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abril 18, 2005
Macacadas Sempre atrasado, chego ao
Macacadas
Sempre atrasado, chego ao imbróglio DesábatoXGrafite. Foi Milton Ribeiro quem instou-me a tocar no assunto, sãopaulino que sou. Além de sãopaulino, aliás, mestre Milton notou que pertenço ao gênero humano, o que reputo como um grande elogio.
Mas a verdade é que ser ou não ser sãopaulino aqui não influencia nada. O que achei da prisão do Desábato? Lembrou-me o basquete. No basquete tem faltas que às vezes é melhor você nem cobrar. O jogo está nervoso, acabou de haver uma discussão interminável e aí um cidadão do time de lá pisa de leve na linha ou dá uma andadinha que só você viu, talvez seja melhor nem pedir a bola, porque vai parecer desonestidade da tua parte e tumultuar o que deveria ser curtição.
Eu estava no Morumbi naquela quarta-feira. Fui levar meu chefe, que - detalhe - é argentino, para ver uma partida da libertadores no glorioso Cícero Pompeu de Toledo. Só que quando saiu o terceiro gol do São Paulo, preocupado com o retorno pra casa e com os ouvidos do meu chefe, que já aparentava algum cansaço de ouvir "argentino viado" e congêneres, sugeri irmos saindo. No caminho até um carro um flanelinha veio rindo todo feliz pra gente dizer que "tinham prendido o argentino".
Na hora achei que se tratava de um delegado querendo aparecer. Botar lenha na rivalidade com a Argentina não tem nada de saudável, pensei, porque esse negócio de richa de vizinho, de raça, do que quer que seja, é a coisa mais babaca que o ser humano é capaz de estimular, acariciar e perenizar. Depois foi que me inteirei dos detalhes e vi o fator Galvão. Galvão Bueno fez com que a leve pisada na linha não fosse vista só por um, mas por milhões, aí não dava pra ignorar a coisa, que talvez fosse o melhor.
O fato puro e simples é que nossa legislação é avançada nesse ponto. Aqui, racismo é crime. O campo não é um retângulo acima ou fora da lei, como os Edmundos da vida tentam fazer entender, justificando as maiores barbaridades com coisas estúpidas do time "calor do momento", "fortes emoções" e afins.
Quando o assunto é cumprir ou não cumprir uma lei, ainda mais sendo ela justa, oportuna e útil, como é a que pecha de hediondo o crime de racismo (embora no caso o fato tenha sido tipificado como injúria agravada de racismo, o que ameniza a situação), não dá pra fazer que não se viu. Isso é perpetuar a ignorância.
Deixem que nos chamem de macacos lá na terra deles. Essa identificação com nações civilizadas eu dispenso.
* * * * * *
Quanto ao mais, ver meu chefe, hincha de Boca, cantando o hino do tricolor e fazendo a ola, mas falando baixo pra ninguém notar o portunhol inescondível, tudo isso recheado de três gols, cara, isso não tem preço. Para todas as outras coisas, eu não tenho Mastercard.
Posted by marcol at abril 18, 2005 1:08 PM
Comments
Está atrasado? Eu tb. Dizendo de passagem que esse assunto merecerá atenção por um bom tempo...boa noite, Luma
Posted by: Luma at abril 18, 2005 10:53 PM
Como diria Graciliano Ramos, todo patrão é um argentino.
Posted by: Nelson Moraes at abril 18, 2005 5:03 PM