janeiro 17, 2006
Meu top top personalíssimo da HQ tupiniquim
Hoje de manhã vim no caminho lembrando dumas histórias em quadrinhos geniais que li ao longo dos anos 90. Minha predileção por artistas à margem do dilúvio de aplausos da grande massa se evidenciou aí, porque só lembrei de caras como Spacca, Fernando Gonzalez e Laerte.

Este último é o mais famoso dos três, mas o resto do povo da minha geração preferia muito mais Glauco e seu Geraldão (que considero muito fraco e repetitivo) e Angeli.
Há algo de heróico nesses caras que publicavam-se do jeito que dava, às vezes em esquemas semi-amadores. Eles jamais enriqueceram com seus traços (salvo ledo engano) mas continuaram firmes e fortes e parindo histórias e tiras absolutamente brilhantes.
Meu top top de histórias deles poderia começar com uma história do Laerte publicada acho que na finada revista Circo. Ele falava de um garoto que certo dia passa na frente do banheiro e vê sua mãe mijando de pé. A mãe, então, é forçada a assumir que é um homem. O pai é uma mulher e a irmã nem lembro o que era. Todo mundo se revela algo diferente do que parecia, era só localizar o zíper escondido nas costas. Ele mesmo tinha um e com enorme espanto descobriu que era negro. O final é clássico. A "mãe" faz um discurso emocionado sobre a liberdade que dá saber a verdade e o convida a sair correndo para a cidade. Ele sai correndo e mete a cara na parede. A cidade era falsa.
Spacca, que publicava no Níquel Náusea, tem várias história memoráveis, mas a melhor de todas é "Só o amor constrói", que narra o amor Cinderélico de uma "peã de obra" com o engenheiro bonitão e ricão, que mais tarde se revela um maníaco construtor de prédios que sempre desabam. Dentre os três cartunistas que cito, talvez Spacca seja o de melhor arte. Assim, a história fica valendo o dobro pela junção do argumento com o traço.
Fernando Gonzalez, contudo, é o grande gênio da coisa. O cara é brilhante. Não se pode dizer que ele desenhe bem, mas seu traço único e personalíssimo é absolutamente hilário. Muitas vezes a risada explode só de olhar pros seus tipos. Ele tem uma penca de histórias magníficas, mas tenho que citar quatro, todas publicadas na sua também finada Niquel Náusea:

1. O palhaço Carrapatim - conta a história dum palhaço muito, muito engraçado, que só de aparecer no circo já fazia todo mundo rachar de rir. De repente ele perde a graça. Ninguém mais ri de nada. Ele tenta de tudo e só recebe vaias. Aí começa a procurar a graça perdida por todos os cantos do circo: dentro dos peitos da mulher gorda, embaixo da barba da mulher barbada, embaixo da pata do elefante. Um dia, no meio do espetáculo, ele resolve procurar dentro do leão. Quando ele grita "achei! achei! ela está aqui", o leão fecha a boca e engole o palhaço e todo mundo racha de rir.
2. Outra que tem a ver com circo mostra um garoto chegando no vagão do dono do circo dizendo que queria uma vaga porque sabia imitar passarinho. O cara manda ele imitar e ele começa a assobiar lindamente. O mal-humorado empresário diz que sua imitação é um lixo e o manda embora, então ele sai do vagão chorando, batendo os braços como se fossem asas e sai voando.
3. Sempre alerta, Moofer Tugson - mostra o inusitado encontro dos escoteiros de Vila Jurubeba com Moofer Tugson, um homem que habita num castelo medonho e que sofre com uma maldição de jamais morrer ou dormir. Os sempre alertas escoteiros passam então a ajudar o sofrido Moofer a morrer, tentando nós de escoteiro para forca e outros métodos muito eficazes. Poucas vezes eu ri tanto.
4. Papo pra boi dormir - é um monólogo do Minotauro no labirinto, contando como é sua vida ali. Uma sucessão de piadas inusitadas com participação especial dos bichinhos do Pac Man.
Pena que nenhuma dessas histórias está nos sites dos caras.
Posted by marcol at janeiro 17, 2006 10:43 AM
Comments
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Posted by: jenny at março 24, 2006 6:57 PM
Isto me traz também boas recordações. Eu cheguei a ver muita HQ e tirinha ainda no final dos anos 70, quando era menino. O fato de estarmos em uma didatura forçava ainda mais o malejo desta galera, criando obras-primas da sutileza. Hoje, com tanta liberdade, as coisas são mais fáceis.
Posted by: Zarastruta at janeiro 21, 2006 4:34 AM
Depois de sua visita, só posso dizer:
- Sakhona!
Posted by: Cláudo Costa at janeiro 19, 2006 7:56 AM
Eu gostava algo do Aragonés, e dos Escrotinhos também...
Mas acho que não se classificam como os à margem.
Deu curiosidade de conferir estas histórias aí...
[]´s
Posted by: Baiano at janeiro 18, 2006 3:22 PM
Marcão!
De HQs não entendo nada.
Sobre o teu comentário no meu blog: mas que felicidade a de poder cantar Handel! Fico com inveja, boa inveja, mas inveja. "For unto us..." é uma das partes que mais gosto no Messias e não penso muito sobre os pobres cantores. Na verdade, costumo dar-me conta das dificuldades quando vejo ao vivo e nunca vi O Messias ao vivo. No mais, sou um ouvinte despreocupado com estas questiúnculas de músicos...
Conheço o Trinity College Choir de gravações - parece-me estupendo. E te digo que os ingleses estão superando todo o mundo na música pré-clássica. De Mozart para trás, eles estão mandando. Nascem solistas e conjuntos orquestrais e corais como nascem jogadores de futebol no Brasil. Os alemães chegam a fazer piadas sobre sua atual inferioridade nesta área que sempre foi de seu domínio. Dizem eles que ao menos os compositores ainda são nossos, apesar de até Handel e Haydn terem se bandeado para lá no finla da vida!
Gigantesco abraço.
Posted by: Milton Ribeiro at janeiro 18, 2006 3:10 PM
Tiagón, Negreiros é outro gigante, estava passando despercebido! Tiaguin, você tem uma parceria comigo, assim, eu tenho uma parceria com o cara que tem parceria com o Fernando Gonzalez, logo, eu sou animal pra dedéu! Fabiones, Angeli é mesmo o mais incensado de todos dessa turma aí. Confesso que só gosto dos cartuns políticos dele. Não gosto do Adão, Glauco e outros cartunistas do tipo sexo, drogas e rock'n roll. Cláudio, Sawu what? Prazer em conhecê-lo, anyway.
Posted by: Marco Aurelio Brasil at janeiro 18, 2006 11:03 AM
Boas lembranças: levam-me a releituras.
- Sawu bona!
Posted by: Cláudio Costa at janeiro 17, 2006 9:08 PM
concordo com o tiagón, o Angeli é ducaraio memo..
rê bordosa, os eskrotinhos, etc... sem falar no melhor de todos: bob cuspe!
Posted by: fabiones at janeiro 17, 2006 6:55 PM
Sou Fernando Gonzalez Futebol Clube e não abro... o cara tem umas sacadas "animais", mesmo.
Qual não foi minha emoção quando soube que uma reportagem minha ia ser ilustrada pelo cara.
Como os editores fizeram o meio de campo entre repórter e ilustrador, obviamente o cara não faz idéia da minha existência... mas eu, que não sou tão besta, considero uma parceria e tanto...
Posted by: Tiago Jokura at janeiro 17, 2006 5:25 PM
belas lembranças! eu sempre gostei muito desses três aí, e concordo contigo: o traço do Spacca é excelente (embora às vezes lhe faltasse roteiro, umas histórias meio soltas, sem desfecho...). outro grande desenhista que publicava no NN era o Negreiros, também.
mas quem sempre me faz gargalhar descontroladamente é o Angeli. saudades da Chiclete com Banana!
Posted by: tiagón at janeiro 17, 2006 1:38 PM