janeiro 30, 2006
Histórias sem fim
Ontem eu refestelado no colchão degustando meu recém adquirido DVD de Sete Samurais, do Kurosawa. Coisa boa, coisa fina. Quase três horas que passam voando, imagens belíssimas, enredo eficiente, direção segura e equilibrada. Hora de botar o segundo disco, cadê as legendas em português?

Simplesmente não tem. "Que raios, vai em inglês mesmo" eu me conformo, consolando-me com o fato de estar treinando meus esparsos conhecimentos da língua de Sidney Sheldon (desculpem, escrever Shakespeare é muito complicado) e com o fato de que o segundo DVD é a hora do quebra-pau mesmo e quase não deve ter diálogo.
A coisa anda muito bem muito bem. Chega o fim do filme, aquela coisa belíssima e a última fala do samurai mais idoso e... catzo, cadê a legenda na última fala do homem? Necas. Na última fala. O "legendador" ficou com tendinite e quando viu o último bandido morrer achou que o filme tinha acabado, sei lá. O jeito é acreditar que a última fala tenha sido algo profundo e belo que eu jamais saberei.
Remeteu-me à deliciosa leitura de O Nome da Rosa, do Umberto Eco. Eu havia ouvido falar que o filme de Jean Jacques Annaud era uma redução drástica da obra a um filminho policial e queria tirar a prova. Fiquei com a idéia de que o filme continua sendo excelente e que transpor toda a tensão anti-heresia do livro seria mesmo impossível.
Mas aí chega o último parágrafo do livro. Justamente aquele que explica o porque de o negócio se chamar "O nome da rosa", e não outra coisa qualquer, como "Assassinatos no Mosteiro", "O monge doidvanas", "Loucuras na Idade Média" ou "O último a morrer é mulher do padre". E como está o tal último parágrafo? Todinho em latim. Sim, sim. Pergunte-me porque o nome do livro que eu li tem o nome que tem.
O que me remeteu a um pouco mais de dez anos atrás, quando passei uma semana de férias na casa dum amigo em Brasília. A Bandeirantes teve o bom gosto de resolver transmitir Era uma vez na América, do Sergio Leone, só que em duas partes, cada uma numa das noites daquela semana. O galho é que os pais do meu amigo queriam dormir e a condição pra gente conseguir ver a parada era com o volume no mínimo. Pois bem: segundo dia de exibição, parece que o filme vai se resolver. Robert de Niro entra numa sala onde Elizabeth MacGovern está. Começa um diálogo revelador. A trama misteriosa e extremamente bem urdida dessa obra prima está a ponto de ser decifrada.
E então o que acontece? Entra pela Asa Sul uma carreata (sim, de caminhões) com buzinaço. Os caras vinham de algum rincão inóspito do país protestar contra alguma política agrária obscura e meu amigo e eu desesperados grudando o ouvido na televisão pra tentar entender.
Nesses casos aí, nem que eu quisesse conseguiria cortar o barato de alguém contando o final.
Posted by marcol at janeiro 30, 2006 1:53 PM
Comments
Que sacanagem. Eu tive um problema assim com o filme After Hours. Assistia sempre ao fim do filme, nunca conseguia ver o começo. Uns 15 anos depois, graças ao on-demand da Comcast que permite que você veja toda sorte de velharias de graça pude assistir ao filme completo. Menos um problema para as sessões de análise que eu venha a ter.
Posted by: Zarastruta at janeiro 31, 2006 1:51 AM