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janeiro 27, 2006

Ruínas

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Um tanto defasado, eu sei, mas só agora foi que vi As invasões bárbaras, do canadense Denys Arcand. Pra quem está mais defasado que eu: o filme narra os últimos dias da vida de um professor universitário que incorporou os ideários esquerdizantes e libertários que se sucederam em ondas pelo século XX afora, especialmente os ideais de sexo livre, que de tão incorporados acabaram por fragmentar sua família (ou seja, o cara era um galinha).

Numa cena central no filme, ele e seus amigos intelectuais começam a enumerar todos os "ismos" por que passaram, começando pelo existencialismo, passando por comunisimo, marxismo-leninisimo, trotskysmo e uma penca de ismos, muitos dos quais eu nem nunca ouvi falar. Eles terminam chegando à conclusão de que nada daquilo ajudara a encontrar sentido algum na existência. Em outra cena importante, o professor confessa seu medo de morrer e diz que não aprendeu nada, estava tão despreparado como quando chegou.

Às voltas com um sistema de saúde pública precário, pelo qual em seus ideias socialistas ele lutou a vida toda, só alcança algum conforto no final da vida graças ao filho que desprezava por não ser intelectual como ele. Capitalista, começa a subornar todo mundo que vê para levar o pai a um quarto melhor e a condições mais dignas.

Vi em As invasões bárbaras uma mensagem parecida com a da Montanha Mágica, de Mann, ou seja, um desencanto profundo com todas as ideologias construídas pelo homem. Toda tentativa humana de explicar a vida e de dar-lhe um sentido e um norte, e que começa com brilho, pompa e aplausos, acaba como ruínas inútes apenas algumas décadas depois.

Os ismos parecem utópicos e impotentes diante de um mundo metade voltado para os "opiáceos" de sempre (religião), que eles pretendiam substituir, e metade voltado para uma forma de materialismo e individualismo elevados à máxmia potência, enquanto morre-se de fome, devasta-se a natureza e caminha-se a passos firmes para a insustentabilidade extrema. E o curioso é notar que a ruína das ideologias acontece pela insubsistência delas próprias. São construções humanas e no fim das contas o homem é o mesmo desde sempre. Ele continua preso à caverna de que falou Platão.

Catzo, esse filme rendeu.

Mas não posso terminar sem observar que muita gente entendeu o filme de forma completamente diversa: que as ideologias foram traídas e teriam mesmo criado o mundo perfeito por aqui se não fosse o poder sedutor do capital.

Pode ser, há várias leituras possíveis da realidade e isso mostra a virtude máxima do filme, muito além da bela fotografia e da atuação magnífica de Marie Josée Crozé: As invasões bárbaras é uma das melhores e mais abrangentes radiografias do nosso tempo que conheço. Uéu, como estou assim defasado, é bem capaz que existam outras.

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Posted by marcol at janeiro 27, 2006 9:22 AM

Comments

Meu caro MARCÃO,
O de que mais gosto no filme é que o humano manda em tudo mais. Há uma amostra perfeita de que o cristianISMO é maior em tudo.
Há uma doce Esperança em meio à fadiga dos demais ismos. Eu gosto muito do filme e, se é possível confessar: chorei com este filme.
Amitiés,
BetoQ.

Posted by: Zadig at janeiro 28, 2006 3:33 PM

Adoro esse filme. E adoro vê-los em sequência: O Declínio do Império Americano e As Invasões Bárbaras, como vi sexta passada.

Posted by: Márcia at janeiro 27, 2006 11:14 PM

Acredito que as ideologias, construções humanas para o bem comum, não duelam diretamente com o instinto. Creio que elas são resultado de parte do instinto.
Se algum dia chegarão a mudar em grande escala o mundo, não sei. Mas tem seu valor como influência, enquanto isso...
E enquanto isso, ânimo...

[]´s

Posted by: Baiano at janeiro 27, 2006 4:44 PM

Acredito que as ideologias, construções humanas para o bem comum, não duelam diretamente com o instinto. Creio que elas são resultado de parte do instinto.
Se algum dia chegarão a mudar em grande escala o mundo, não sei. Mas tem seu valor como influência, enquanto isso...
E enquanto isso, ânimo...

[]´s

Posted by: Baiano at janeiro 27, 2006 4:42 PM

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