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maio 25, 2005

Além da imaginêichan Era um

Além da imaginêichan

Era um daqueles dias. A mão dele suava no balaústre do ônibus lotado. Lá fora a borrasca não dava trégua e o trânsito não desatava. Todo mundo que tinha celular - ou seja, todo mundo - se entretinha ligando pros respectivos patrões e dizendo da dureza que estava chegar no serviço aquele dia. Ele evitava fazê-lo. Se entretinha olhando os narizes das pessoas. Aquele ali é chato demais. O do lado é batatinha. Aquele outro é estranho, não combina com o rosto. Grande demais. Opa, aquele ali é bem bonitinho.

De repente viram-se cercados por luz e a temperatura também aumentou considerávelmente e de repente. O ônibus estava, sem mais nem mais, no meio de uma selva. Após os gritos de susto e a primeira perplexidade o motorista abriu as portas e todos desceram. Olhavam-se em busca de uma explicação, mas ninguém a possuía.

Descobriram-se numa ilha deserta, daquelas. Aprenderam a construir cabanas. A pescar. A comer côcos. Com o tempo foram perdendo os pudores, passando a andar de roupas íntimas, apenas, por conta do calor. Tiveram de criar leis para o bom relacionamento. Definir a área que serviria para banheiro.

E ele se viu líder daquele grupo. Os romances já pipocavam fazia tempo quando ele enfim cedeu à própria carência, à pressão do grupo e, sobretudo, à beleza daquele narizinho. Numa outra situação jamais teria se envolvido com ela. Era um tanto vulgar, nunca havia lido um livro, aparentemente. Mas ali os predicados que melhor dispunha sobressaíam. Eram o casal perfeito para aquela situação: o líder e a bela. Outros tentaram mas ela soube rechaçar, afiar os ardis e esperar. Até que ele cedeu. Jogou a aliança e a memória da família feliz que outrora tivera, com os três filhos, ao mar.

Teve outros dois filhos ali. Até o dia em que decidiram fazer uma festa dentro do ônibus, que estava todo estropiado lá, no meio da ilha. Foi o último colocar o pé ali dentro e viram-se outra vez no mesmo ponto da avenida parada naquele dia chuvoso. Agora bronzeados, barbados, cabelos compridos. Alguém olhou o relógio, que não funcionava mais fazia tempo, mas agora funcionava, e notou que não havia passado mais do que dois minutos desde o momento do "teletransporte".

Todos olharam para ele em busca de uma explicação. Mas não havia.

* * * * * * *

Evidentemente este conto foi cunhado embaixo d'água que cai sobre São Paulo. Como tantos, não consegui chegar ao trabalho hoje, dei meia volta volver e de fato volví. Nem por isso a história chega a ser baseada em fatos reais, como você já deveria imaginar.

Posted by marcol at maio 25, 2005 4:47 PM

Comments

Parir nesgas de tempo para alargar a vida, ainda que seja consumindo-o com a ânsia da escrita parece-me algo bem talhado para qualquer tempo - chuva ou sol. Gostei.

Posted by: Laura Paz at maio 31, 2005 8:34 AM

Mas o narizinho deve ter passado pela vista... :)

[]´s

Posted by: Baiano at maio 30, 2005 10:05 AM

Marco, ainda bem que deu meia
volta volver e volveu...
Aproveitar a chuva pra escrever é uma dos grandes prazeres da vida...
Viva poder fazer isso!!!!

Posted by: nora borges at maio 29, 2005 10:36 AM

Lembrei sabe de quê? Daquele seriado de televisão, o "Além da Imaginação". Muito bom o conto!!! Abraços!

Posted by: Denilson at maio 27, 2005 4:56 PM

Noooooooooooossa, como você arranja tempo pra ser advogado, marido, pai, blogueiro de dois blogs? Poxa... Quero ser igual a você quando eu crescer!!! Igualzinha...

Posted by: LuLu at maio 27, 2005 8:20 AM

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