julho 4, 2006
Subcontos de Copa do Mundo
1.
No meio da barafunda verde-amarela brotou uma improvável flor. Heitor havia chegado direto do trabalho, esbaforido, com medo de perder uma parte do jogo. Foi recebido com festa pela galera reunida na casa de um deles para ver o jogo da seleção. Ele vestiu a camisa amarela por cima da camisa e da gravata e tomou seu lugar no sofá abarrotado. Transcorreram aqueles 90 minutos de tradicional sufoco, apitaço, eventuais bolinhos sobre algum engraçadinho e no fim tudo deu certo, o Brasil ganhou e todo mundo se levantou e começou a papagaiar animadamente. Heitor tirou a camiseta e largou num canto, correndo em cima das pizzas que tinham chegado. Foi ali, no meio da confusão e da baderna que viu: lá atrás, silenciosa e algo escondidamente, Mariana pegava a camiseta e dobrava, deixando no lugar de volta. Aí ele percebeu que a amava.
2.
O Brasil jogando a final da Copa do Mundo de 1994, tentando um título que lhe escapava havia vinte anos, e ele ali, cobrador de ônibus escalado para trabalhar naquele horário, a angústia de não saber nada e de ver que ninguém, absolutamente ninguém pegava ônibus naquele horário. Ninguém parecia existir da porta pra fora naquele horário... O motorista não tava nem aí, era crente e fazia questão de mostrar que não tava nem aí, assobiando alegremente. Tudo pra deixar o cobrador, coitado, com a sensação mais desolada de todos os tempos. Não podia piorar, mas piorou: subiu um passageiro.
Ele pegou o dinheiro e o tascou na gaveta com quase raiva. O rapaz sentou lá no último banco, tirou ninguém sabe de onde um oboé e começou a tocar a melodia mais triste do mundo. O cobradorzinho não agüentou, começou a chorar, enterrou as mãos na cabeça e o queixo na gaveta à sua frente e pediu pra morrer.
A música do passageiro tinha picos e abismos, ia e voltava, revolteava graciosamente, depois hesitava e parecia contar uma história com cheiro de mofo e lágrimas cristalizadas. Ela terminava numa nota longa e sofrida que de repente se derramava quente e de tão linda e triste o cobradorzinho sentiu como se uma lâmpada quebrasse no seu peito e percebeu desconcertado que o passageiro chorava muito enquanto tocava.
Mas no fim, expirado o último eco de nota, o país explodiu ao redor do ônibus. Gritos, rojões, faces alucinadas assomando às janelas, pessoas nas sacadas se abraçando e o cobradorzinho começou a gritar e pulou no corretor, e agarrou-se aos balaústres e sambou e cantou enquanto o motorista olhava com cara de despeito pelo retrovisor.
O passageiro, então, levantou-se e fez uma longa mesura, como se o aplaudissem, como se fosse seu aquele dia de glória.
Posted by marcol at julho 4, 2006 3:55 PM
Comments
todos os textos muito bons, muito bem redigidos, mas o último é incrível.
Posted by: Ricardo A. at julho 21, 2006 12:29 PM
Da série 'minusculos arrependimentos eternos':
Sem querer bati os olhos na última frase do primeiro post antes de começar a lê-lo. Uma pena. Nunca vou saber como é a surpresa de ir lendo ele aos poucos, saboreando, sem saber o fim.
Entre o primeiro e o segundo fico com os dois.
Lindos.
Posted by: Mirana at julho 6, 2006 1:11 AM
os dois são do caralho. o primeiro, pelo sentimento. o segundo, pelo estilo."cobradorzinho" yeah!
Posted by: Sbub at julho 5, 2006 2:55 PM
Cara, sem desmerecer o segundo, mas o primeiro texto é fantástico.
Posted by: Victor Ribeiro at julho 5, 2006 1:34 PM