outubro 21, 2005
O Exército
Eu me considero uma pessoa até que bem informada. Li muitas reportagens sobre a transposição do rio São Francisco e até vi um pedaço do Roda Viva da TV Cultura sobre o tema. A primeira vez que ouvi falar do assunto foi no debate presidencial, quando Garotinho perguntou se Lula era a favor ou contra. Apesar de tudo, não faço a menor idéia do que seja transposição do rio São Francisco.
Quando ouvi dizer que um padre fazia greve de fome pela paralisação do projeto do governo federal, minha reação instintiva foi balançar a cabeça, fazer "tsc, tsc", censurando tanto radicalismo. A manobra tinha jeito e cheiro dos destemperados e retrógrados discursos de certos veios da esquerda brasileira, atacando a globalização e o “imperialismo ianque”. "Se ele quer morrer, que morra". Não cheguei a formular esse pensamento de forma consciente, mas foi por aí que vaticinei. A verdade é que não meditei mais que um átimo de segundo no assunto, cheguei a essa semi-conclusão instantânea e deixei o assunto para lá.
Aparentemente todo mundo fez a mesma coisa, porque só voltei a ouvir falar do padre, além de breves e esparsas notinhas na imprensa, dias depois, quando a greve já ia alta e a televisão enfim deu-lhe atenção, pondo-lhe na mão um microfone e ouvindo o que tinha a dizer. No mesmo dia ele falou ao vivo para dois telejornais, onde explicou que sua atitude visava proteger a população mais pobre dos Estados afetados, que, segundo ele, teriam sua subsistência comprometida com a efetivação do projeto.
E o governo capitulou. E eu capitulei também. Me envergonhei de minha reação ao assunto e nem o pensamento de que não tenho nada que ver com isso e de que meu julgamento não fazia a menor diferença serviu pra aplacar meu arrependimento.
Continuo sem saber se a bandeira vale e se os argumentos do padre procedem, mas o episódio me lembrou de algo em que acredito, embora estivesse empoeirado há muito tempo: a força moral de um homem. O Exército de um caráter.
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"Ghandi colcou-se como um espinho no Império Britânico porque os meios formais de controle não tiveram efeito contra seus protestos nada ortodoxos. Quando os policiais tentavam barrar os manifestantes batendo neles com cassetetes, os rebeldes colocavam-se em fila para receber os golpes. Os indianos logo encheram as cadeias até superar sua capacidade, o que era exatamente o seu intento. Quando as autoridades levaram o próprio Gandhi aos tribunais e o ameaçaram com prisão, ele calmamente pediu a pena máxima. Longe de ser uma punição, a prisão dava a ele mais luxo do que ele se permitia quando livre, proporcionando-lhe períodos mais longos para a reflexão e a produção de textos. Ao todo, Gandhi passou 2.338 dias nas cadeias britânicas.
Quando os britânicos tentaram métodos mais brutais de opressão, como abrir fogo contra os manifestantes, criaram mártires e involuntariamente uniram a nação contra eles. No famoso incidente de Amritsar, tropas sob liderança britânica apontaram rifles na direção de um ajuntamento pacífico, mas ilegal, de homens, mulheres e crianças desarmados, disparando 1.650 tiros em dez minutos e provocando 1.516 mortes. A cruzada pela independência reuniu ainda mais adeptos.
Mais tarde, Gandhi imaginou uma forma de protesto que se mostrou a mais poderosa de todas: ele simplesmente se recusou a comer. Planejou seu jejum com o mesmo cuidado que um general elabora sua estartégia militar, às vezes jejuando por um período de tempo específico, e em outras ocasiões alertando que faria um jejum até a morte, caso certas exigências não fossem atendidas. A ironia desafia a compreensão: jejum voluntário numa nação de famintos, o sacrifício de um único homem opondo-se ao mais abrangente império de toda a história da humanidade.
Contra todas as possibilidades, a tática funcionou. Churchill irritou-se com "o nojento e humilhante espetáculo daquele homem que um dia fora um advogado em nossa corte, agora um sedicioso faquir, caminhando seminu pelos corredores do palácio do vice-rei, indo até ali para negociar e conferenciar em termos iguais com o representante do rei imperador".
(in Alma Sobrevivente, Yancey, Philip, Editora Mundo Cristão)
Posted by marcol at outubro 21, 2005 8:17 AM
Comments
também confesso não saber como se "transpõe" um rio... será de navio? hehe!!
Posted by: ander at outubro 26, 2005 11:33 AM
Nós do sul não sabemos nada mesmo... Nem eu! É uma vergonha.
Grande abraço.
Posted by: Milton Ribeiro at outubro 24, 2005 6:23 PM
Apesar de o rio já estar prejudicado, e isso eu vi pessoalmente, alguns discursos de Ciro Gomes me convenceram quanto à transposição.
Confesso que também não me aprofundei no assunto. E apesar de Ciro Gomes, na minha opinião, ser um dos melhores políticos que temos, esses temas tem diversos prismas que merecem consideração.
Mesmo assim, acho que a comparação é um pouco forçada. A causa, pra começo de conversa, talvez nem seja justa. No mínimo, é digna de controvérsia. No caso de Gandhi, não.
[]´s
Posted by: Baiano at outubro 24, 2005 6:18 PM