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junho 6, 2006

As feições do vazio

1. Tales, o cliente predileto. O cliente perfeito. O mais querido na tacanha locadora que se espreme em cima da padaria, entre o dentista e a imobiliária. Tales é o que é pelo simples fato de que vê todos os filmes. Todos. Não importa o estilo, o diretor, o elenco, não importa absolutamente nada. O simples fato de ter ganho as prateleiras da locadora é razão para ele alugar.

Quatro noites por semana ele adentra o local com seu olhar irrequieto e pergunta se tem coisa nova. Pega um sem mal olhar, paga, diz o mesmo muito obrigado quase em falsete, coloca o saquinho laranja embaixo do braço e desce seu corpanzil gigantesco escada abaixo. Aí passa na pizzaria, pega uma brotinho e uma cerveja e vai para casa.

Foi o funcionário novo que fez o comentário errado. Espantando de vê-lo ali pela décima vez em menos de vinte dias, observou impressionado:

- Puxa, seu Tales, o senhor realmente gosta de ver filmes, hein?

Tales olhou para ele com uns olhos de incompreensão a toda prova, seguidos de olhos inexpressivos antes de responder:

- Na verdade não. Quer dizer, tanto faz.

E desceu a escada atabolhadamente, com seu filme da noite sob o sovaco.

* * * *

2.
Havia sido um poeta concretista de primeiríssima grandeza. Freqüentara as mais criativas rodas intelectuais da cidade. Participara de filmes. E encontrara-se obsoleto, vivendo entre gatos de um apartamento velho de uma zona decadente.

Andando a esmo em plena tarde, surpreendeu-se [para seu extremo horror] segurando o panfleto de empréstimo pessoal: "Para acertar a sua vida - Crédito fácil e descomplicado!" que lhe havia sido extendido. Voltou para seus gatos sentindo-se cansado.

Posted by marcol at junho 6, 2006 4:16 PM

Comments

Puxa, minha pessoa ficou deprimida.

Posted by: Lisi at junho 7, 2006 7:54 PM

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