidade e exatidão de movimentos, consegui me agarrar na mureta ao lado e evitei o desastre.
Mais tarde, naquela noite, num átimo de segundo vi a bola na rede, Rogerio Ceni batido e uma noite de pesadelo, mas numa demonstração fenomenal de reflexo, agilidade e exatidão de movimentos, o melhor goleiro do Brasil pegou aquele pênalti.
A explosão do Morumbi lotado foi uma coisa sublime. Como explodiu de novo nos três gols pró que se seguiram. Eu estava no pior lugar do estádio, na geral atrás do gol, mas não queria estar em outro canto, não.
Sorry, colegas, estamos em mais uma final de Libertadores da América.

Posted by marcol at agosto 3, 2006 11:30 AM
Comments
Nem me fale dessa guerra repulsiva e dos malditos que a mantêm ativa. Não sei se tenho algum antepassado libanês, mas posso bem imaginar como se sente quem tem. Aliás sei bem pouco de minha genealogia, porque tive um avô maluco que fugiu de casa aos 14 anos, mudou de nome e nunca explicou nada aos filhos e netos. De modo que nem tenho muita certeza se sou eu mesma. Seu post está perfeito. E parabéns pelo futebol e pelos reflexos. Eu teria me estabacado de verde e amarelo. Abraço, Marco.
Posted by: adelaide at agosto 7, 2006 12:01 AM
Entendo perfeitamente. Minha parte francesa da família é índia.
Posted by: Roger at agosto 5, 2006 10:46 PM
Aqui na Fortaleza e no Ceará em garal temos fortes laços com o oriente médio, e em especial com o Líbano. Tem até uma rua chique da capital chamada República do Líbano.
A vocação natural do Ceará, ninguém duvida, é para o esqui na neve. Como a coisa inexplicavelmente nunca prosperou por aqui, abraçamos o comércio - assim como nossos patrícios.
A influência síria, libanesa, moura e judaica - via os cristãos-novos nunca convertidos -; é muito forte até mesmo, sei lá, por similaridades geográficas: nós também temos o oceano à frente e o deserto atrás.
É muito triste, é de se chorar com lágrimas quentes o que esses povos irmãos fazem uns com os outros. Só nos resta lamentar e ajudar, como for possível, nessa milésima reconstrução da região.
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Boa sorte ao São Paulo. Como tenho pendores pelo Grêmio de Futebol Portoalegrense, não dá pra torcer Inter. E dá-lhe tricolor do Morumbi!
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Desculpa o postão, Marco:-)
Posted by: Hemeterio at agosto 5, 2006 10:24 AM
Eu acho que ao invés da guerra, as pessoas deveriam fazer competições, saca?!
Tipo, corrida de saco ou até mesmo cabo-de-guerra...
Viva o Alex Kid, que resolve tudo no Pedra-Papel-Tesoura.
Posted by: Victor Ribeiro at agosto 4, 2006 11:29 AM
Belo texto sobre esta guerra repugnante.
Quanto ao São Paulo... Quem é? Ah, o futuro vice da América?
Posted by: Milton Ribeiro at agosto 4, 2006 8:51 AM
Porque todo são-paulino é, assim, algo arrogante?
:-)
Eu não tenho nada contra o São Paulo, mas acho a arrogância são-paulina levemente irritante
:p
Posted by: Daniela at agosto 3, 2006 2:12 PM