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dezembro 27, 2005

Noite escura, chuva fina, tarde da noite e o silêncio no carro. Percebo o enfado do meu filho na sua cadeirinha (bebê-conforto é o nome técnico). Sem mais nem mais desenterro, com voz de dublador do Bella Lugosi, um negócio que costumava ouvir na infância:

-À meia-noite, no cemitério, uma velhinha com uma faca na mão... passando manteiga no pão.

Ele adorou. Toda vez agora ele pede pra eu falar o negócio do cemitério. Tentei algumas variações, com um monstro de meleca e um descaroçador de azeitona na mão, ou então mudando o cenário do cemitério pra uma pizzaria, mas ele não gosta, tem que ser do jeito tradicional. Outra coisa que ele não gosta é de entrar na história. Se eu meto ele lá ele fica com medo. Diz "não, pai, não tem Dudu na história".

Então tá.

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Há uns bons anos visitei uma menina no Hospital Paulistano, que fica ali próximo à 23 de maio e à Beneficência Portuguesa. Ela ocupava anos a fio um quarto ali. Tinha 14 anos e uma doença degenerativa daquelas que dão angústia de ver, quanto mais numa criança. Na verdade ela tinha passado quase metade da vida naquele quarto e agora já não falava e praticamente não se mexia. Só conseguia mexer a cabeça. E sorrir, ela sorria muito amiúde. Espalhado pelas paredes e prateleiras de sua casa hospitalar, vestígios de suas duas grandes paixões: Jesus Cristo e o São Paulo Futebol Clube.

Não lembro seu nome. Não sei se ainda está viva. Se sim, em que condições. Mas dentre os pensamentos natalinos doces que me ocorreram este ano vi esta cena. Enfermeiros esbaforidos entrando no quarto e arrastando sua cama até a janela. Lá embaixo, na 23, a multidão saudando o time dela que voltava tricampeão do mundo e que sambava em cima de um trio elétrico. Imaginei aquele sorriso doce e plácido dela e lágrimas de alegria nos olhos. Quem sabe?

Posted by marcol at 6:16 PM | Comments (8)

dezembro 26, 2005

No apagar das luzes (desculpem a figura de linguagem chavonesca e metida a besta) desse ano da graça de nosso Senhor Jesus Cristo de 2005, a mira dEle lá de cima estava sobre mim. Eu andando por aí todo incauto e o "target" me cirandando a cabeça. Aí veio o canhonaço de benção: uma casa nova, tinindo, com marcas de tinta no carpete de madeira mas tinindo.

Lembrei do conto do Moacyr Scliar ("um homem que ainda não havia comprado a sua casa teve um ataque de angina..."). Posso ter ataques de angina porque comprei a casa da minha família. Aliás, estou comprando, pelos próximos 15 anos, mas meu nome tá lá na escritura. Glória a Deus.

O final da semana passada foi um rush desgraçado para conseguirmos fazer uma emblemática ceia de natal já na casa nova. Conseguimos, mas quase à custa da plena e escorreita incolumidade física. Em outras palavras, fiquemos esfalfados pela correria. E teve uma parte do armário do Dudu que não conseguiu subir as escadas, enfeitou a sala com seu verde claro em pátina nada a ver com nada e o pobrema ficou para ser resolvido hoje.

Depois do congraçamento natalino, dos abraços no sogro que a muito custo compareceu (para quem não sabe, foi atropelado há dois meses, conforme narrado aqui, e precisou duma cadeira de rodas e de muita paciência, dele e dos carregadores, me include, para poder sair de casa), eu resolvi estrear o sofá novo e acabei dormindo de boca aberta no meio de todo mundo. O mesmo no dia seguinte, depois do armoção natalino.

Nunca vi um presente de natal que desse tanto sono, mas eu não poderia querer outra coisa não.

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Enquanto isso, não muito longe dali, a Verbeat fazia a revelação de amigo secreto mais divertida da história. Cada verbeater participante precisava postar no dia 23 um post em homenagem ao seu verbeater amigo secreto. Saiu cada coisa hilária, tocante, emocionante, cortante, perfuro-contundente, acachapante, esfuziante e, por que não dizer?, eliminador de estrias e rugas também.

Evidente que muitas piadas só são inteligíveis para velhos freqüentadores de Verbeat ou por assíduos autistas da comunidade mais escalafobética do Orkut (que muda de nome toda semana, por isso não adianta eu dizer o nome: mas tente com algo como "the revenge of the goldfish.. o que?"), mas dá pra divertir-se à pampa seguindo os links aqui. .

Eu, por pura incompetência, não consegui entrar no sorteio e por isso não participei. Ainda assim, descobri que fui laureado com um post a quatro mãos na Comendo Carol Com Pauzinhos. E os manos me deram nada menos do que o time do Lakers!!!!

Pra terminar com outra figura de linguagem energúmena: rapazes, meus olhos marejaram de lágrimas. Oh.

Posted by marcol at 8:49 AM | Comments (1)

dezembro 20, 2005

Inevitável. Achei que escaparia este ano, com a descomunal carga de trabalho, mudança de casa prevista para a próxima quinta-feira, mil pepinos espoucando, são paulo tricampeão mundial de futebol, top 15 blogueiros sexy, enfim, achei que teria enchimentos suficientes para não experimentar a tradicionalíssima melancolia dezembrina. Mas nas frinchas dos instantes, entre uma corrida e outra, ela se inocula, entra de mansinho, insidiosa, sub-repticiamente. E se instala. Está ali, você sabe que ela está ali, só esperando um mínimo segundo de desatenção para reinar absoluta.

É por isso que sempre cito Drummond, dezembro após dezembro:

Dezembro.
E o que perdido foi
volta iluminado pelo claro pensar
e reanima-se o jogo eterno
(e vão?) o jogo da vida renascendo de si mesma

Mas a melancolia dezembrina não é de todo ruim. Aliás, bem ao contrário, é de uma estipe rara e azul de melancolia boa. Vem misturada com gratidão e aponta para um horizonte nebuloso mas digno de confiança. Reanima-se o jogo da vida que renasce, e o jogo não é vão.

Posted by marcol at 10:49 AM | Comments (8)

dezembro 19, 2005

tricolor_gg_reu.gif

Licencinha, por favor.

Posted by marcol at 5:16 PM | Comments (2)

dezembro 14, 2005

Top Blogueiros sexy

No meio das mensagens que pipocaram na minha caixa postal esses dias pareceu a de uma certa "Mulher Mistério" sob o título "NÃO É SPAM!! Concurso Top 15 blogueiros sexy".

Na mensagem eu era informado que seria finalista do tal concurso e a Mulher Mistério (imaginei alguém de burka delizando pelas sombras e sumindo de repente) me pedia para indicar a foto minha que eu mais gostava. Tava achando tudo muito surreal, mas embaixo havia uma lista de blogueiras que serviriam de juradas, o que conferia alguma credibilidade à coisa. Mais tarde visitei o blog da Leila, companheira de Verbeat e indicada como jurada da tal disputa e vi que, entre seus sempre certeiros posts políticos, havia a confirmação de que a coisa existe mesmo.

Respondi à "Mulher Mistério" que lembrar de mim nessa escolha revelava algum devio de padrões estéticos, mas que, se laureado, eu dedicaria esse prêmio às criancinhas, colocaria o feito no meu currículo e exigiria um aumento salarial (finalmente achei o argumento que me faltava para isso).

Quanto à foto, deixei as juradas bem à vontade para escolherem aquela que elas bem entenderem entre todas as quatro ou cinco que circularam pela blogosfera e fiquei feliz porque não optaram por esta aqui embaixo, "tirada" pelo Helio Serafino, meu colega no finado Ernestinho e Suas Mulatas Besuntadas:

Marcao.jpeg

O link para a lista completa dos saradões está aqui. Aliás, esse link o firewall da empresa aqui barra, mas lá tem foto, um texto que muitas vezes é melhor que a foto e uma música pra fazer a trilha sonora do cabra. Vale a visita.

Posted by marcol at 3:34 PM | Comments (21)

dezembro 13, 2005

O rei nu e a rainha pasmada

É que perdi a aliança de casamento e com isso me sinto nu. E estou correndo risco de vida, claro. Foi assim: casamento de amigos queridos pra dedéu (Tiago Jokura era o noivo, pra quem conhece. Ele mantém uma coluna na revista Mundo Estranho e conduzia o finado blog "Embrulho de Pão") lá em São Sebastião, belíssimo litoral norte paulista. Lá pelas tantas, meu filho, que, claro, tinha entrado como pajem, me pede pra brincar com a aliança. Achei engraçado, ele nunca tinha pedido isso. Deixei. Dali a pouco levanto pra deixar a Tatiana sentar e ela fica com ele, que adormece nos braços dela e deixa cair a aliança no gramado do hotel, onde acontecia a cerimônia.

Subindo a serra de Caraguatatuba horas mais tarde comento com a Tatiana que o Dudu tinha pedido a aliança e mil pontos de exclamação preenchem o ar dentro do carro e mãos na cabeça, interjeições irreproduzíveis e cabelos arrancados (modo de dizer, meus - poucos - cabelos não têm cumprimento suficiente para serem arrancados).

Aí é que entra um inusitado elogio a uma operadora de celular. Beijos no meu TIM. Ele não perdeu sinal em plena serra. Conseguimos ligar pro hotel, ainda tinha gente lá e botamos todo mundo de cócoras procurando aliança no gramado. Já atendi meu Tim no meio da estrada no interiorzão do Rio Grande do Sul, no meio duma praia distante em Aracaju e em uma penca de outros lugares insólitos. Salvou minha pele, dessa vez.

Recebi a notícia de que a aliança estava sã e salva com uma amiga atendendo a sua ligação no meio da festa de encerramento do ano da empresa. Eu tava lá, vendo barmans e bargirls rebolando em cima do balcão, me sentindo pelado sem a aliança e pensando na críitica de Malthus ao modus vivendi da Europa Ocidental do século XIX - foi nessa situação que descobri que minha mulher não me faria mais dormir na casa do cachorro.

Mas não ligue ainda! Amanhã começa o campeonato mundial de clubes para o tricolor paulista. Segura pião.

Posted by marcol at 6:43 PM | Comments (7)

dezembro 8, 2005

Alguém precisa provar pra mim que é mesmo dezembro. Afinal de contas, estou de blusa de frio. Afinal de contas, a pilha de trabalho não dá pinta de que vai tirar o pé do acelerador jamais.

Ok, decoração natalina, é verdade. Talvez esse ano tenha neve, tudo pode acontecer.

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Enquanto isso, não muito longe dali, vou terminando de ler Northanger Abbey, da Jane Austen. Ela é craque em enredos bobos na superfície mas contados com muita graça e lições de moral invulgares no fim. Leitura deliciosa sempre.

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Comprei Cidadão Kane e Os Sete samurais pra quem chegar lá em casa achar que eu sou um cara tipo cinema cabeça, ou "meu, olha isso, o cara comprou dvd de filme em branco e preto!". Só que aí o dvd player pifou e eu não posso ver os filmes pra dizer, com ar blasé, olhar perdido no nada "pois é, Kurosawa tem uma capacidade única de radiografar a alma humana, e seu mise-en-cene até hoje não foi superado."

Opa. Por que não? Huahahahaha

Posted by marcol at 6:40 PM | Comments (9)

dezembro 6, 2005

- Qual a lembrança mais distante que você tem?
- Um triângulo de sol recortado no chão da cozinha. Minha mãe junto às panelas.
- A minha é uma sensação de angústia.
- A minha também.
- Com a mãe do lado?
- É. Mas ela não estava olhando para mim.
- Minha sensação de angústia também tinha sol. Eu olhava pra cima e via os fiapos de poeira boiando no ar e brilhando contra o sol que entrava pela janela. A casa muito silenciosa.
- Silêncio, sol e angústia.
- Minha lembrança mais recente não tem nada disso.
- Barulho...?
- Não. Uma voz.
- Hm. Escuridão?
- Não disse que tem o oposto daquilo. Só disse que não tem nada daquilo.
- Claro. Esse céu nublado. E no lugar de angústia?
- Esperança.

Beijo e fim.

Posted by marcol at 7:23 PM | Comments (11)