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julho 14, 2005

Consciência tranqüila

Primeiro era a clássica impressão de que eu era adotado. Mais alto que os demais irmãos e aquele senso de desajustamento que só mais tarde descobri ser latente ao ser humano e não exclusividade minha. Ouvir histórias de conhecidos adotados sem saber não ajudava a dissipar a forte impressão, verbalizada umas poucas vezes para terrível desgosto da minha mãe, claro.

Com a adolescência nasceu uma outra coisa, uma suspeita de que eu tinha algum defeito, uma marca muito aparente, que todos viam mas dissimulavam e que eu não via ou não notava por estar acostumado a ela.

Sentimento análogo apareceu com os primeiros contatos com a complexidade feminina. Ainda não havia desenvolvido a técnica zen de não mais tentar entender as mulheres e ante a estranheza da diferença eu me perguntava se todas as mulheres não tinham algum pacto secreto tácito, de repente alguma coisa que todas conheciam, nasciam sabendo, e que comentavam às escondidas, só entre elas.

Lembro de uma HQ genial do Laerte, salvo engano publicada na finada revista do Geraldão (coisas dos anos 80). O cara um dia pega a mãe mijando de pé. Aí descobre que a mãe não é mulher, é pai. Ela tira um zíper das costas e se revela um brucutu. O pai é mulher, a irmã é homem e ele também tem um zíper nas costas e, tirada a casca, descobre que na verdade ele é negro. Depois dum discurso emocionante, a mãe que é macho incentiva o filho a sair correndo para a vida, agora que ele sabe que as coisas podem ser diferentes do que parecem. Ele sai mesmo correndo em direção à cidade mas mete a fuça numa parede, onde a tal cidade estava só desenhada.

"Eu tenho plena certeza de que não sou corrupto. Minha consciência está tranqüila", disse o sr. Marinho, flagrado embolsando R$ 3.000,00 no episódio dos Correios e explicando que aquilo era uma assessoria, não corrupção. Pode ser que a consciência do gajo estivesse tranqüila mesmo. Ela não é um guia fiel. Marinho acredita que é uma coisa, quando é outra.

Pra saber quem somos de fato, precisamos de espelhos mais eficazes e nada garante que a dúvida não vai persistir.

Posted by marcol at julho 14, 2005 1:27 PM

Comments

Ótimo post. Adorei.

Posted by: Simy at julho 15, 2005 5:37 PM

Que escândalo esse seu post, Marcão.
Você sempre me surpreendendo com a sua intimidade com as palavras.

Posted by: Daniela at julho 15, 2005 5:07 PM

Com certeza, Marco. Com certeza.
Um beijo.

Posted by: Márcia at julho 15, 2005 9:18 AM

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