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junho 14, 2005

Sem sentido A noite ia

Sem sentido

A noite ia alta quando finalmente lhe ocorreu levantar-se. Firmou-se nas pernas com alguma dificuldade e saiu passando sobre seus homens vencidos pelo sono e pelo álcool espalhados pelo salão do templo. Logo estava passando não mais sobre homens adormecidos, mas sobre cadáveres, a maioria esmagadora dos derrotados. O pátio do templo estava cheio deles. Seus pés chapinhavam no sangue que se ia juntando sobre as crostas de coágulos negros enquanto a brisa fresca da noite inoculava alguma lucidez em sua mente.

Na sacada, admirou o espetáculo sob a luz da lua. A cidade ardia em chamas. Logo abaixo da sacada alguns de seus homens ainda violentavam uma mulher que ele logo notou já estar morta. Eles contudo, não pareciam dar conta do fato e repetiam-se sobre ela, o que devia estar acontecendo havia pelo menos seis horas.

Curvando-se para ver melhor, resvalou em algo que caiu sobre seu pé. Era o corpo de uma criança de três ou quatro anos com o crânio aberto. Tinha os miolos expostos e a boca contraída num rictus estranho que dava um aspecto de hilaridade desesperada.

Alguma lucidez. A garganta raspava, estava rouco de gritar de ódio e depois de júbilo. A mão direita se contraía como que ainda empunhando a espada, involuntariamente de tempos em tempos. Seus olhos ardiam. As chamas ardiam. A cidade ardia e o peito dele. Não, gelava. Com alguma dificuldade formulou uma pergunta que na seqüência, como que para enfatizar a necessidade de resposta, repetiu em voz alta: o que se faz quando se conquista o inimigo?

Repeliu com um chute o corpo da criança, abriu os braços para a cidade que agora era sua e gritou, interrompendo a atividade que ocorria abaixo da sacada: e agora?! O que é que eu faço com isso?!

E passou a viver sem sentido.

Posted by marcol at junho 14, 2005 6:31 PM

Comments

Marcão!

A escolha cuidadosa das palavras aumenta ainda mais o impacto criado pelas imagens fortes do texto. O horror do cenário é impactante.

Parabéns.

;)

Posted by: Roberto Sasaki at junho 20, 2005 2:38 PM

Um soco!

Que bom que lhe reencontrei, Marco. Já anotei o link pra não me perder, again.

Um beijo.

Posted by: Márcia at junho 19, 2005 11:04 AM

Texto expressionista e impressionante, Marco!

Posted by: Inagaki at junho 16, 2005 10:21 PM

É como vovó já dizia: a aquisição das coisas é a parte mais fácil. Difícil é a manutenção... :)

[]´s

Posted by: Baiano at junho 15, 2005 4:21 PM

!!!

Pior é que isso se aplica a muita coisa, a muita gente, todos os dias... e nem nos damos conta. :/

Abraço!

Posted by: Gejfin at junho 15, 2005 9:33 AM

Viste a comunidade que a Alê criou no Orkut sobre o livro do BdP? Informações no site do BdP. Abração.

Posted by: Milton Ribeiro at junho 15, 2005 8:56 AM

Nossa...
Algo inspirado na situação do Iraque?
Arrepiei aqui só de imaginar as imagens...

Posted by: Vanildo at junho 14, 2005 10:59 PM

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