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abril 28, 2005

Mais um roteiro genial para

Mais um roteiro genial para um filme quase lá

Depois do sucesso avassalador do meu último roteiro cinematográfico (que eu não lembro qual foi), meu telefone vermelho, que fica dentro de uma bandeja pra bolo (originalidade sempre foi meu forte) não pára de tocar. Trata-se da linha direta com Hollywood. Torraram meus picuás diretores de estilos tão díspares como Wes Craven (sére Pânico), Woody Allen, Irmãos Wachowsky, os caras de Quem vai ficar com Mary?, o agente da Meryl Streep, Costa Gravas e Quentin Tarantino. Como ando muito assoberbado com os postes inteligentíssimos de É por aqui que vai pra lá?, resolvi atendê-los todos duma vez só. O resultado você, leitor refinado e classudo, confere em primeira mão. Chama-se...

Quando os esparadrapos dizem goodbye

Jovens colegiais de Primaveirópolis, cidade do interior de Goiás, estão às voltas com as festividades da formatura. Enquanto decoram o ginásio da escola, ficamos conhecendo os personagens: Marilene, a loira biscoituda e devassa que se veste de forma pouca própria; Juremiel, o capitão do time de futebol, popular, xavequeiro e dado a usar camisetas agarradas com as mangas dobradas para realçar os bíceps; Leonora, a intelectual e politizada, alvo das paixões doentias de Deoclécio, o esquisitão de feições nerd e hacker de ocasião; e, claro: um obeso, um negão, um punk, uma freira e um pasteleiro chinês.

Leonora diz: gente, não é hora de irmos embora? Vocês ouviram falar no que aconteceu àqueles fazendeiros, está perigoso andar por aí de noite...

Juremiel: bobagem, vamos acabar isso aqui - e dá uma risadinha safada na direção de Marilene.

O pasteleiro resolve ir ao banheiro. A câmera fica postada atrás de uma porta, só vemos pela fresta o que acontece. O chinês posiciona-se ao mictório e a porta se abre lentamente e vai-se aproximando. De repente, uma mão com um enorme ancinho aparece. O china olha no espelho e vê uma assombrosa figura vestida de bumba meu boi, mas antes que possa gritar o ancinho desce violentamente espirrando sangue pela parede branca do banheiro.

O punk acha estranho que o china não aparece, então começa a procurá-lo. Ele morre com uma barra de ferro atravessada no crânio. O obeso tenta escapar e é cortado ao meio por um cabo de aço da tabela de basquete, que se desprende a um toque do tenebroso bumba-meu-boi. Os demais tentam escapar, mas as portas do ginásio estão trancadas. A quadra é regada com o sangue juvenil. Cada corpo deveria ter uns 90 litros de sangue, e todos eles estão agora borbulhando de seus cadáveres dilacerados. Restaram apenas Leonora e Deoclécio, que abraçam-se a um canto tremendo e gritando. Quem é você!? grita Deoclécio. O bumba-meu-boi vem chegando e, parando dramaticamente, com uma foice na mão, começa, com a outra, a tirar a máscara. Close em Leonora. Pela lente de seu óculos vemos do lado de fora da janela, um homem vestido de sobretudo preto e óculos escuros.

Ele está andando pelas ruas desertas de forma decidida. Pára em frente a uma casa comum, de frente para o coreto da cidade. Pula o muro e bate na janela ao lado. Aparece um rapaz com grandes olheiras: o que foi? Quem é você? - Siga-me! o homem diz. - Mas... o rapaz diz, ao que o homem atalha: - Siga-me, você corre perigo! e, dizendo isso, ele se vira. O rapaz vê então, tatuado na nuca dele, uma anta branca. Num flash back somos levado ao sonho que o rapaz estava tentando quando bateram-lhe na janela.

Ele estava no bico de um enorme navio, com os braços abertos, e por trás dele uma mulher azul sussurrava: a anta! a anta branca! Siga a anta! Sem mais pensar ele pula a janela e segue o homem de preto. Estão quase chegando à esquina, ele quer perguntar o que está acontecendo, mas o homem faz sinal para que ele fique quieto e o faz pular para dentro do quintal de uma outra casa. Olham para a casa dele, à frente da qual estacionou um caminhão de onde saem trinta homens vestidos com uniformes militares futuristas; eles fazem uma linha à frente da casa e começam a metralhá-la. Em poucos e barulhentos instantes, a casa está no chão, eles voltam ao caminhão e saem. O rapaz está atônito. O homem de preto o leva até uma antiga igreja desativada. Ali, sob uma luz tugúria, diz: você tem perguntas. Faça! O rapaz começa então a despejar nervosamente: quem é você? O que quer comigo? Quem eram aqueles homens? Por que isso está acontecendo?

Toca um celular. O homem de preto atende e sua cara de durão de repente se derrete: ok, vou já pra aí - ele diz. Sem mais nem mais ele tira o sobretudo de couro preto e veste um paletó de lã xadrez, pega um ramalhete de flores, sai da igreja e vai até uma casa. Toca a campainha, uma bela mulher atende e pede um segundinho. Volta segundos depois com uma bolsa e um xale. Ele diz, estendendo as flores: são para você. Ela sorri, diz que são lindas, volta para dentro de casa para guardá-las e finalmente saem.

- Você sabe que isso vai ser complicado, não sabe, Edmundo?

- Cecília! Ele diz colocando-se à frente dela e segurando firmemente seus braços - seria preciso mais do que um mundo de diferenças a nos separar para me fazer desistir de tentar. Que me importa se você foi casada com o inimigo mortal do meu pai, que me importa se o seu pai é diretor do Vila Nova e eu sou sócio do Goiás, que me importa se você tem a metade da minha altura, se é doutora em psiquiatria clínica e eu sou analfabeto? Essas coisas todas pertencem ao mundo das abstrações, das quimeras, dos imponderáveis, ao passo que existe algo que é fato, mais concreto do que o paralelepípedo sobre o qual pisamos, e esse algo é: eu te amo.

Começa a chover e eles se beijam. Cecília começa a tossir, diz que não se sente bem e vai pra casa. O sol amanhece e seu pai aparece com um envelope na mão, dizendo: filha, o resultado do exame é o que eu temia. Aquela chuva te deixou com câncer. Existe uma chance em 18.000 de você se salvar, mas estou sabendo de um tratamento experimental em um hospital da Antioquia. Vou dar um jeito de levantar os fundos necessários para irmos até lá. - Oh, papai - ela diz e começa a chorar. O velho sai e começa a fazer ligações, colocar faixas nas ruas, distribuir santinhos com a foto da sua filha e mobilizar toda a sociedade de Primaveirópolis. Seu amigo Sandoval o convence a tentar levantar o dinheiro no concurso de duplas sertanejas mistas da cidade, mas para isso um dos dois tem que se vestir de mulher e o outro disfarçar-se de corno. O diretor do concurso começa então a dar em cima da "mulher" sem saber que se trata de seu cunhado Sandoval. Chega a hora da grande final, eles sobem ao palco e começam a cantar "Por que você me largou?" quando o concurso é interrompido por uma marcha de sem terras. Eles estão a caminho de Brasília e lutam por dignidade e justiça. O seu líder, Libério Guevara, é alvo de uma emboscada dos fazendeiros latifundiários, mas conta com a ajuda do repórter Jair Vladílson, de A Folha de Primaveirópolis, que começa a publicar bombásticos artigos contra o prefeito e os fazendeiros, revelando um esquema de lavagem de dinheiro, extorsão, tráfico de crianças, de escravas brancas e de rapadura.

Ele vê que está sendo seguido por capangas do prefeito e sobe num jegue para fugir. Começa uma emocionante perseguição de jegues pelas ruas tortuosas da cidade. Enfim, Jair Vladílson esconde-se na casa de Francisco Emérito, o filósofo e pensador da comunicação, que, sentado em uma cadeira de balanço na varanda de sua casa, começa a tergiversar sobre a arte, o pensamento, a expressão e a aparente falta de sentido nas construções artísticas contemporâneas. No fundo, ele diz, tudo se encaixa. E, dizendo isso, pisca para a câmera, que escurece em fade enquanto sobem os créditos e toca "Vai passar", do Legião Urbana. Quando a escuridão na tela é quase completa, a cena se ilumina outra vez e por trás de Jair Vladílson aparece o bumba-meu-boi
assassino, com o ancinho na mão. Espirra sangue na tela e acaba assim mesmo.

Posted by marcol at 1:13 PM | Comments (8)

abril 25, 2005

Diário de Macondo - parte

Diário de Macondo - parte final

Após a febre dos primeiros dias, veio o abatimento. Durante a febre, pesquisou compulsivamente os jornais de um mês para trás. Não sabia muito bem o que procurava, mas temia encontrar uma nota qualquer sobre um corpo não identificado, uma suicida misteriosa, quem sabe.

Com isso tudo o trabalho terminou de perder todo o encanto. Sentia o inebriante cheiro da sua antiga livraria invadindo sua baia, a sala de reuniões. Às vezes fitava o rosto de seus interlocutores e como que desligava o som; a boca se mexia mas ele não ouvia som algum, em lugar disso uma música muito longínqua. Essa música por vezes era Inspiral Carpets, por vezes Phish, mas freqüentemente gravações antigas de Toquinho e Vinícius com os chiados do vinil que ouvia.

O abatimento emocional afetou até mesmo a leitura dos arquivos do Diário de Macondo. Custou um tempo para chegar ao último e isso aconteceu apenas uns dois dias antes de ser demitido. Ele leu:

"O sentimento é recíproco. Quero tanto a Macondo como ele a mim. Se fecho os olhos a luminosidade diáfana da tela me transporta a uma alta torre da catedral, de onde se divisa a Terra. É vasta. É boa. Mana leite e mel. Há gigantes. E sobretudo há uma água muito clara e translúcida aonde não se pode senão jogar-se. Flutuar no nada, sem pontos de apoio. Pernas entreabertas, mãos espalmadas, braços em cruz. Bolhas sobem para a superfície e eu atrás delas. Agora eu abro os olhos. Vou dizer a Macondo o que sinto a seu respeito. Pra nunca mais."

Antes de gravar a pasta inteira em um disquete lançou o nome dela no Google. Entre uma série de resultados disparatados, achou uma menção a um debate sobre realismo fantástico na Secretaria Municipal de Cultura de Bonito-MS. A página dizia que uma das participantes seria uma certa Janice Gambine. Gambine, não Gambini, como seria o certo, mas quando seu vizinho de avião lhe perguntou por que ele ia a Campo Grande, respondeu apenas vagamente que estava seguindo seu faro.

fim

Posted by marcol at 10:05 AM | Comments (2)

abril 19, 2005

Kant, Kent, Klimt, Comte, Cunta

Kant, Kent, Klimt, Comte, Cunta

Kant (, Immanuel)

Kant era um cara batuta. Todo mundo que nasceu na Prússia era assim. Ele, por exemplo, nasceu em Koenigsberg. Aliás, nunca, jamais, nos 73 anos que viveu, saiu de lá. Oui, sim, jamé botou o pezinho fora da cidade. Acho que ele gostava da boa e velha Koenigsberg. Kant era um cara batuta que tinha hábitos bastante metódicos. A galera de Koenigsberg acertava o relógio por ele. "Jürgen, tá na hora da batata! O professor já passou na rua!" E, no entanto, um dia ele sentou na escrivaninha e falou "ah, vou escrever um livro". Aí escreveu um troço chamado "Crítica da Razão Pura". E é por causa desse livro que hoje você liga a televisão e vê na MTV os caras batutas falando "cada um cada um". Abre o olho: dia 22 faz 200 anos que Kant murrió.

Kent (, Clark)

Diferentemente do amigo Bruce, de Gotham, Kent não é um homem comum que se disfarça de herói pra dar porrada nos vilões e assim afogar as mágoas. Sim, ao contrário daquele lá, Kent é um super herói o tempo todo. Só que pra poder posar de bobo pra Lois - esta é a maior alegria da vida dele - ele se disfarça de gente comum. Assim, Kent é a identidade secreta (embora todo mundo saiba) do Super. A moral é a seguinte: todo bacana precisa posar de bocó. É aquela história do Ying Yang, saca?

Klimt (, Gustav)

Como todo bom simbolista austríaco, Klimt era um cara super moderno. E pintava mulheres peladonas. E ruivas e peladonas. E depois resolveu misturar formas geométricas com partes de corpos estilizados em poses sensuais e todo mundo falava: "Ê-laiá. Esse Klimt aí, humpf".

klimt

Comte (, Auguste)

Já o Comte era um cara muito positivo. Entendeu? hahahaha um cara super positivo. Era, por assim dizer, um francês positivo e pra ele tudo deveria ser positivo. Por isso escreveu Discurso Sobre o Espírito Positivo, Curso de Filosofia Positiva, Política Positiva e Catecismo Positivista. Positivamente, taí um cara positivo - com o perdão do trocadilho.

Cunta (Kintê)

Aí tem o Cunta Kintê, um cara apegado às suas Raízes, se é que você me entende. Veio da África pra América (a do Norte, craro) sob safanões e hoje seus descendentes não passam sem um big mac e um bom donut. É isso.

* * * * * * *

Sem idéias pra escrever um post que preste? Seus problemas acabaram! Use o método É por Aqui que Vai Pra lá? de encheção de linguiça. Você pega cinco caras sem nada que ver mas cujos nomes guardam alguma semelhança fonética, aí escreve sobre eles. É possível que alguém leia tudo aquilo e fique pensando "catzo, deve haver um altíssimo sentido subjacente nisso tudo".

Posted by marcol at 9:07 AM | Comments (12)

abril 18, 2005

Macacadas Sempre atrasado, chego ao

Macacadas

Sempre atrasado, chego ao imbróglio DesábatoXGrafite. Foi Milton Ribeiro quem instou-me a tocar no assunto, sãopaulino que sou. Além de sãopaulino, aliás, mestre Milton notou que pertenço ao gênero humano, o que reputo como um grande elogio.

Mas a verdade é que ser ou não ser sãopaulino aqui não influencia nada. O que achei da prisão do Desábato? Lembrou-me o basquete. No basquete tem faltas que às vezes é melhor você nem cobrar. O jogo está nervoso, acabou de haver uma discussão interminável e aí um cidadão do time de lá pisa de leve na linha ou dá uma andadinha que só você viu, talvez seja melhor nem pedir a bola, porque vai parecer desonestidade da tua parte e tumultuar o que deveria ser curtição.

Eu estava no Morumbi naquela quarta-feira. Fui levar meu chefe, que - detalhe - é argentino, para ver uma partida da libertadores no glorioso Cícero Pompeu de Toledo. Só que quando saiu o terceiro gol do São Paulo, preocupado com o retorno pra casa e com os ouvidos do meu chefe, que já aparentava algum cansaço de ouvir "argentino viado" e congêneres, sugeri irmos saindo. No caminho até um carro um flanelinha veio rindo todo feliz pra gente dizer que "tinham prendido o argentino".

Na hora achei que se tratava de um delegado querendo aparecer. Botar lenha na rivalidade com a Argentina não tem nada de saudável, pensei, porque esse negócio de richa de vizinho, de raça, do que quer que seja, é a coisa mais babaca que o ser humano é capaz de estimular, acariciar e perenizar. Depois foi que me inteirei dos detalhes e vi o fator Galvão. Galvão Bueno fez com que a leve pisada na linha não fosse vista só por um, mas por milhões, aí não dava pra ignorar a coisa, que talvez fosse o melhor.

O fato puro e simples é que nossa legislação é avançada nesse ponto. Aqui, racismo é crime. O campo não é um retângulo acima ou fora da lei, como os Edmundos da vida tentam fazer entender, justificando as maiores barbaridades com coisas estúpidas do time "calor do momento", "fortes emoções" e afins.

Quando o assunto é cumprir ou não cumprir uma lei, ainda mais sendo ela justa, oportuna e útil, como é a que pecha de hediondo o crime de racismo (embora no caso o fato tenha sido tipificado como injúria agravada de racismo, o que ameniza a situação), não dá pra fazer que não se viu. Isso é perpetuar a ignorância.

Deixem que nos chamem de macacos lá na terra deles. Essa identificação com nações civilizadas eu dispenso.

* * * * * *

Quanto ao mais, ver meu chefe, hincha de Boca, cantando o hino do tricolor e fazendo a ola, mas falando baixo pra ninguém notar o portunhol inescondível, tudo isso recheado de três gols, cara, isso não tem preço. Para todas as outras coisas, eu não tenho Mastercard.

Posted by marcol at 1:08 PM | Comments (2)

abril 14, 2005

Justiça inda que à tarde

Justiça inda que à tarde

Certo dia Jeodabaque (que significa "aquele que rosqueia a porca com as duas mãos") carregava umas pranchas de sua marcenaria quando, ao sair pela porta, abalroou involutariamente a Otinisaque (que significa "minha dor de pescoço passou"). Otinisaque veio a perder um dente por conta da pancada.

- Mil perdões, querido Otinisaque! disse Jeodabaque.
- Não fique embaraçado, irmão Jeobadaque. Mas, você sabe o que diz a lei...
- Claro, claro, irmão. Olho por olho...
- Dente por dente!
- Sim. Como faremos?
- Talvez eu possa acertar sua boca com esse toco de pau aqui...
- Boa idéia! Fique à vontade.
POW
- Obrigado, irmão, agora a justiça foi feita e podemos nos separar em paz.
- Echpere - Jeodabaque tinha a boca cheia de sangue - Lamentavelmente, irmão, seu golpe tirou-me foram três dentes! Você me deve dois, portanto...
- Oh!
- Sim, e você sabe o que diz a lei, não podemos simplesmente passar por cima dela!
- Claro! Claro! Tome aqui o porrete.
POW
- Quantos?
- Lamento - cuspindo o sangue - sua força foi demasiada e arrancou-me quatro dentes, e não apenas dois!
POW
- E agora, irmão? Terão sido atendidos os reclamos da lei, desta feita?
- Oh, nobre irmão, lamento, mas além de essa pancada haver-me arrancado todos os dentes, essa ferpa acabou por cegar-me do olho esquerdo.
- Puxa irmão, esse olho era tão belo! Mas... a lei! A lei! Vamos a ela!

Moral edificante: olho por olho e todos ficaremos cegos.

Posted by marcol at 3:05 PM | Comments (4)

abril 12, 2005

História Fiz meu então chamado

História

Fiz meu então chamado segundo grau no então chamado Instituto Adventista de Ensino. Hoje ele se chama Centro Universitário Adventista de São Paulo, mas se você falar Unasp ele olha, sem frescuras. Apesar de me haver formado há quinze anos (catzo!) nunca desatei os nós com a instituição. Cantei em corais lá um bom tempo e hoje em dia me limito a visitá-la aos sábados, já que sou membro da igreja que congrega ali.

Pois bem, o dito cujo está completando 90 anos de existência. Vão fazer um programa musical (música é o forte do lugar) para comemorar a data e me pediram pra revisar os textos. Me diverti de montes fazendo a coisa, porque mergulhei na riquíssima história desse solo e descobri coisas que nem imaginava.

Que, por exemplo, o Unasp, então Colégio Adventista, foi invadido pelo exército brasileiro em 1917, já que um jornal paulistano publicou artigo defendendo a teoria de que o Colégio era na verdade uma base avançada dos alemães, então em guerra. Descobri que a estrada que liga São Paulo a Itapecerica da Serra foi cascalhada e teve seu traçado definido pelos alunos do Colégio, cansados de ficarem ilhados a cada temporada de chuvas. Descobri que foi o excedente da produção da fazenda do colégio que criou a Superbom, a fábrica de alimentos naturais adventista. Aliás, o nome Superbom foi dado por ninguém menos que Getúlio Vargas, que ao provar do famoso suco de uva do colégio disse que era - dãr - super bom. Tem a história do casal de missionários que em 37 voltou do Araguaia com um filhote de anta, que cresceu, chegou a quase 200 quilos e passeava pelos dormitórios do internato como se fosse um gato. Na época da segunda guerra a coisa apertou e vários professores foram presos graças a sermões mal interpretados ou simplesmente por terem ascedência alemã ou japonesa.

Eu sou a quinta geração de alunos dali. Meu filho, que já estuda musicalização infantil lá, é a sexta. No entanto, não sabemos nada sobre o que nos cerca. O passado ainda é um borrão, umas fotos amareladas em paredes cada vez menos visitadas. Só recuperei esse naco da história porque há no Unasp um professor de história obcecado pela memória da instituição. Temos sorte de tê-lo e ainda é muito, muito pouco.

Fiquei pensando em quanta coisa deste país está relegado ao silêncio pela falta de quem reúna os papéis e conte as histórias. Falta a este país, sem dúvida alguma, quem conte as histórias.

Posted by marcol at 2:22 PM | Comments (5)

abril 8, 2005

Roteiros magníficos para filmes nem

Roteiros magníficos para filmes nem tanto

Hoje vamos apresentar um filme bem Supercine, baseado em fatos irreais
Roteiro 2. Título: A FORÇA DE UMA MULHER DETERMINADA
sinopse: mulher atormentada por um segredo do passado decide mudar-se para o Rio de Janeiro e recomeçar a vida. Ela não imagina que lá seria obrigada a encarar o seu passado e a fazer uma terrível escolha!


Emilene Flávia está assistindo à formatura de seu namorado, Asdrúbal Marcelino e ele se levanta para fazer o discurso dos formandos. Asdrúbal fala alguns lugares-comuns sobre a vitória que aquele dia representava para todos, faz umas piadas sem graça sobre a forma física de um colega gordão, todos riem. Aí ele fica sério e diz que nada daquilo teria sido possível para ele não fosse o amor que sentia por Emilene Flávia. Então ele pega o microfone na mão e faz um sinal pra orquestra, que começa a tocar "meu iaiá meu iôiô". Ele canta, todos se levantam e começam a bater palmas no ritmo da música. Emilene Flávia ruboriza, quer esconder-se, mas ri, se levanta e começa a bater palmas também. Quando a música termina, Asdrúbal Marcelino diz:
-Emilene Flávia, este é o momento para fazer a pergunta mais importante que eu já fiz na minha vida: quer casar comigo?
Todos batem palmas, ela começa a chorar, os formandos pegam-no sobre os ombros e o levam até onde ela está, eles se beijam e ela diz Sim, eu quero!

Oito anos depois...

Emilene Flávia se despede com um beijo de Asdrúbal Marcelino, que está saindo para trabalhar. Antes de sair ele diz que a ama mais que nunca. Ela começa a cuidar dos três filhos, quando o telefone toca. Ela atende. Diz: o quê!? Faz uma cara de choque e então começa a chorar.

A cena seguinte é no cemitério. Todos de preto chorando e um tocador de gaita-de-foles entoa "meu iaiá meu iôiô".

Seguem-se cenas em que Emilene Flávia dá uma de revoltada, quer largar tudo, desistir de viver, mas seu filhinho caçula, o pequeno Asdrúbal Filho, diz:
- Mamãe, nós precisamos ser fortes!
Então ela enxuga as lágrimas e bola pra frente!

Procura emprego, procura uma creche pros filhos e luta bravamente para criar seus três filhos. Aparece um novo amor, mas Renato Renan não gosta de crianças e pede que Emilene Flávia as abandone para ficar com ele. Ela diz: nunca!

Então ela é sequestrada por guerrilheiros das FARC e levada à Colômbia. O policial durão Carlos Bronson jura libertá-la e começa uma implacável perseguição pelo sertão goiano. Sangue pra todo lado, até que Carlos Broson consegue salvar Emilene Flávia e pega um avião para voltar, mas o avião tem uma bomba que explodirá caso ele diminua a velocidade. Nesse momento Renato Renan aparece do nada e diz haver reconsiderado sua opinião sobre crianças e pedindo uma segunda chance. O avião onde estão é abduzido por um disco voador e Emilene Flávia não sabe o que dizer, está muito confusa. Carlos Bronson admite ter AIDS e começa a narrar todo o drama de sua existência e o preconceito da sociedade hipócrita. O disco voador aterrisa em São Paulo, na Marginal do Rio Pinheiros, todos descem cantando "We are the world" mas são atropelados por uma jamanta desgovernada.

Fim.

* * * * * * * *

Os Céus conspiram contra o enterro de Ernestinho e Suas Mulatas Besuntadas. Tentei duas vezes postar o último capítulo de Persela, a Vesga, para que o blog enfim descanse em paz, mas o Blogger, embora libere meu log in, não exibe o link para eu editar o Ernestinho, pobrezinho. Está em estado vegetativo há menos tempo que Terri Schiavo, mas o precedente me anima a ingressar com uma demanda para que ele enfim tenha uma morte digna.

Posted by marcol at 9:06 AM | Comments (4)

abril 5, 2005

O Diário de Macondo -

O Diário de Macondo - 5ª parte

Para ser absolutamente fiel à real cronologia dos fatos que estou inventando, preciso consignar que foi só na terceira noite que passou à frente do endereço anotado no post it que ele acabou tocando a campainha. Nos dias anteriores parava ali, do outro lado da rua, sob uma árvore, e ficava olhando as janelas do pequeno prédio da rua tranqüila em que deveria morar a autora dos Diários de Macondo. Se fumasse, fumaria. Mas não. Cruzava os braços e admirava a fachada, especialmente a janela do segundo andar que se acendia sempre às 07h45 e se apagava às 22h30. Calculava que ali deveria estar o apartamento número 22.

Ele não se perguntava se era saudável fazer o que estava fazendo. Tinha uma distante consciência do insólito de sua atitude e mesmo algum medo de si mesmo, mas uma frase do diário de Macondo reboava intermitente em sua mente: "Vou seguir meu faro." E ele repetia de si para si. Seguia o faro. Aquela janela. Mas ninguém assomava a ela para olhar a rua, nada e as pessoas que entravam e saíam do prédio ele espreitava com atenção. Poucas mulheres jovens. Nenhuma delas com a imagem interna que já tinha de sua antecessora no posto.

Na terceira noite, precisamente às 21h20, tocou a campainha do interfone.

- Sim?

Ele hesitou. Tentava passar a voz metalizada que proferira aquele monossílabo por um laboratório imaginário, na busca do rosto. Antes que ficasse esquisita a demora, contudo, respondeu.

- Boa noite. Por favor, é aqui que mora... - fazia de conta que não tinha o nome decorado - Janice Pessuto Gambini?

- Um momento - poucos instantes depois ele ouviu chamarem-no da janela que estivera contemplando tanto tempo. Olhou com quase sofreguidão, mas, debruçada sobre o parapeito, viu uma mulher rechonchuda de seus 46 anos. Praticamente um hemisfério inteiro distante de Macondo - o senhor precisa falar com a Janice?

- Isso - respondeu aliviado.

- Ela não mora mais aqui. Eu estou na casa há um mês e meio, já.

- A senhora tem o endereço novo dela?

- Só sei que ela foi para uma cidade acho que do interior. Marimbondo.

- Macondo! - ele ouviu uma voz de homem corrigi-la de dentro do apartamento.

- Isso, Macondo. Ela deve ter parentes lá, porque deixou o apartamento todo mobiliado para a gente.

Na confusão que tomou conta da mente dele, só conseguiu perguntar:

- Ela... parecia triste?

- Triste? Não achei não. Pra ser sincera ela era bem indecifrável. E, por outro lado, eu estava muito empolgada com o apartamento. Conseguimos comprar à vista, veja você.

De dentro da casa veio outro grito:

- Pára de conversar com estranho, Gisela, pô! Vai dar detalhe pra ele de tudo?

A mulher fez um gesto com os ombros e alçando as sobrancelhas, despediu-se e fechou as cortinas de volta.

Posted by marcol at 9:35 AM | Comments (4)

abril 4, 2005

Actualidades Tenho a favor de

Actualidades

Tenho a favor de Karol Wojtila a coragem de manter opiniões impopulares em favor de algo maior, que é uma convicção profunda em matéria de consciência. Tenho contra ele um certo apreço protocolar pelo lugar-comum nas manifestações públicas, notadamente as últimas. Nos bastidores, contudo, costurou coisas gigantescas, como o final da guerra fria e o colapso do regime ateísta por definição.

A ICAR, contudo, parece perder seu poder de fogo, embora continue crescendo, porque a população cresce e religião é coisa que em regra passa de pai para filho. Como mostrar relevância na era das luzes que o último pontífice inclusive incensou demasiadamente, relativizando a Bíblia em favor de leituras pseudo-científicas passíveis de serem desmentidas a qualquer momento, é um desafio para o próximo sumo padre. A batata quente vai assar assim que a fumacinha branca sair de cima da capela Sistina e tenho certeza que uma pá de gente gostaria de carregá-la.

* * * * * * * *

Enquanto isso, bem longe dali, uma verdadeira barbárie acontece no Rio de Janeiro. 30 mortos. Policiais. Esquadrão da Morte. Mas ninguém tá nem aí. Nem tchuns. Só se fala em Karol.

* * * * * * * *

E eu sou campeão paulista de futebol. É a 20ª vez que meu time levanta o caneco e a primeira em que leva um campeonato decente desde o Rio-São Paulo que revelou Kaká, em 2001. Entenda, portanto, se meu espírito atual for mais de júbilo que de consternação e velório.

* * * * * * * *

Uma curta, pra terminar:

"Na avaliação anual, ganhou um aumentinho e dois elogios do chefe. Passou então a levar-se a sério e foi o seu fim."

Posted by marcol at 2:02 PM | Comments (1)