« setembro 2005 | Main | novembro 2005 »

outubro 27, 2005

Eu que fiz

Meu filho é o mais requisitado dos casamentos. Nos últimos meses foi pajem em três. Tem mais dois até o fim do ano.

duducasórioGi.jpg

mar-abr05 139.jpg

Não é que eu me ufane, não, longe de mim. É só pra comentar que o povo casa demais, né não, sô?

Posted by marcol at 5:54 PM | Comments (9)

outubro 21, 2005

O Exército

Eu me considero uma pessoa até que bem informada. Li muitas reportagens sobre a transposição do rio São Francisco e até vi um pedaço do Roda Viva da TV Cultura sobre o tema. A primeira vez que ouvi falar do assunto foi no debate presidencial, quando Garotinho perguntou se Lula era a favor ou contra. Apesar de tudo, não faço a menor idéia do que seja transposição do rio São Francisco.

Quando ouvi dizer que um padre fazia greve de fome pela paralisação do projeto do governo federal, minha reação instintiva foi balançar a cabeça, fazer "tsc, tsc", censurando tanto radicalismo. A manobra tinha jeito e cheiro dos destemperados e retrógrados discursos de certos veios da esquerda brasileira, atacando a globalização e o “imperialismo ianque”. "Se ele quer morrer, que morra". Não cheguei a formular esse pensamento de forma consciente, mas foi por aí que vaticinei. A verdade é que não meditei mais que um átimo de segundo no assunto, cheguei a essa semi-conclusão instantânea e deixei o assunto para lá.

Aparentemente todo mundo fez a mesma coisa, porque só voltei a ouvir falar do padre, além de breves e esparsas notinhas na imprensa, dias depois, quando a greve já ia alta e a televisão enfim deu-lhe atenção, pondo-lhe na mão um microfone e ouvindo o que tinha a dizer. No mesmo dia ele falou ao vivo para dois telejornais, onde explicou que sua atitude visava proteger a população mais pobre dos Estados afetados, que, segundo ele, teriam sua subsistência comprometida com a efetivação do projeto.

E o governo capitulou. E eu capitulei também. Me envergonhei de minha reação ao assunto e nem o pensamento de que não tenho nada que ver com isso e de que meu julgamento não fazia a menor diferença serviu pra aplacar meu arrependimento.

Continuo sem saber se a bandeira vale e se os argumentos do padre procedem, mas o episódio me lembrou de algo em que acredito, embora estivesse empoeirado há muito tempo: a força moral de um homem. O Exército de um caráter.

* * * * * * * * *

"Ghandi colcou-se como um espinho no Império Britânico porque os meios formais de controle não tiveram efeito contra seus protestos nada ortodoxos. Quando os policiais tentavam barrar os manifestantes batendo neles com cassetetes, os rebeldes colocavam-se em fila para receber os golpes. Os indianos logo encheram as cadeias até superar sua capacidade, o que era exatamente o seu intento. Quando as autoridades levaram o próprio Gandhi aos tribunais e o ameaçaram com prisão, ele calmamente pediu a pena máxima. Longe de ser uma punição, a prisão dava a ele mais luxo do que ele se permitia quando livre, proporcionando-lhe períodos mais longos para a reflexão e a produção de textos. Ao todo, Gandhi passou 2.338 dias nas cadeias britânicas.

Quando os britânicos tentaram métodos mais brutais de opressão, como abrir fogo contra os manifestantes, criaram mártires e involuntariamente uniram a nação contra eles. No famoso incidente de Amritsar, tropas sob liderança britânica apontaram rifles na direção de um ajuntamento pacífico, mas ilegal, de homens, mulheres e crianças desarmados, disparando 1.650 tiros em dez minutos e provocando 1.516 mortes. A cruzada pela independência reuniu ainda mais adeptos.

Mais tarde, Gandhi imaginou uma forma de protesto que se mostrou a mais poderosa de todas: ele simplesmente se recusou a comer. Planejou seu jejum com o mesmo cuidado que um general elabora sua estartégia militar, às vezes jejuando por um período de tempo específico, e em outras ocasiões alertando que faria um jejum até a morte, caso certas exigências não fossem atendidas. A ironia desafia a compreensão: jejum voluntário numa nação de famintos, o sacrifício de um único homem opondo-se ao mais abrangente império de toda a história da humanidade.

Contra todas as possibilidades, a tática funcionou. Churchill irritou-se com "o nojento e humilhante espetáculo daquele homem que um dia fora um advogado em nossa corte, agora um sedicioso faquir, caminhando seminu pelos corredores do palácio do vice-rei, indo até ali para negociar e conferenciar em termos iguais com o representante do rei imperador".

(in Alma Sobrevivente, Yancey, Philip, Editora Mundo Cristão)

Posted by marcol at 8:17 AM | Comments (3)

outubro 19, 2005

Crer pra ver

Sabe aquelas contracapas geniais da revista Mad, quando depois de dobrar você percebe que a imagem diz geralmente o oposto do que parecia? Acho que ilustra bem minha relação com meus sentidos. Eu reluto um pouco a dar muito crédito ao que eles me dizem.

Um dia me pegaram pra apitar um jogo de vôlei entre meninas do que outrora se convencionava chamar "ginásio". Foi um desastre absoluto. Eu demorava muito pra me convencer das óbvias carregadas e dos evidentes dois toques e como apitava atrasado o povo entendia (e com razão) como insegurança e metia a boca no trombone.

Talvez por isso meu livro predileto de todos seja Abdias, de Cyro dos Anjos, que fala não exatamente de desconfiar dos sentidos, mas de auto-engano. Pelo diário do protagonista-título a gente vai vendo os malabarismos para se convencer de que o que ele realmente quer não é o que é, para travestir seus objetivos com nobres intenções. "Enganoso é o coração, mais que tudo", diz a Bíblia.

E é engraçado constatar que eu acredito muito mais piamento no que não vejo do que naquilo que vejo. Minha crença na existência de um Deus, e não de um deus qualquer, mas dAquele, pintado na Bíblia, e minha certeza de que Jesus Cristo está na iminência de voltar a essa Terra conforme prometeu, embora calcados em evidências que possivelmente só sejam convincentes para mim mesmo (aquela tarde específica de 1993 e as conclusões que tirei do retrospecto de minha vida, conclusões a respeito da Bíblia, a influência de amigos e familiares, meu próprio casamento e etc), são fundamentos que não sofrem fissuras, embora constante e implacavelmente bombardeados.

Paradoxos? Acho que só na casca.

E, para continuar citando a Bíblia, os tais aparentes paradoxos são endossados por ela: quantos não viram o milagre só depois de demonstrar fé, sem evidências concretas de que ele (o milagre) viria? Por outro lado, quantos não viram milagres e na seqüência demonstraram não crer (o povo que atrevessou pelo leito seco do Mar Vermelho e poucos dias depois estava adorando um bezerro de ouro e tributando a ele o feito é um exemplo clássico)? Uma das últimas coisasque Cristo que disse antes de ascender foi, a Tomé: bem aventurados os que não viram e creram.

É difícil mas é assim, o que me conforta pelos paradoxos.

Posted by marcol at 3:15 PM | Comments (0)

outubro 16, 2005

Catzo!

É, cumpadis. Como dizia o Baiano no comentário ao post abaixo, andava eu carente de pausas. A que tive este sábado não foi satisfatória em termos de duração mas foi amplamente satisfatória em termos qualitativos.

Além da sempre aprazível parada no mundo que eu, como adventista do sétimo dia, dou todo pôr-do-sol de sexta-feira, além dos deliciosos momentos na igreja, dos momentos com os amigos e familiares, etc, no sábado à noite tive mais que a oportunidade de ir a um show; tive a mais impressionante experiência musical de minha - já não tão curta - existência: show do Take 6 no Credicard Hall lotado.

Pra quem não sabe, o sexteto norte-americano vencedor de 8 dos 10 Grammies que disputou, com apenas 5 CDs lançados, é um grupo vocal digno de Spike Lee fazer um filme sobre música a capella tendo aos tais como protagonistas e estrelas máximas. Os caras se conheceram em um internato adventista e começaram a cantar no banheiro da escola, que tinha uma acústica maneira. Descolaram uma grana curta para gravar um CD. Como era curta, só tinham 3 horas no estúdio. Gravaram nesse pífio tempo um trabalho que é divisor de águas não apenas na música vocal gospel, mas na própria história do jazz.

Esse era o cartão de visitas que eu tinha deles. Mesmo assim fui ao Credicard Hall levemente apreensivo, afinal, o tipo de música que eles fazem não é arroz com feijão. Será que não cansaria?

O resultado foi que ver e ouvir os caras deslocou pra muito além minhas noções do que é possível em música e em aplicação da voz humana. Os arranjos são absolutamente criativos, você nunca consegue antever como um acorde vai se resolver ou pra onde uma música vai andar, é experiência com genialidade, perfeição técnica e sem abrir mão do belo, conceito que a arte contemporânea parece ter relegado ao status de supérfluo.

Suas imitações vocais de instrumentos são geniais e sua presença de palco merece capítulo à parte: os seis são extremamente carismáticos, fazem você cantar e marcar ritmo o tempo todo e com um sorriso de orelha a orelha no rosto. No meio de uma música são capazes de, cantando, em inglês, para uma platéia sulamericana, armar um coral gigantesco com a platéia a cantar uma música que até então ninguém jamais havia ouvido.

É uma experiência e ninguém que tenha a oportunidade deveria arriscar-se a perder.

tk6

Posted by marcol at 10:55 AM | Comments (3)

outubro 10, 2005

Ouço o troar de motores. Sirenes. Helicópteros. Ouço a campainha enervante do telefone. Ouço a fumaça e o abafamento. Turbinas de avião e explicações sobre como usar a máscara de gás. Ouço a vida passando a rente. E motos, muitas motos, passando rente também.

Se fecho os olhos, contudo, e espero sumirem os números e palavras que se projetam contra minhas pálpebras, aos poucos, bem ao longe, ouço o velho discurso do mar de uma praia vazia enquanto aquela brisa específica sibila morna. Ouço a gargalhada do meu filho. Ouço borbulhar a água de um mergulho que funciona como um pause no Universo, que amortece a consciência e faz a noção de tempo perder o chão. Ouço as pontas dos dedos de minha esposa roçando minhas têmporas - distraída.

É raro, mas eu ouço. E lembro deste poema de Octavio Mora:

Porque vias o mar (tinhas o mar
no olhar) fechando os olhos. E defronte
o víamos surgir. Bastava olhar
que tudo era horizonte."

Posted by marcol at 9:30 PM | Comments (4)