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junho 29, 2006

Você não pediu! Nós atendemos! - Mais um roteiro genial para um filme quase lá

Depois do sucesso avassalador do meu último roteiro cinematográfico (que eu não lembro qual foi), meu telefone vermelho, que fica dentro de uma bandeja pra bolo não pára de tocar. Trata-se da linha direta com Hollywood. Torraram meus picuás diretores de estilos tão díspares como Wes Craven, Woody Allen, Irmãos Wachowsky, irmãos Farrely, irmãos Metralha, Costa Gravas e Quentin Tarantino. Como ando muito assoberbado com os postes inteligentíssimos de É por aqui que vai pra lá?, resolvi atendê-los todos duma vez só. O resultado você, leitor refinado e classudo, confere em primeira mão. Chama-se...

O ocaso dos cágados sacripantas

Jovens colegiais de Primaveirópolis, cidade do interior de Goiás, estão às voltas com as festividades da formatura. Enquanto decoram o ginásio da escola, ficamos conhecendo os personagens: Marilene, a loira biscoituda e devassa que se veste de forma pouca própria; Juremiel, o capitão do time de futebol, popular, xavequeiro e dado a usar camisetas agarradas com as mangas dobradas para realçar os bíceps; Leonora, a intelectual e politizada, alvo das paixões doentias de Deoclécio, o esquisitão de feições nerd e hacker de ocasião; e, claro: um obeso, um negão, um punk, uma freira e um pasteleiro chinês.

Leonora diz: gente, não é hora de irmos embora? Vocês ouviram falar no que aconteceu àqueles fazendeiros, está perigoso andar por aí de noite...

Juremiel: bobagem, vamos acabar isso aqui - e dá uma risadinha safada na direção de Marilene.

O pasteleiro resolve ir ao banheiro. A câmera fica postada atrás de uma porta, só vemos pela fresta o que acontece. O chinês posiciona-se ao mictório e a porta se abre lentamente e vai-se aproximando. De repente, uma mão com um enorme ancinho aparece. O china olha no espelho e vê uma assombrosa figura vestida de bumba meu boi, mas antes que possa gritar o ancinho desce violentamente espirrando sangue pela parede branca do banheiro.

O punk acha estranho que o china não aparece, então começa a procurá-lo. Ele morre com uma barra de ferro atravessada no crânio. O obeso tenta escapar e é cortado ao meio por um cabo de aço da tabela de basquete, que se desprende a um toque do tenebroso bumba-meu-boi. Os demais tentam escapar, mas as portas do ginásio estão trancadas. A quadra é regada com o sangue juvenil. Cada corpo deveria ter uns 90 litros de sangue, e todos eles estão agora borbulhando de seus cadáveres dilacerados. Restaram apenas Leonora e Deoclécio, que abraçam-se a um canto tremendo e gritando. Quem é você!? grita Deoclécio. O bumba-meu-boi vem chegando e, parando dramaticamente, com uma foice na mão, começa, com a outra, a tirar a máscara. Close em Leonora. Pela lente de seu óculos vemos do lado de fora da janela, um homem vestido de sobretudo preto e óculos escuros.

Sem mais nem mais a câmera começa a segui-lo. Ele está andando pelas ruas desertas de forma decidida. Pára em frente a uma casa comum, de frente para o coreto da cidade. Pula o muro e bate na janela ao lado. Aparece um rapaz com grandes olheiras: o que foi? Quem é você? - Siga-me! o homem diz. - Mas... o rapaz diz, mas o homem atalha: - Siga-me, você corre perigo! e, dizendo isso, ele se vira. O rapaz vê então, tatuado na nuca dele, uma anta branca. Num flash back somos levado ao sonho que o rapaz estava tendo quando bateram-lhe na janela. Ele estava no bico de um enorme navio, com os braços abertos, e por trás dele uma mulher azul sussurrava: a anta! a anta branca!

Sem mais pensar, ele pula a janela e segue o homem de preto. Estão quase chegando à esquina, ele quer perguntar o que está acontecendo, mas o homem faz sinal para que ele fique quieto e o faz pular para dentro do quintal de uma outra casa. Olham para a casa dele, à frente da qual estacionou um caminhão de onde saem trinta homens vestidos com uniformes militares futuristas; eles fazem uma linha à frente da casa e começam a metralhá-la. Em poucos e barulhentos instantes, a casa está no chão, eles voltam ao caminhão e saem. O rapaz está atônito. O homem de preto o leva até uma antiga igreja desativada. Ali, sob uma luz tugúria, diz: você tem perguntas. Faça! O rapaz começa então a despejar nervosamente: quem é você? O que quer comigo? Quem eram aqueles homens? Por que isso está acontecendo?

Toca um celular. O homem de preto atende e sua cara de durão de repente se derrete: ok, vou já pra aí - ele diz. Sem mais nem mais ele tira o sobretudo de couro preto e veste um paletó de lã xadrez, pega um ramalhete de flores, sai da igreja e vai até uma casa. Toca a campainha, uma bela mulher atende e pede um segundinho. Volta segundos depois com uma bolsa e um xale. Ele diz, estendendo as flores: são para você. Ela sorri, diz que são lindas, volta para dentro de casa para guardá-las e finalmente saem.

- Você sabe que isso vai ser complicado, não sabe, Edmundo?

- Cecília! Ele diz colocando-se à frente dela e segurando firmemente seus braços - seria preciso mais do que um mundo de diferenças a nos separar para me fazer desistir de tentar. Que me importa se você foi casada com o inimigo mortal do meu pai, que me importa se o seu pai é diretor do Vila Nova e eu sou sócio do Goiás, que me importa se você tem a metade da minha altura, se é doutora em psiquiatria clínica e eu sou analfabeto? Essas coisas todas pertencem ao mundo das abstrações, das quimeras, dos imponderáveis, ao passo que existe algo que é fato, mais concreto do que o paralelepípedo sobre o qual pisamos, e esse algo é: eu te amo.

Começa a chover e eles se beijam. Cecília começa a tossir, diz que não se sente bem e vai pra casa. O sol amanhece e seu pai aparece com um envelope na mão, dizendo: filha, o resultado do exame é o que eu temia. Aquela chuva te deixou com câncer. Existe uma chance em 18.000 de você se salvar, mas estou sabendo de um tratamento experimental em um hospital da Antioquia. Vou dar um jeito de levantar os fundos necessários para irmos até lá. - Oh, papai - ela diz e começa a chorar. O velho sai e começa a fazer ligações, colocar faixas nas ruas, distribuir santinhos com a foto da sua filha e mobilizar toda a sociedade de Primaveirópolis. Seu amigo Sandoval o convence a tentar levantar o dinheiro no concurso de duplas sertanejas mistas da cidade, mas para isso um dos dois tem que se vestir de mulher e o outro disfarçar-se de corno. O diretor do concurso começa então a dar em cima da "mulher" sem saber que se trata de seu cunhado Sandoval. Chega a hora da grande final, eles sobem ao palco e começam a cantar "Por que você me largou?" quando o concurso é interrompido por uma marcha de sem terras. Eles estão a caminho de Brasília e lutam por dignidade e justiça. O seu líder, Libério Guevara, é alvo de uma emboscada dos fazendeiros latifundiários, mas conta com a ajuda do repórter Jair Vladílson, de A Folha de Primaveirópolis, que começa a publicar bombásticos artigos contra o prefeito e os fazendeiros, revelando um esquema de lavagem de dinheiro, extorsão, tráfico de crianças, de escravas brancas e de rapadura.

Ele vê que está sendo seguido por capangas do prefeito e sobe num jegue para fugir. Começa uma emocionante perseguição de jegues pelas ruas tortuosas da cidade. Enfim, Jair Vladílson esconde-se na casa de Francisco Emérito, o filósofo e pensador da comunicação, que, sentado em uma cadeira de balanço na varanda de sua casa, começa a tergiversar sobre a arte, o pensamento, a expressão e a aparente falta de sentido nas construções artísticas contemporâneas. No fundo, ele diz, tudo se encaixa. E, dizendo isso, pisca para a câmera, que escurece em fade enquanto sobem os créditos e toca "Vai passar", do Legião Urbana.

Posted by marcol at 6:24 PM | Comments (3)

junho 26, 2006

Instantâneo

Ele descansa sua cabeça no colo dela. Enquanto os dedos suaves que ele conhece de longa data deslizam por seus cabelos, tenta pensar em como introduzir seu assunto, que não é outro senão o rompimento. Mas não consegue raciocionar, a sua mente parece prestar uma atenção obsessiva no barulho da água que corre tranqüila e melíflua a uns dez metros dali. Decerto foge do que precisa ser feito. Ele sabe disso, mas não consegue ganhar a briga. Então é isso, vai deixando a cabeça ali, identificando pensamentos periféricos sobre ser aquela leve pressão nas têmporas sentida pela última vez, volta ao barulho do riacho, os lábios sempre fechados. E ele sofre nas bordas do momento em que quem vai sofrer é ela.

Posted by marcol at 5:08 PM | Comments (9)

junho 21, 2006

Hoje lembrei de uma coisa importantíssima. É uma lástima que eu haja esquecido por tanto tempo. Lembrei que é delicioso caminhar de olhos fechados sob o sol de uma manhã fria.

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Quando Paolo Rossi fez aqueles três gols e minha mãe quase foi chacinada por ficar falando "viu só? Eu disse! Quem não faz, leva!", saí de casa em perfeito estado de melancolia e me assentei no muro. Logo o vizinho, o Zé Carlos, chegou e sentou junto, com a mesma cara de bunda. Ficamos olhando uma torre de fumaça no morro do outro lado da linha do trem que corta ali a Cidade Dutra, zona muito sul de São Paulo. Um tiozinho passou e explicou: - o cara pirou. Botou fogo no carro dele.

Não é minha primeira lembrança associada ao sentimento de melancolia, mas é a primeira associada ao futebol. Que a primeira impressão não seja a que fique.

Posted by marcol at 3:30 PM | Comments (3)

junho 19, 2006

Mundocão

Ao sinal dela, o táxi parou. Ela entrou, disse que estava indo para o Centro de Detenção e ele tocou adiante. Pelo retrovisor fitou bem sua passageira e restou uma ponta de inquietude - havia alguma coisa errada ali.

- Vai fazer uma visita? tentou. Ela só balançou a cabeça, afirmativamente. Rodaram coisa de quinze minutos em silêncio até ele se dar conta do que parecia deslocado e não era outra coisa senão o próprio silêncio. No colo dela, embrulhado em muitas mantas, o bebê não dava um pio. E ela o carregava de forma estranha.

- Quanto tempo tem a criança? ele perguntou. Ela hesitou, depois grunhiu algo que a mente dele demorou a decodificar como sendo oito meses - Quietinha, não? sem resposta.

Ao vê-la entrar pela porta escura do Centro de Detenção, guardando o dinheiro da corrida no bolso da camisa, ele
vivia um impasse entre o sempre mais cômodo live and let live e o que aquele nó na garganta mandava fazer. O nó ganhou, ele estacionou o carro onde deu, desceu e entrou.

Observou de longe enquanto o delegado abordava a mulher, que já estava quase entrando na carceragem, e pedia para ver a criança. Viu o olhar de pavor dela, o pulo involuntário que ela deu para trás e preferia não ter visto aquela criança roxa e dura, preferia não ter visto seu ventre costurado e nem notado que no lugar das visceras havia um saco de cocaína.

Quando o próximo passageiro entrou, notou que ele dirigia chorando, mas não fez nenhum comentário, adepto de sua política do live and let live, cada um com seus problemas.

(infelizmente, mas infelizmente mesmo, esta história é baseada em fatos reais)

Posted by marcol at 10:31 AM | Comments (4)

junho 16, 2006

A propósito

Graças ao ócio de feriadão não emendado e à nhaca de ver a Argentina enfiar 6 na Sérvia e Fernanda, cliquei a esmo na coluna de links do Almirante Nelson e achei o blog já devidamente linkado na coluna aí à direita - direita é a mão que você usa pra comer, se não for canhoto. Se você for canhoto é a outra. Se você tiver mais de duas mãos, decida esse impasse no "dois ou um" - do Ratapulgo. Ratapulgo, o sempre-alerta do Copy & Paste.

Ele tem o estilo de humor que mais me apetece, enriquecido por uma bagagem cultural fantástica. Acompanhe, por exemplo, a série ainda inacabada "Decifrando o Código..." (que a cada capítulo recebe um nome diferente).

Genial.

Posted by marcol at 3:48 PM | Comments (1)

junho 12, 2006

Os maiores livros que não foram escritos

Dentre os maiores livros que esqueceram-se de ser escritos, gosto particularmente destes:

O vale mágico - Depois de sair do Sanatório Berghof, o picolé de chuchu Has Castorp, estrela de A Montanha Mágica, descobriria que tem asma, então iria para um sanatório em um vale da Basiléia Setentrional. Ali ele passaria seis anos e nós uns três, até lermos as 1.154 páginas descrevendo minuciosamente cada diálogo mantido com representantes de todas as ideologias possíveis.

O Tempo e o Vento Levou - Agora viriam dois romances parrudos pelo preço de um. Contando a saga de duas famílias, uma do sul americano e outra do sul brasileiro, com suas glórias, idas e vindas, declínios e desgraças. Tudo isso pra na última parte descambar num romance chinfrim tipo Julia, Sabriana e Bianca, em que, a fim de justificar juntar as duas histórias, um descendente da família americana vive uma tórrida história de amor com a descendente da família brasileira e um spa para hipertensos no litoral panamenho. Pô, 1.758 páginas pra dar nisso?

Guerra, paz e guerra outra vez - Depois de botar Napoleão pra correr, os russos se vêem às voltas com outras duzentas guerras. Todas elas, contadas com requintes de detalhamento, inclusive com pitacos sobre questões estratégicas militares, servem de pano de fundo para contar as histórias de noventa e seis personagens, todos em busca do sentido da vida. 1.958 páginas na versão condensada.

Posted by marcol at 1:56 PM | Comments (3)

junho 7, 2006

Mikail no colo a responsabilidade e a ventura de dar o ponto final da novela a muitas muitas mãos Porto do Desespero. Se você é um boca aberta que não faz a menor idéia do que eu estou falando, corre aqui, onde tudo começou, e acompanha a evolução dessa idéia bacanérrima.

Porto do Desespero, capítulo XX: O Porto

Enquanto a horripilante amante de Azhad dirigia feito uma louca, Daniel admirava Mariana, que dormia ao seu lado com a testa encostada ao vidro embaçado do carro. O paquistanês parecia vidrado, olhando a estrada. Mas admirando Mariana Daniel via uma confusão de imagens, sons e cheiros. Sentia seu próprio sangue na boca, um estampido de arma de fogo contra sua cabeça, uma guia turística recitando em espanhol rápido demais para ser compreendido alguma coisa sobre Gaudí e a Sagrada Família, aquele olor de carne adocicado e nauseabundo. E a presença de Mariana como um fio vermelho a ligar os fragmentos incongruentes.

Reduziram para contornar um enorme tronco caído na entrada da estrada secundária que os levaria à fundição abandonada. Quando pararam o carro enfim, Mariana acordou, um pouco assustada de estar ali de novo e também surpresa de terem chegado sem a ajuda dela. Fez menção de sair do carro, mas Azhad, misturando árabe, francês e inglês, disse que cuidaria de tudo.

Sua amante o tomou no colo, ajeito no canguru, vestiu sobre ambos um grosso sobretudo e saiu. Seus pés patinavam no gelo que caíra durante toda a noite, o dia apenas começara a raiar.

Daniel virou-se para Mariana e perguntou:
- E então? Esse é o fim que você queria pra tua fase demente?
Os olhos dela diziam claramente que a resposta certa seria "não sei", mas seus lábios disseram que sim em meio a um sorriso frágil e vulnerável.

De repente uma gritaria em francês ecoou. Policiais apareceram a cercar os paquistaneses e, apontando-lhes suas armas, a ordenar que deitassem ao solo. Três deles passaram pelo grupo e, sempre com armas em punho, começaram a descer em direção ao carro.

Azhad parecia abobalhado, praguejando em árabe sem saber o que fazer. Foi sua amada quem, encostando os lábios em seus ouvidos, sussurrou que estava com saudades do lugar aonde haviam se conhecido. Ele sorriu e tascou-lhe um beijo profundo. Daniel entendeu, abraçou Mariana e atirou-se ao chão do carro protegendo-se como pôde.

Os muitos quilos de explosivos a mais que Azhad pregara ao corpo para evitar falhas em sua missão de matar Zeca espalharam pedaços de corpos por toda parte. Sentindo o agridoce cheiro de carne queimada de novo, Daniel levantou-se, pulou para o volante e arrancou com ímpeto.

- Se tínhamos uma morte de policial com que nos preocupar, agora temos um pouco mais - disse sem atinar muito bem com o que acontecia. Quando ganhou a autoestrada tentou organizar as idéias: Ok, o Zeca já sabia que a gente tava vindo. Das duas, uma: ou minha imitação de Roberto foi uma merda e ele logo sacou tudo, ou alguém aproveitou uma parada na estrada para ligar pra ele e avisar. Quem poderia ser? perguntou sarcasticamente olhando para o banco de trás, aonde Mariana se deixava ficar quase deitada, a cabeça encostada à janela, sentindo uma profunda lassidão, um anestesiamento do próprio corpo. Por fim, ela disse:

- Você não acredita em mim, né?

Ele achou graça na pergunta.

- Espera. Por que você tá dirigindo pra Montreal? Ficou louco? A gente vai ser pego com certeza, a gente tem que fug...
- Eu vou acabar essa coisa agora.
- Você sabe onde o Zeca tá?
- Não. Mas você sabe. E vai me dizer.

Mariana ficou algum tempo olhando pra estrada. Perguntou:

- Você perdeu a esperança, Dani? De ter uma vida normal? De viver o futuro que você nasceu pra ter?

Ele hesitou antes de responder:

- Acho que enquanto você estiver por perto eu vou sempre ter alguma esperança. E então? Pra onde devo dirigir?

Eles chegavam a Montreal. Ela apontou a placa que dizia Vieux-Port.

- Com alguma sorte os pegamos antes deles partirem.
- Partirem? Quem? Pra onde?
- Zeca e nosso amigo, o assessor do ministro. Se eu entendi alguma coisa dessa barafunda, os dois devem estar indo gastar o que lucraram com essa história de atentado na Espanha numa certa ilha na região dos lagos.

Sirenes começaram a tocar e a pintar de vermelho o retrovisor. Daniel pisou mais fundo. Dirigindo com a sanha dos assassinos recém-nascidos, conseguiu chegar antes que os policiais o parassem. Pegou a maleta de ferro que Azhad mantinha sob o banco do carro, dentro da qual guardava um velho lança-granadas da Guerra do Vietnã, e saiu correndo os diversos piers do porto, procurando por alguma coisa. Mariana veio atrás. Seria quase impossível encontrar alguma coisa no meio daquela infinidade de barcos, mas ele interceptou um furtivo olhar dela e correu naquela direção.

Enfim localizou um iate preparando-se para zarpar, sobre o qual dois homens bebericavam vinho e davam risadinhas sardônicas.

- Zeca, seu resto de aborto - ele vociferou tirando a arma de dentro da maleta - eu tenho um presentinho pra você!

Antes que os dois pudessem esboçar qualquer reação Daniel atirou, enchendo o céu de fumaça. Zeca lançou-se ao chão protegendo a cabeça, mas nada aconteceu. O projétil prendera-se à parede do iate, ao lado do assessor em pânico, e ali ficara, girando sem explodir. Era velho demais.

Zeca levantou-se tirando a arma do coldre e gargalhando enquanto a apontava para Daniel.

- Seu corno metido a besta, és um incompetente mesmo! Então se safou da minha festinha lá na fundição, é? Foi bom, eu queria mesmo conhecer um energúmeno tão completo assim, de perto.

As sirenes tomaram conta da plataforma, policiais corriam na direção de Daniel e Mariana.

- Quer saber? Acho que vou deixar você viver pra conhecer o sistema prisional do Canadá. Coisa de primeiro mundo, pode ficar tranqüilo. Mas tem um lugarzinho pra você aqui, Mariana - disse, dando tapinhas no assento ao seu lado.

Daniel a olhou expectante. Ela perguntou:

- E a Maíra?

Zeca deu de ombros e gargalhou. Mariana virou-se para Daniel e disse:

- Acho que você já pode começar a perder as esperanças - e pulou para dentro do barco segurando na mão estendida de Zeca. O barco zarpou imediatamente. O atônito Daniel não conseguia tirar os olhos de Mariana, que o fitava com olhar ambíguo enquanto ele era cercado pelos policiais e atirado ao chão. Mariana parecia esperar alguma coisa. Quando estavam distantes o bastante, sorriu para Daniel, desprendeu-se da mão de Zeca e atirou-se contra a granada que continuava girando.

Aquele cheiro de carne não desapareceria jamais.

[fim]

Posted by marcol at 4:38 PM | Comments (15)

junho 6, 2006

As feições do vazio

1. Tales, o cliente predileto. O cliente perfeito. O mais querido na tacanha locadora que se espreme em cima da padaria, entre o dentista e a imobiliária. Tales é o que é pelo simples fato de que vê todos os filmes. Todos. Não importa o estilo, o diretor, o elenco, não importa absolutamente nada. O simples fato de ter ganho as prateleiras da locadora é razão para ele alugar.

Quatro noites por semana ele adentra o local com seu olhar irrequieto e pergunta se tem coisa nova. Pega um sem mal olhar, paga, diz o mesmo muito obrigado quase em falsete, coloca o saquinho laranja embaixo do braço e desce seu corpanzil gigantesco escada abaixo. Aí passa na pizzaria, pega uma brotinho e uma cerveja e vai para casa.

Foi o funcionário novo que fez o comentário errado. Espantando de vê-lo ali pela décima vez em menos de vinte dias, observou impressionado:

- Puxa, seu Tales, o senhor realmente gosta de ver filmes, hein?

Tales olhou para ele com uns olhos de incompreensão a toda prova, seguidos de olhos inexpressivos antes de responder:

- Na verdade não. Quer dizer, tanto faz.

E desceu a escada atabolhadamente, com seu filme da noite sob o sovaco.

* * * *

2.
Havia sido um poeta concretista de primeiríssima grandeza. Freqüentara as mais criativas rodas intelectuais da cidade. Participara de filmes. E encontrara-se obsoleto, vivendo entre gatos de um apartamento velho de uma zona decadente.

Andando a esmo em plena tarde, surpreendeu-se [para seu extremo horror] segurando o panfleto de empréstimo pessoal: "Para acertar a sua vida - Crédito fácil e descomplicado!" que lhe havia sido extendido. Voltou para seus gatos sentindo-se cansado.

Posted by marcol at 4:16 PM | Comments (1)

junho 1, 2006

Está valendo!

A iniciativa palpiteira-futebolística da Verbeat está no ar. O nome foi uma escolha natural e até meio óbvia: verbütsfussballbloge.

O time reunido para esse exercício de babação ludopédica foi:

Fer Funchal
Fabrício Kichalowsky
Filipe Gonçalves
Idelber Avelar
Milton Ribeiro
Pimenta Malagueta
Paulo José Miranda
Ubiratan Leal

Como se vë, um timaço intercontinental e não adstrito aos limites da Verbeat. Eu também estou lá, mas só fui convocado graças ao corte lastimável do Maradona. A gente lamenta pelo companheiro, mas vai lá tentar mostrar nosso trabalho, sempre com muita humildade, respeitando o adversário e respeitando os colegas de time, mas tentando fazer o que o professor pedir.

Além dos posts principais, há ainda um placar com os últimos resultados e uma coluna especialíssima na qual as mulhezada que são analfabetas confessas no futebol analisam aspectos mais anatômicos dos jogadores.

O template ficou muito bonito, corre lá e beba Copa.

Posted by marcol at 11:58 AM | Comments (2)