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abril 5, 2005
O Diário de Macondo -
O Diário de Macondo - 5ª parte
Para ser absolutamente fiel à real cronologia dos fatos que estou inventando, preciso consignar que foi só na terceira noite que passou à frente do endereço anotado no post it que ele acabou tocando a campainha. Nos dias anteriores parava ali, do outro lado da rua, sob uma árvore, e ficava olhando as janelas do pequeno prédio da rua tranqüila em que deveria morar a autora dos Diários de Macondo. Se fumasse, fumaria. Mas não. Cruzava os braços e admirava a fachada, especialmente a janela do segundo andar que se acendia sempre às 07h45 e se apagava às 22h30. Calculava que ali deveria estar o apartamento número 22.
Ele não se perguntava se era saudável fazer o que estava fazendo. Tinha uma distante consciência do insólito de sua atitude e mesmo algum medo de si mesmo, mas uma frase do diário de Macondo reboava intermitente em sua mente: "Vou seguir meu faro." E ele repetia de si para si. Seguia o faro. Aquela janela. Mas ninguém assomava a ela para olhar a rua, nada e as pessoas que entravam e saíam do prédio ele espreitava com atenção. Poucas mulheres jovens. Nenhuma delas com a imagem interna que já tinha de sua antecessora no posto.
Na terceira noite, precisamente às 21h20, tocou a campainha do interfone.
- Sim?
Ele hesitou. Tentava passar a voz metalizada que proferira aquele monossílabo por um laboratório imaginário, na busca do rosto. Antes que ficasse esquisita a demora, contudo, respondeu.
- Boa noite. Por favor, é aqui que mora... - fazia de conta que não tinha o nome decorado - Janice Pessuto Gambini?
- Um momento - poucos instantes depois ele ouviu chamarem-no da janela que estivera contemplando tanto tempo. Olhou com quase sofreguidão, mas, debruçada sobre o parapeito, viu uma mulher rechonchuda de seus 46 anos. Praticamente um hemisfério inteiro distante de Macondo - o senhor precisa falar com a Janice?
- Isso - respondeu aliviado.
- Ela não mora mais aqui. Eu estou na casa há um mês e meio, já.
- A senhora tem o endereço novo dela?
- Só sei que ela foi para uma cidade acho que do interior. Marimbondo.
- Macondo! - ele ouviu uma voz de homem corrigi-la de dentro do apartamento.
- Isso, Macondo. Ela deve ter parentes lá, porque deixou o apartamento todo mobiliado para a gente.
Na confusão que tomou conta da mente dele, só conseguiu perguntar:
- Ela... parecia triste?
- Triste? Não achei não. Pra ser sincera ela era bem indecifrável. E, por outro lado, eu estava muito empolgada com o apartamento. Conseguimos comprar à vista, veja você.
De dentro da casa veio outro grito:
- Pára de conversar com estranho, Gisela, pô! Vai dar detalhe pra ele de tudo?
A mulher fez um gesto com os ombros e alçando as sobrancelhas, despediu-se e fechou as cortinas de volta.
Posted by marcol at abril 5, 2005 9:35 AM
Comments
opafod joesdohmmg
Posted by: Ellen at março 3, 2006 9:49 AM
Marco, li a página toda. Já conhecia seu blog de um tempo atrás, tenho até o antigo link.Mas passei tanto tempo sem voltar que só agora, por coincidência, descobri que estamos vizinhos.
Agora vou procurar as partes anteriores do diário.
Posted by: nora at abril 6, 2005 5:54 PM
Luna, veinha é sacanage.
Posted by: Marco Aurelio Brasil at abril 6, 2005 8:39 AM
E eu tava aqui torcendo para ser ela mesma - a veinha rechonchuda. Hehehe!
Posted by: Luna at abril 5, 2005 4:06 PM