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janeiro 31, 2006

Rápidas e rasteiras

Todo Poderoso Google
Enquanto processava meu frugal desjejum ouvindo a Bandnews, um susto: Ricardo Boechat, o jornalista político, comenta que pela primeira vez Roberto Jefferson confessou haver recebido dinheiro de Furnas, manobra dentro do esquema caixa 2 pra todo lado. Aí o Carlos Nascimento, âncora do jornal, manifesta dúvida se isso já não tinha sido feito no meio daquela enxurrada de lama do ano passado, ao que o Boechat responde algo assim: "pois é. Ontem eu consultei duas fontes para tirar isso a limpo: o senador Delcídio Amaral e o Google (!!!!!!) e tanto um como outro me confirmaram que isso não havia sido confessado com todas as letras não..."

Alguém aí ainda não sabe porque Google é a marca mais admirada dos EUA? Aliás, adivinhem a quem eu recorri pra confirmar se o primeiro nome dele era Ricardo...

Escatologia?

Tá na moda referir-se a coisas nojentas, recheadas de secreções corporais em todos os estados físicos, como sendo escatológicas. Engraçado ver a evolução da língua. Escatologia, sengudo Merlin Alomia, é "a ciência dos eventos finais", portanto um anexo da teologia. Acho que essa aplicação apócrifa e secular do termo se explica porque a escatologia muitas vezes tem que lidar com descrições estranhas e assustadoras de algumas profecias bíblicas. Coisas como homens com pés de latão reluzente e cabelos como lã com espadas que saem da boca, ou cavalos com rabos de serpente ou animais com muitas cabeças e chifres. Depois de ultrapassada a barreira de estranhamento dessas imagens todas, contudo, a escatologia (no sentido tradicional da palavra) perde tudo o que tem de escatológica (no sentido contemporâneo do termo) e se torna uma fonte de conhecimento interessantíssimo.

Faltou

Minhas desventuras com finais de filmes não se resumem às descritas no post de ontem. Faltou lembrar ainda de Muito Além do Jardim, que figura entre meus filmes prediletos (até já falei dele aqui no blog) sem que eu jamais tenha visto seu final. Botei pra gravar no video-cassete e pra variar a programação da TV atrasou e o filme acabou um pouco além da metade. Em compensação, ganhei um Jornal da Globo inteirinho. Uau.

Faltou lembrar também de Doutor Jivago. Não, nesse não houve falta de legendas no final, carreatas inoportunas ou fitas que acabam antes do filme. Nesse caso a culpa é do filme mesmo, que termina daquele jeito estúpido, sem mais nem mais. Ora pois.

Tremei! A era dos blogs chegou!

Reportagem de capa na revista Exame: Os blogs vão mudar seus negócios. Um trechinho:
"As empresas perderam o privilégio da informação", diz Ronald Mincheff, presidente da Edelman, uma das maiores agências de relações públicas do mundo. "A opinião de uma pessoa comum, sem os filtros dos meios de comunicação tradicionais, ganha cada vez mais credibilidade." Um estudo feito em setembro do ano passado mostra que mais da metade dos blogs mais influentes do planeta publica pelo menos um comentário semanal sobre empresas, seus funcionários ou produtos. ...Há inúmeras maneiras de falar na internet, mas nenhuma é tão poderosa e tão revolucionária como o blog. Em pouco mais de três anos, a tecnologia passou de um hábito adolescente para um fenômeno mundial. Existem 34 milhões de blogs no mundo. Todos os dias, 70 000 novos diários online são criados e, a cada minuto, 500 deles são atualizados. Mães falam do bebê recém-nascido, estudantes reclamam dos professores, aspirantes a escritor publicam poesias, prostitutas relatam sua rotina e, por que não?, presidentes de empresas falam de negócios. Jonathan Schwartz, presidente da fabricante de computadores Sun, mantém um blog há um ano e meio. "Como o e-mail, o blog não vai ser uma questão de escolha. Acredito que em dez anos, todos os líderes vão ser obrigados a se comunicar diretamente com clientes, funcionários e parceiros. Porque, se você não participar da conversa, outros falarão no seu lugar.", disse. Mincheff concorda: "O consumidor confia mais na informação do presidente de uma empresa, do que numa obtida através do site ou pelo telemarketing", diz. "A empresa ganha um rosto."

Fonte: KibeLoco

Posted by marcol at 10:11 AM | Comments (7)

janeiro 30, 2006

Histórias sem fim

Ontem eu refestelado no colchão degustando meu recém adquirido DVD de Sete Samurais, do Kurosawa. Coisa boa, coisa fina. Quase três horas que passam voando, imagens belíssimas, enredo eficiente, direção segura e equilibrada. Hora de botar o segundo disco, cadê as legendas em português?
samurai.gif

Simplesmente não tem. "Que raios, vai em inglês mesmo" eu me conformo, consolando-me com o fato de estar treinando meus esparsos conhecimentos da língua de Sidney Sheldon (desculpem, escrever Shakespeare é muito complicado) e com o fato de que o segundo DVD é a hora do quebra-pau mesmo e quase não deve ter diálogo.

A coisa anda muito bem muito bem. Chega o fim do filme, aquela coisa belíssima e a última fala do samurai mais idoso e... catzo, cadê a legenda na última fala do homem? Necas. Na última fala. O "legendador" ficou com tendinite e quando viu o último bandido morrer achou que o filme tinha acabado, sei lá. O jeito é acreditar que a última fala tenha sido algo profundo e belo que eu jamais saberei.

Remeteu-me à deliciosa leitura de O Nome da Rosa, do Umberto Eco. Eu havia ouvido falar que o filme de Jean Jacques Annaud era uma redução drástica da obra a um filminho policial e queria tirar a prova. Fiquei com a idéia de que o filme continua sendo excelente e que transpor toda a tensão anti-heresia do livro seria mesmo impossível.
nomedarosa Mas aí chega o último parágrafo do livro. Justamente aquele que explica o porque de o negócio se chamar "O nome da rosa", e não outra coisa qualquer, como "Assassinatos no Mosteiro", "O monge doidvanas", "Loucuras na Idade Média" ou "O último a morrer é mulher do padre". E como está o tal último parágrafo? Todinho em latim. Sim, sim. Pergunte-me porque o nome do livro que eu li tem o nome que tem.

O que me remeteu a um pouco mais de dez anos atrás, quando passei uma semana de férias na casa dum amigo em Brasília. A Bandeirantes teve o bom gosto de resolver transmitir Era uma vez na América, do Sergio Leone, só que em duas partes, cada uma numa das noites daquela semana. O galho é que os pais do meu amigo queriam dormir e a condição pra gente conseguir ver a parada era com o volume no mínimo. Pois bem: segundo dia de exibição, parece que o filme vai se resolver. Robert de Niro entra numa sala onde Elizabeth MacGovern está. Começa um diálogo revelador. A trama misteriosa e extremamente bem urdida dessa obra prima está a ponto de ser decifrada.

E então o que acontece? Entra pela Asa Sul uma carreata (sim, de caminhões) com buzinaço. Os caras vinham de algum rincão inóspito do país protestar contra alguma política agrária obscura e meu amigo e eu desesperados grudando o ouvido na televisão pra tentar entender.

Nesses casos aí, nem que eu quisesse conseguiria cortar o barato de alguém contando o final.

Posted by marcol at 1:53 PM | Comments (1)

janeiro 27, 2006

Ruínas

invasoes-barbaras01.jpeg

Um tanto defasado, eu sei, mas só agora foi que vi As invasões bárbaras, do canadense Denys Arcand. Pra quem está mais defasado que eu: o filme narra os últimos dias da vida de um professor universitário que incorporou os ideários esquerdizantes e libertários que se sucederam em ondas pelo século XX afora, especialmente os ideais de sexo livre, que de tão incorporados acabaram por fragmentar sua família (ou seja, o cara era um galinha).

Numa cena central no filme, ele e seus amigos intelectuais começam a enumerar todos os "ismos" por que passaram, começando pelo existencialismo, passando por comunisimo, marxismo-leninisimo, trotskysmo e uma penca de ismos, muitos dos quais eu nem nunca ouvi falar. Eles terminam chegando à conclusão de que nada daquilo ajudara a encontrar sentido algum na existência. Em outra cena importante, o professor confessa seu medo de morrer e diz que não aprendeu nada, estava tão despreparado como quando chegou.

Às voltas com um sistema de saúde pública precário, pelo qual em seus ideias socialistas ele lutou a vida toda, só alcança algum conforto no final da vida graças ao filho que desprezava por não ser intelectual como ele. Capitalista, começa a subornar todo mundo que vê para levar o pai a um quarto melhor e a condições mais dignas.

Vi em As invasões bárbaras uma mensagem parecida com a da Montanha Mágica, de Mann, ou seja, um desencanto profundo com todas as ideologias construídas pelo homem. Toda tentativa humana de explicar a vida e de dar-lhe um sentido e um norte, e que começa com brilho, pompa e aplausos, acaba como ruínas inútes apenas algumas décadas depois.

Os ismos parecem utópicos e impotentes diante de um mundo metade voltado para os "opiáceos" de sempre (religião), que eles pretendiam substituir, e metade voltado para uma forma de materialismo e individualismo elevados à máxmia potência, enquanto morre-se de fome, devasta-se a natureza e caminha-se a passos firmes para a insustentabilidade extrema. E o curioso é notar que a ruína das ideologias acontece pela insubsistência delas próprias. São construções humanas e no fim das contas o homem é o mesmo desde sempre. Ele continua preso à caverna de que falou Platão.

Catzo, esse filme rendeu.

Mas não posso terminar sem observar que muita gente entendeu o filme de forma completamente diversa: que as ideologias foram traídas e teriam mesmo criado o mundo perfeito por aqui se não fosse o poder sedutor do capital.

Pode ser, há várias leituras possíveis da realidade e isso mostra a virtude máxima do filme, muito além da bela fotografia e da atuação magnífica de Marie Josée Crozé: As invasões bárbaras é uma das melhores e mais abrangentes radiografias do nosso tempo que conheço. Uéu, como estou assim defasado, é bem capaz que existam outras.

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Posted by marcol at 9:22 AM | Comments (4)

janeiro 24, 2006

Cenas televisivas que gostaríamos de ver (à moda de MAD):
1–

Gugu Liberato saúda o auditório, que vai à loucura, e dispara logo de cara a primeira atração da tarde:

- Ele é sucesso no Brasil e no exterior; já recebeu noventa discos de platina e cento e dezessete discos de ouro; Chico Buarque!

O público se descabela em frenesi, Chico entra cantando “Todo o sentimento”. Ao terminar o número, Gugu pergunta como se dá o processo criativo do compositor, que gramáticas e dicionários ele consulta, o que acha do avanço do processo democrático no Brasil, o que ele tem lido e termina pedindo para ele cantar “A moça do sonho”, confessando:

- Essa música é muito importante para mim.

2 –

Na novela mexicana, Esmeralda Aspásia ingressa na sala sem maquiagem, com os cabelos penteados singelamente, porque é de manhã e ela não trabalha, logo, não precisa de grandes produções cosméticas. Arlindo Arnolfo, que lia “Cem anos de solidão” de Gabriel Garcia Marques, deixa o livro de lado e diz:

- Esmeralda Aspásia, finalmente. Preciso conversar com você, estou esperando há algum tempo.
- Oh, pois não, Arlindo Arnolfo.
- É que... bem, não a amo mais! Precisamos terminar nosso relacionamento, não posso mais viver algo que não é verdade.

Esmeralda Aspásia sorri e responde:

- Oh, Arlindo Arnolfo, eu vinha pensando o mesmo! Parece que nosso relacionamento não se desenvolve, não progride, e não passamos de bons amigos! Espero que possamos continuar assim.
- Claro, Esmeralda Aspásia, claro! Opa, o que foi isso? Você peidou?
- Desculpe – Esmeralda Aspásia ri embaraçada.

3 –

Mr. Muscle entrevista Ronald “Conan” Brown, e a dublagem é perfeita:

- Ei, Conan, explique para nós o que o Abdominator Mega Extra Plus Fortificator fez por você e por esse corpo sarado.

- Com prazer, Muscle. Veja, eu já era campeão de fisioculturismo da Liga Leste, mas estava meio quebrado, tendo que animar festas de velhinhas para conseguir pagar a pensão das minhas três ex-esposas. Aí comecei a fazer propaganda para o Abdominator Mega Extra Plus Fortificator e consegui um grana extra.

- Sim, mas e o abdômen?

- Ta legal, quer colocar a mão?

- Estou querendo dizer: você não sente que o Abdominator Mega Extra Plus Fortificator ajudou a definir os teus músculos?

- Não, o que define mesmo os músculos é comer direitinho e malhar bastante.

4 –

William Bonner está anunciando a matéria sobre o ataque terrorista a um pet shop em Vladivostok:

- O dono da loja, três cães bassê, um pequinês e um poodle morreram e um pastor alamão ficou gra...

Nesse momento se ouve um profundo suspiro. Bonner interrompe a frase e olha desafiadoramente para Fátima Bernardes:

- O que foi?

- Pastor alamão? ela pergunta cheia de ironia.

- Eu não falei isso!

- Falou, sua anta! Você comeu bola de novo!

- Ah, eu comi bola, é? Está com a consciência pesada por ter esquecido os trigêmeos na banheira hoje de tarde e agora quer me diminuir! Que mesquinhez, fofitcha!

- Já falei pra você parar de me chamar por esse nome estôpido!

- Ahá, tá vendo?

- O que?

- EstÔpido? O que significa isso?
5 –

Rubens Ewald Filho vem a público, em cadeia de rádio e televisão, anunciar:

- Esta semana não haverá transmissão de Te vi na TV, É show, Super Pop, programas de fofoca em geral, Sandy e Junior, Cidade Alerta, Linha Direta, Pegadinhas do Mallandro e outros lixos. No lugar, as emissoras, unidas, exibirão o festival Ingmar Bergman. Na próxima semana será a vez de Fellini e na outra Zibgniew Kieslowski.


É melhor parar por aqui.

Posted by marcol at 2:59 PM | Comments (13)

janeiro 19, 2006

Ainda um imberbe navegador pela blogosfera e inapto com RSS e tecnologias afins, eu uso minha própria lista de links para navegar por aí quando surge uma fenda espaço-temporal e eu consigo tempo pra isso. Por isso foi que decidi ter uma lista de links bem enxuta, mantendo só as coisas que eu realmente gosto de ler e limpando de tempos em tempos, quando um blog fica inativo.

Fazia séculos que eu não mexia nela, especialmente para acrescentar alguma coisa, mas nos últimos tempos descobri algumas coisas bem legais. Aí nos comentários apareceram Hemetério e Cláudio Costa (do Prascabeças), cujos blogs revelaram bons e substanciosos escreventes. Além deles, achei o blog do Michelson Borges, conforme relatei abaixo.

Mas nem apenas de novos amiguinhos aparecem coisas bacanas. Tenho achado pepitas em destinos velhos conhecidos. Tiagón, por exemplo (do Bereteando), tascou um tratado sobre pizzas, hilário, genial e tresloucado como tudo o que ele escreve. No canto iluminado do ringue, Milton Ribeiro escreve sobre Handel, enquanto Nelson (do Ao Mirante, Nelson!) narra um ritual de exorcismo às avessas (inorcismo, mais uma de suas estocadas na fé, que eu só recomendo porque é realmente brilhante). Carol (do "Ah, é?") também tá esbanjando verve cômica nas narrativas. Tudo isso é muito bom.

**************

Oração de quinta-feira:

"Obrigado, Senhor, porque ainda tem tanta coisa boa pra ler nesse mundo".

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Faltou comentar no post anterior que muito da genialidade dos meus cartunistas tupiniquins dos anos 80/90 preferidos reside em que suas obras são tão diferentes de tudo. Parece que não herdaram muita coisa do que se via em HQs por aí, pegaram uma forma de expressão e reinventaram tudo. Claro que eles têm ascendentes, como o pessoal da Pasquim e alguns estrangeiros, coisa que só descobri mais tarde, mas a impressão que sempre me deram foi de construírem castelos no ar. Eles não falavam o que todo mundo queria ouvir. Falavam o que ouviam de dentro.

Posted by marcol at 2:43 PM | Comments (5)

janeiro 17, 2006

Meu top top personalíssimo da HQ tupiniquim

Hoje de manhã vim no caminho lembrando dumas histórias em quadrinhos geniais que li ao longo dos anos 90. Minha predileção por artistas à margem do dilúvio de aplausos da grande massa se evidenciou aí, porque só lembrei de caras como Spacca, Fernando Gonzalez e Laerte.
spacca
Este último é o mais famoso dos três, mas o resto do povo da minha geração preferia muito mais Glauco e seu Geraldão (que considero muito fraco e repetitivo) e Angeli.

Há algo de heróico nesses caras que publicavam-se do jeito que dava, às vezes em esquemas semi-amadores. Eles jamais enriqueceram com seus traços (salvo ledo engano) mas continuaram firmes e fortes e parindo histórias e tiras absolutamente brilhantes.

Meu top top de histórias deles poderia começar com uma história do Laerte publicada acho que na finada revista Circo. Ele falava de um garoto que certo dia passa na frente do banheiro e vê sua mãe mijando de pé. A mãe, então, é forçada a assumir que é um homem. O pai é uma mulher e a irmã nem lembro o que era. Todo mundo se revela algo diferente do que parecia, era só localizar o zíper escondido nas costas. Ele mesmo tinha um e com enorme espanto descobriu que era negro. O final é clássico. A "mãe" faz um discurso emocionado sobre a liberdade que dá saber a verdade e o convida a sair correndo para a cidade. Ele sai correndo e mete a cara na parede. A cidade era falsa.

Spacca, que publicava no Níquel Náusea, tem várias história memoráveis, mas a melhor de todas é "Só o amor constrói", que narra o amor Cinderélico de uma "peã de obra" com o engenheiro bonitão e ricão, que mais tarde se revela um maníaco construtor de prédios que sempre desabam. Dentre os três cartunistas que cito, talvez Spacca seja o de melhor arte. Assim, a história fica valendo o dobro pela junção do argumento com o traço.

Fernando Gonzalez, contudo, é o grande gênio da coisa. O cara é brilhante. Não se pode dizer que ele desenhe bem, mas seu traço único e personalíssimo é absolutamente hilário. Muitas vezes a risada explode só de olhar pros seus tipos. Ele tem uma penca de histórias magníficas, mas tenho que citar quatro, todas publicadas na sua também finada Niquel Náusea:
níquel.gif
1. O palhaço Carrapatim - conta a história dum palhaço muito, muito engraçado, que só de aparecer no circo já fazia todo mundo rachar de rir. De repente ele perde a graça. Ninguém mais ri de nada. Ele tenta de tudo e só recebe vaias. Aí começa a procurar a graça perdida por todos os cantos do circo: dentro dos peitos da mulher gorda, embaixo da barba da mulher barbada, embaixo da pata do elefante. Um dia, no meio do espetáculo, ele resolve procurar dentro do leão. Quando ele grita "achei! achei! ela está aqui", o leão fecha a boca e engole o palhaço e todo mundo racha de rir.

2. Outra que tem a ver com circo mostra um garoto chegando no vagão do dono do circo dizendo que queria uma vaga porque sabia imitar passarinho. O cara manda ele imitar e ele começa a assobiar lindamente. O mal-humorado empresário diz que sua imitação é um lixo e o manda embora, então ele sai do vagão chorando, batendo os braços como se fossem asas e sai voando.

3. Sempre alerta, Moofer Tugson - mostra o inusitado encontro dos escoteiros de Vila Jurubeba com Moofer Tugson, um homem que habita num castelo medonho e que sofre com uma maldição de jamais morrer ou dormir. Os sempre alertas escoteiros passam então a ajudar o sofrido Moofer a morrer, tentando nós de escoteiro para forca e outros métodos muito eficazes. Poucas vezes eu ri tanto.

4. Papo pra boi dormir - é um monólogo do Minotauro no labirinto, contando como é sua vida ali. Uma sucessão de piadas inusitadas com participação especial dos bichinhos do Pac Man.

Pena que nenhuma dessas histórias está nos sites dos caras.

Posted by marcol at 10:43 AM | Comments (10)

janeiro 16, 2006

Michelson Borges é um jornalista cujo trabalho acompanho e admiro de longe há algum tempo. É um cara com a habilidade e coragem suficientes para opor a certas unanimidades um "espera aí, será mesmo?" Seus temas de interesse mais próximos são o duelo evolucionismo X criacionismo, tido aqui em terras tupiniquins como uma surra já sacramentada e esquecida em desfavor do último, e a questão do impacto da mídia na formação de opiniões e na construção de verdades culturais.

Imagine a minha felicidade quando descobri que o cara mantém um blog. Já devidamente linkado, espero que seja lido por alguém com pelo menos a metade da freqüência que eu pretendo ter.

Posted by marcol at 11:33 AM | Comments (2)

janeiro 12, 2006

Ontem vi uma boa parte do DVD "Tempo, tempo, tempo tempo" da Maria Bethania, recém saído do forno. Pra todo mundo que gosta de música brasileira, pelo menos daquilo que se convencionou chamar MPB, a coisa é um regalo único. Que show! Cenário perfeito, banda excelente, repertório magnífico e a tiazinha lá mandado bem demais! O grau de excelência da Maria Bethania passou das raias do simples bom gosto pras raias da Arte com a maiúculo.

O show é dominado por pout-pourris que correm de Vinícius e Tom, passam por Chico Buarque, andam pela Jovem Guarda, dão um rolê até por Raul Seixas e sei lá mais aonde vão porque não vi até o fim. Cada música em arranjos primorosos e com interpretações realmente emocionantes. De quando em quando ela pára o baile pra recitar poesias que ela desencava com precisão cirúrgica.

A questão do tempo tem pra ela uma conotação religiosa, devido à sua filiação ao Gantois, e isso dá mais sentido à proposta. Mas mesmo à parte disso e pulando as expressões de religiosidade que me incomodam um pouco, por serem tão diferentes das minhas, Tempo, Tempo, Tempo, Tempo é um banquete para os sentidos e para a razão. Evidente que não chegamos nem perto de fazer como Ney Matogrosso, que, quando numa dessas entrevistas "pinque-pongue", responde à pergunta "uma mulher bonita?" com "Maria Bethania". Tudo bem, é um banquete pros sentidos, mas ela continua feia de duer, que fique consignado aí.

Posted by marcol at 10:17 AM | Comments (4)

janeiro 10, 2006

Na dúvida, invente uma lista

Eu também inventei a minha e agora posso me gabar entre meus amigos que botei um post inteirinho novinho e tinindo no meu blog. Ei-la, pois:

Você não dava nada e te surpreendeu:
Na música: Los Hermanos, com o CD Ventura e Zizi Possi, com o Valsa Brasileira
Na literatura: Guys and dolls and other stories, do americano Damon Runyuon e Palavras e Sangue, do italiano Giovani Papini
No cinema: o melhor exemplo é o filme que o SBT batizou com o energúmeno nome de Garota Sinal Verde, do Rob Reiner, com o John Cusak. O nome idiota explica porque eu não esperava nada.

Você esperava muito e te decepcionou:
Na música: o último do Chico Buarque, As cidades
Na literatura: O Leopardo, do Príncipe de Lampedusa
No cinema: O marido da cabeleireira, um filme francês de doer, e A última tempestade, do David Cronnenberg, que é totalmente muito esquisito demais

Injustiçado:
Na música: The inspiral capets, banda inglesa que merecia melhor sorte do que teve
Na literatura: Cyro dos Anjos, disparado. É um mestre, especialmente em um livro chamado Abdias, e no entanto ninguém conhece. Também posso citar Osman Lins, que só é lembrado pelo recentemente levado às telonas Lisbela e o Prisioneiro.
No cinema: gosto muito duma ficção científica alegórica chamada Inimigo Meu, com o Dennis Quaid.

Incensado demais pelo que vale:
Na música: Rita Lee, que é medíocre.
Na literatura: Stendhal e Flaubert- até hoje não entendi onde se esconde a genialidade desses caras
No cinema: filmes como Sideways não me dizem picas

Vale o quanto pesa
Na música: Chico Buarque
Na literatura: tudo de Dostoievski, Tolstoi e Proust
No cinema: a trilogia das cores do Kieslowski

Você indicaria para o seu inimigo:
Na música: qualquer coisa do rock nacional atual, excluindo Pato Fu, Los Hermanos, Skank e, vá lá, Ira!
Na literatura: Um livro chamado A ordem do dia, de Márcio de Souza, que tive o desprazer de ler
No cinema: uma caixa com a carreira inteira do Kevin Costner, excluindo Sem Saída.

Posted by marcol at 1:02 PM | Comments (8)

janeiro 9, 2006

Os melhores nomes para sua iniciativa musical (sic)

Pois bem, sabido é que os (assim nominados) artistas envolvidos no mercado fonológico nacional, que preferem dizer "meio musical" (sic), com raríssimas exceções precisam prezar com todo zelo e afinco pela manutenção da incolumidade de seus parcos neurônios. Esses devem ser aplicados rigorosa e exclusivamente na confecção de refrões que esbanjem "uô", "ôu", "iê", rimas infelizes e também na criação de novas e sacolejantes coreografias. Com vistas, pois, a poupá-los de terem que pensar em qualquer outra coisa, fazemos o trabalho sujo por eles e aqui sugerimos alguns nomes de bandas e grupos. Assim eles podem fazer o que fazem melhor (sic).

Portanto, alguns prováveis nomes para...

bandas de forró:
a)Banda Ostras com Melado
b)Banda Atum com Farinha
c)Banda Manga com Leite
d)Banda Avestruz com Azeite
e)Banda Frango desossado à passarinha com molho de azeite dendê na moranga

cinco nomes de bandas de punk, hardcore, trashmetal, metal, industrial e/ou aquele negócio que o Marilin Manson faz e que é difícil de rotular:
a)Anjos caídos
b)Garras do Tinhoso
c)The Worms Eating My Liver
d)Blood Explosion Joy
e)Vômito do Diabo

cinco nomes para tecladistas/cantores de forró:
a)Ted Santos - o capivarinha frenética dos teclados
b)Roger Oliveira - o garotinho sensação dos teclados
c)Bob Soares - o leãozinho paid'égua dos teclados
d)Fred Camargo - o carrapatinho dos teclados
e)Bill de Deus - o bichinho quente do forró

cinco nomes de bandas de rap:
a)Passionais MCs
b)Emocionais MCs (rap feminino)
c)Fraternais MCs (rap católico carismático)
d)Anormais MCs (rap erótico de terceira linha)
e)Sacais MCs (rap filosófico da linha wittgensteiniana)

cinco nomes de duplas sertanejas:
a)Breno & Torroney
b)Rosencratz & Guildenstern (música caipira de temática shakesperiana)
c)Pinky & Cérebro (música sertaneja de visual extravagante e com idéia fixa em dominar o mundo)
d)Torresminho & Rococó (dupla com forte problema de identidade musical)
e)Proletário & Zé Ninguém

cinco nomes de boys band:

a) Peludo
b) Novos Garotos do Pedaço
c) Boiolagem
d) Estrondo Requebrativo
e) Fiverbeat (ops, esse já tem dono, sorry).

Agora é só escolher o seu e mandar bala, encher os bolsos de dinheiro e começar a freqüentar o Gugu.

Obs: De quando em vez me bate uma nostalgia de posts muito muito antigos. Este é o caso. Ressuscitei este post de dezembro/03. Na época ele já era plágio do Tiagón que por sua vez plagiara o Aran que plagiou vai saber quem. Só a última sessão é que é novinha em folha, turbinada pelo sucesso da Verbeat no Top 15 blogueiros sexy. Pra quem não sabe nem desconfia, aguardem. Em breve, nas paradas, ou melhor, nas sacolejadas de sucesso: Fiverbeat, o femônemo.

Posted by marcol at 11:56 AM | Comments (8)

janeiro 2, 2006

Janus, o deus romano dos portões e portas, é um tipo bem duas caras. Ou melhor, ele é sempre representado com duas caras, uma olhando pra frente e outra pra trás. Ou, se você preferir, uma cara sempre olha para um lado da porta e a outra olha para o outro lado.

Foi daí que saiu o nome do mês de Janeiro, o mês que está na porta, que olha para trás e para frente. Veja bem esta foto de Janus tirada pelo correspondente de É por aqui que vai pra lá? no Olimpo (ok, Olimpo é a morada dos deuses gregos, e não romanos, mas esses detalhes semânticos não vêm ao caso.:

janus-1.jpeg

Olhando para o ano que passou, ele fica envergonhado com tudo o que desfilou no nosso noticiário, desde escândalos nababescos de corrupção até notícias como a bombástica revelação de Caras, segundo a qual Caroline Bittencourt teria apresentado a filha a um avestruz (fiquei sabendo pela Ooops, e viva o ócio do entre-festas!) (a propósito, quem, raios, é Caroline Bittencourt?)(mais a propósito ainda: deixa pra lá, eu vou passar muito bem sem saber).

Olhando para o futuro, contudo, Janus sorri, pleno de satisfação. Ele vê paz, harmonia, o hexa do Brasil e os tetras do São Paulo. Nada de tragédias naturais. Eleições maravilhosas, nada de caixa 2, todos se abraçando e cantando We are the world. Ele vê um ano cheio de graça, wit e genialidade criativa e, sobretudo, o especial da Xuxa de fim de ano sendo cancelado com a exibição de "A dupla vida de Verónique" no lugar.

Espere um pouco. Aquilo é um sorriso de satisfação ou de sarcasmo?

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Os demógrafos dizem que a humanidade atingiu o seu espécime número 1 bilhão apenas na década de 1880. Ou seja, teriam sido aproximadamente 6000 anos para nascerem 1 bilhão de bacorinhos. Do 5º para o 6º bilhão, contudo, foram apenas 12 anos.

Hoje de manhã ouvi um papo no rádio entre Milor Fernandes e uns outros caras que não conheço, todos eles chorando o Rio de Janeiro, dizendo que mudou muito, tralalá. Meu, com uma explosão demográfica dessas os caras querem o quê? O mundo muda avassaladoramente, cumpadres, a gente tem que se dar conta que a realidade de hoje é mais precária que nunca foi.

Posted by marcol at 4:33 PM | Comments (7)