junho 7, 2006
Mikail no colo a responsabilidade e a ventura de dar o ponto final da novela a muitas muitas mãos Porto do Desespero. Se você é um boca aberta que não faz a menor idéia do que eu estou falando, corre aqui, onde tudo começou, e acompanha a evolução dessa idéia bacanérrima.
Porto do Desespero, capítulo XX: O Porto
Enquanto a horripilante amante de Azhad dirigia feito uma louca, Daniel admirava Mariana, que dormia ao seu lado com a testa encostada ao vidro embaçado do carro. O paquistanês parecia vidrado, olhando a estrada. Mas admirando Mariana Daniel via uma confusão de imagens, sons e cheiros. Sentia seu próprio sangue na boca, um estampido de arma de fogo contra sua cabeça, uma guia turística recitando em espanhol rápido demais para ser compreendido alguma coisa sobre Gaudí e a Sagrada Família, aquele olor de carne adocicado e nauseabundo. E a presença de Mariana como um fio vermelho a ligar os fragmentos incongruentes.
Reduziram para contornar um enorme tronco caído na entrada da estrada secundária que os levaria à fundição abandonada. Quando pararam o carro enfim, Mariana acordou, um pouco assustada de estar ali de novo e também surpresa de terem chegado sem a ajuda dela. Fez menção de sair do carro, mas Azhad, misturando árabe, francês e inglês, disse que cuidaria de tudo.
Sua amante o tomou no colo, ajeito no canguru, vestiu sobre ambos um grosso sobretudo e saiu. Seus pés patinavam no gelo que caíra durante toda a noite, o dia apenas começara a raiar.
Daniel virou-se para Mariana e perguntou:
- E então? Esse é o fim que você queria pra tua fase demente?
Os olhos dela diziam claramente que a resposta certa seria "não sei", mas seus lábios disseram que sim em meio a um sorriso frágil e vulnerável.
De repente uma gritaria em francês ecoou. Policiais apareceram a cercar os paquistaneses e, apontando-lhes suas armas, a ordenar que deitassem ao solo. Três deles passaram pelo grupo e, sempre com armas em punho, começaram a descer em direção ao carro.
Azhad parecia abobalhado, praguejando em árabe sem saber o que fazer. Foi sua amada quem, encostando os lábios em seus ouvidos, sussurrou que estava com saudades do lugar aonde haviam se conhecido. Ele sorriu e tascou-lhe um beijo profundo. Daniel entendeu, abraçou Mariana e atirou-se ao chão do carro protegendo-se como pôde.
Os muitos quilos de explosivos a mais que Azhad pregara ao corpo para evitar falhas em sua missão de matar Zeca espalharam pedaços de corpos por toda parte. Sentindo o agridoce cheiro de carne queimada de novo, Daniel levantou-se, pulou para o volante e arrancou com ímpeto.
- Se tínhamos uma morte de policial com que nos preocupar, agora temos um pouco mais - disse sem atinar muito bem com o que acontecia. Quando ganhou a autoestrada tentou organizar as idéias: Ok, o Zeca já sabia que a gente tava vindo. Das duas, uma: ou minha imitação de Roberto foi uma merda e ele logo sacou tudo, ou alguém aproveitou uma parada na estrada para ligar pra ele e avisar. Quem poderia ser? perguntou sarcasticamente olhando para o banco de trás, aonde Mariana se deixava ficar quase deitada, a cabeça encostada à janela, sentindo uma profunda lassidão, um anestesiamento do próprio corpo. Por fim, ela disse:
- Você não acredita em mim, né?
Ele achou graça na pergunta.
- Espera. Por que você tá dirigindo pra Montreal? Ficou louco? A gente vai ser pego com certeza, a gente tem que fug...
- Eu vou acabar essa coisa agora.
- Você sabe onde o Zeca tá?
- Não. Mas você sabe. E vai me dizer.
Mariana ficou algum tempo olhando pra estrada. Perguntou:
- Você perdeu a esperança, Dani? De ter uma vida normal? De viver o futuro que você nasceu pra ter?
Ele hesitou antes de responder:
- Acho que enquanto você estiver por perto eu vou sempre ter alguma esperança. E então? Pra onde devo dirigir?
Eles chegavam a Montreal. Ela apontou a placa que dizia Vieux-Port.
- Com alguma sorte os pegamos antes deles partirem.
- Partirem? Quem? Pra onde?
- Zeca e nosso amigo, o assessor do ministro. Se eu entendi alguma coisa dessa barafunda, os dois devem estar indo gastar o que lucraram com essa história de atentado na Espanha numa certa ilha na região dos lagos.
Sirenes começaram a tocar e a pintar de vermelho o retrovisor. Daniel pisou mais fundo. Dirigindo com a sanha dos assassinos recém-nascidos, conseguiu chegar antes que os policiais o parassem. Pegou a maleta de ferro que Azhad mantinha sob o banco do carro, dentro da qual guardava um velho lança-granadas da Guerra do Vietnã, e saiu correndo os diversos piers do porto, procurando por alguma coisa. Mariana veio atrás. Seria quase impossível encontrar alguma coisa no meio daquela infinidade de barcos, mas ele interceptou um furtivo olhar dela e correu naquela direção.
Enfim localizou um iate preparando-se para zarpar, sobre o qual dois homens bebericavam vinho e davam risadinhas sardônicas.
- Zeca, seu resto de aborto - ele vociferou tirando a arma de dentro da maleta - eu tenho um presentinho pra você!
Antes que os dois pudessem esboçar qualquer reação Daniel atirou, enchendo o céu de fumaça. Zeca lançou-se ao chão protegendo a cabeça, mas nada aconteceu. O projétil prendera-se à parede do iate, ao lado do assessor em pânico, e ali ficara, girando sem explodir. Era velho demais.
Zeca levantou-se tirando a arma do coldre e gargalhando enquanto a apontava para Daniel.
- Seu corno metido a besta, és um incompetente mesmo! Então se safou da minha festinha lá na fundição, é? Foi bom, eu queria mesmo conhecer um energúmeno tão completo assim, de perto.
As sirenes tomaram conta da plataforma, policiais corriam na direção de Daniel e Mariana.
- Quer saber? Acho que vou deixar você viver pra conhecer o sistema prisional do Canadá. Coisa de primeiro mundo, pode ficar tranqüilo. Mas tem um lugarzinho pra você aqui, Mariana - disse, dando tapinhas no assento ao seu lado.
Daniel a olhou expectante. Ela perguntou:
- E a Maíra?
Zeca deu de ombros e gargalhou. Mariana virou-se para Daniel e disse:
- Acho que você já pode começar a perder as esperanças - e pulou para dentro do barco segurando na mão estendida de Zeca. O barco zarpou imediatamente. O atônito Daniel não conseguia tirar os olhos de Mariana, que o fitava com olhar ambíguo enquanto ele era cercado pelos policiais e atirado ao chão. Mariana parecia esperar alguma coisa. Quando estavam distantes o bastante, sorriu para Daniel, desprendeu-se da mão de Zeca e atirou-se contra a granada que continuava girando.
Aquele cheiro de carne não desapareceria jamais.
[fim]
Posted by marcol at junho 7, 2006 4:38 PM
Comments
Só li agora, e também achei que o final ficou muito bom. Parabéns.
Posted by: Ricardo Antunes da Costa at junho 27, 2006 5:58 PM
Show de bola, Marcão. Todo mundo de parabéns :-)
Posted by: Idelber at junho 12, 2006 12:27 AM
Mas que capítulo e final perfeitos! És um monstro, Marcão!
Fico orgulhoso de nosso final não planejado verbeater: Prada-euzinho-Tiago-Marcão.
Grande abraço, meu talentoso colega.
Posted by: Milton Ribeiro at junho 9, 2006 4:59 PM
provavelmente a coisa mais lisérgica já publicada em blogs tupinambás. devia ganhar livro com 20 ilustradores malucos. os 20 blogueiros e os 20 ilustradores podiam bancar. com 60 reais cada um faríamos 1.000 livros!
:>/
Posted by: Biajoni at junho 9, 2006 2:58 PM
acompanhei do começo e foi sensacional ter funcionado tão bem. Fechou com chave de ouro.
Posted by: gugala at junho 9, 2006 4:08 AM
rock and roll!!!
*boooooom*
Posted by: tiagón at junho 8, 2006 9:03 AM
O final ficou bom mesmo, cara, parabéns.
Posted by: Sbub at junho 8, 2006 8:44 AM
Eu nao acompanhei a novela, mas confio no seu talento e acho que o final ficou ótimo :)
Posted by: Daniela at junho 8, 2006 8:00 AM
Ficou mesmo bem legal! So nao imaginava que fossem durar 20 capitulos mesmo
Posted by: Marmota at junho 8, 2006 1:58 AM
Maravilha Marco Aurélio ! Adorei, e consegui visualizar tudinho :-) Você conseguiu fazer um milagre com toda a confusao que tinha se instalado. Agora ja fico com saudades, me perguntando quem vai se habilitar a fazer o Porto do Desespero II !
Beijao.
Posted by: Ana Lucia at junho 7, 2006 7:50 PM
Explosively brilliant, man! :-)
Posted by: Nelson Moraes at junho 7, 2006 7:25 PM
Mariana, minha musa, explodiu em mil pedaços... foi um final ótimo, parabéns. e olha que foi uma tarefa ingrata, amarrar todas as pontas de nós deixadas pela gente.
e o Daniel, como sempre, vacilão...
é o nosso herói!
Posted by: Serbon at junho 7, 2006 7:10 PM
Uau! Nao poderia ser outro final. Meu consolo é que depois dessa, o Daniel nunca mais será o mesmo. Já estou até pensando em "Porto do Desespero II", a saga continua... :-)
Beijos,
Vanessa
Posted by: Vanessa Rodrigues at junho 7, 2006 6:17 PM
ahahahaha.
marco aurélio é o cara.
Posted by: Olivia at junho 7, 2006 6:13 PM
Não, não!!!!!!!!! Não pode acabar assim, com o Daniel preso e a Mariana explodindo na granada velha! Brincadeira, ficou nota 10.
Só tenho um senão: a língua falada pelos paquistaneses é urdu, e não árabe!
bjs
Posted by: Leila at junho 7, 2006 6:04 PM