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março 30, 2005
O Diário de Macondo -
O Diário de Macondo - 4ª parte
Para ser fiel a sua natureza tendente à sutileza extrema, iniciou um longo processo que envolvia, por um lado, aproximação com a menina do RH, com o intuito de levantar informações sobre a autora do Diário de Macondo e, por outro lado, coleta da maior quantidade de dados sobre ela que pudesse tirar dos demais colegas sem levantar nenhum tipo de desconfiança.
Foi assim que descobriu que ela tinha alguns interessantes predicados profissionais. Inglês fluente, diploma em administração de empresas pela USP, uma pós-graduação iniciada no Ibmec. Conseguiu inclusive um depoimento sobre sua aparência física e sobre sua personalidade. Nem bonita nem feia, um tanto retraída, de difícil entrosamento, foi o que disseram. Numa palavra: incógnita.
Ela escrevia, no arquivo nominado como 25/03:
"Os habitantes de Macondo são pálidas sombras de um manequim - aqueles sem rosto. Manequins não comunicam. Sombras não experimentam encontros. Não há troca substanciosa de interioridades. Os habitanets de Macondo espelham nos olhos minha própria incapacidade de auto-definição. Não me entendem e se também sou incapaz de o fazer, não chega a admirar. A diferença é que isso não os incomoda. Andorinha lá fora diz 'passei o dia à toa, à toa'. E também: uma vida sem comunicação não vale a pena de ser vivida".
Mas o maior progresso que ele fez foi, sob o pretexto de perguntar um detalhe técnico de um contrato, conseguir com a menina do RH o endereço dela. Ficou ali, em um post it, grudado na parede de sua baia, durante doze dias. No décimo terceiro ele terminou o que havia para fazer um pouco antes do normal, desligou o computador, guardou os objetos pessoais e, num gesto exteriormente banal e sem grandes significados, descolou o post it, olhou-o mais uma vez (embore tivesse o conteúdo de cor na cabeça) e saiu. ]
Enquanto o elevador descia, fazia cálculos sobre o caminho que faria e quanto tempo levaria para estar naquele endereço.
Posted by marcol at 4:42 PM | Comments (5)
março 29, 2005
Pascoalina Ontem no fim da
Pascoalina
Ontem no fim da tarde, cumpadre B.M. me chamou a atenção pra uma iniciativa sua a que chamou Operação Ovo de Páscoa. A idéia era pedir a vários blogueiros de diversas colorações religiosas e ideológicas que escrevessem sobre a páscoa em seus blogs. Ele, a partir do seu, centralizaria indicações para os diversos posts.
Eu não poderia participar por só tomar conhecimento agora e também porque semana passada estava de férias, a milhas e milhas da blogosfera, mas ele me instou a escrever mesmo que atrasado. Nem precisou muito latim, adoro o tema e por isso postergo pra amanhã a prometida continuação do Diário de Macondo. Se você não agüenta mais esse papo pascal, prometo tentar fugir do lugar comum e acrescentar informações raramente abordadas sobre a origem da festa.
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Operação Ovo de Páscoa
Os hebreus eram escravos no Egito havia já 400 anos quando Moisés apareceu e intimou o Faraó a deixar o povo ir. O cabeça-dura respondeu não e repetiu a resposta mesmo após cada uma das nove terríveis pragas que caíram sobre o país na seqüência. Restava uma última. Moisés avisou, o Faraó fez um muxoxo e disse não, nem que a vaca tussa.
O recado de Deus era o seguinte: no dia 14 daquele mês cada primogênito (o primeiro filho da prole), seja de homem ou de animal, morreria à meia-noite. Mas nada de pânico, para que o anjo de Deus passasse por cima da casa e não matasse ninguém (páscoa significa justamente "passar por cima")bastaria que o pai da família, mesmo egípcio, separasse quatro dias antes um cordeiro sem defeito. No cair da noite do dia 14, teria que matar o bichinho, tirar seu sangue e o assar. O sangue deveria ser pincelado nos batentes da porta da casa. Aí todo mundo tinha que comer o cordeiro já preparado para sair.
Depois da meia-noite, então, em meio aos gritos de angústia de toda a nação que descobriu seus filhos mortos e com o próprio filho mais velho morto nos braços, pressionado pelo clamor popular, o Faraó enfim liberou o povo hebreu para ir embora. Aquela libertação fantástica, com mais o que se seguiu (Mar Vermelho se abrindo, etc) passaram a ser comemorados todo ano, integrando o calendário hebreu como a mais importante das sete festas rituais.
A Páscoa sempre foi entendida como uma figura de linguagem de Deus que metaforizava belamente a libertação de cada ser humano da escravidão do pecado. Assim, a páscoa apontava a uma libertação passada no Egito e a uma futura, quando o Messias viesse. Vindo o Messias, portanto, a páscoa perde a razão de ser.
"Jesus Cristo, páscoa nossa" diz a Bíblia, de modo que não há mais sentido em comemorar a páscoa em si, embora católicos gostem de comemorar morte e ressurreição de Cristo com a semana santa, que, aliás, não coincide com a data da páscoa judia, que foi quando Jesus foi morto de fato. Cristo substituiu a matança de cordeiros e tudo o mais que a data envolvia pelo ritual da santa ceia, ou santa comunhão, que é praticada com mais freqüência do que eu entendo necessária por boa parte da cristandade, banalizando um pouco o rito.
Toda essa recordação da história da páscoa, além de jogar ovos, chocolates e coelhos no campo dos enxertos exóticos, me ajuda a entender o mais importante da páscoa, embore eu não a comemore junto da massa, pelas razões já expostas. E o mais importante é isto: para quem vivia no Egito à época da primeira páscoa, não importava apenas haver matado um cordeiro sem defeito (como sem defeito, ou pecado, era Cristo). Ele precisava colocar o sangue na porta, do lado de fora, onde todo mundo pudesse ver.
Da mesma forma, para mim e para você pouco importa haja o Cordeiro de Deus sido morto há coisa de quase 2000 anos. É preciso fazer uma aplicação pessoal daquele sangue, tomá-lo com as mãos e pincelar as portas, onde todos possam ver. É preciso aceitar.
Importante é saber que por trás dos ritos frios há profundidades que precisam ser sondadas.
Posted by marcol at 9:22 AM | Comments (2)
março 28, 2005
Espreguiçando, estralando os dedos, dando
Espreguiçando, estralando os dedos, dando uma coçadinha furtiva na barriga e tornando à ativa. Vamos à luta, filhos da pátria!
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A última semana tirei o restinho das férias que inda tinha. Fiz coisas hediondas, tais como visitar antros do calibre de uma rua 25 de março ou de uma josé paulino, além de metade dos shopping centers da cidade. Por aí se vê que estive de motorista de madame. Não fosse a madame, a semana teria sido horripilante, veja você.
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Agora há pouco saiu daqui um fotógrafo do jornal Valor Econômico. Veio fotografar a mim, moi mesmo, yeah, eu. Disse que vai sair uma matéria sobre blogs. Ninguém me entrevistou, ninguém me perguntou sobre o protocolo de Kyoto, sobre o que eu penso a respeito das orgias de baleias sob o gelo da Antártida nem sobre o Robinho na seleção, apenas vieram, tiraram uma foto e foram embora. Foram embora antes que eu pudesse dizer: hein? Só deu tempo de pedir pra usarem a última versão do photoshop.
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Com tanto tempo pra refletir e pensar e meditar e elucubrar, até tenho uma sugerência de continuacência do Diário de Macondo. A despeito de você não ter dado nenhum pitaco, bá. Só não mando hoje a dita cuja porque me senti na obrigação de dar uma satisfação para essa imensa massa de leitores que congestiona os servidores do verbeat.com.br todo santo dia atrás de minhas lustrosas e luzentes palavras. Satisfação dada, amanhã Macondeamos.
Posted by marcol at 4:05 PM | Comments (3)
março 21, 2005
Você sabe que a fervura
Você sabe que a fervura tá braba quando percebe que só consegue passar no seu blogue pra se desculpar pelo sumiço.
Pois é, a semana passada prometia ser enrolada, mas eu não esperava tanto. Saí de São Paulo pra Salvador com uma única camisa na pasta, pra voltar rapidinho, mas bateu um vento alísio que me levou a João Pessoa. Essa eu ainda não conhecia, por parível que encreça. Tive que comprar uma roupa qualquer nas C&As e Riachuelos da vida (budget maledetto), além de aparelho de barba e conexos. Só voltei, então, na tarde da sexta-feira.
Pra não dizer que não falei de flores, tive um tempinho pra visitar a piscina do hotel e outro, à noite, pra ver Menina de Ouro. Risadas e lágrimas.
João Pessoa é uma cidade relativamente pequena, de litoral bonito mas não esplendoroso, tanto quanto pude verificar. Meu quebra-cabeças de Brasil está um poucochinho mais completo, de qualquer forma.
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Vale menção a revista Brasil - Almanaque de Cultura Popular, que circula dentro das naves da TAM. É editorada pelo excelente artista plástico Elifas Andreato e à primeira vista parece desinteressante, porque não tem fotos de bundas nem de stars hollywoodianas, mas, em lugar disso, histórias de pioneiros de empresas centenárias, personalidades obscuras, curiosidades folclóricas.
A última edição traz pequenos textos sobre coisas como o filme A Queda, de Ruy Guerra, a potiguar Nísia Floresta, uma erudita e talvez a primeira feminista brasileira (que eu já conhecia graças a sua conterrânea, a blogueira Lux Dantas), os Tuaregues da Chapada Diamantina (um grupo de voluntários que combatem incêndios), a história do Circo Nerino, uma entrevista com Paulo Autran e outras coisas sobre as quais você não vai ouvir falar em mais lugar algum.
Esses olhares alternativos sobre a realidade da nossa volta são sempre muito interessantes.
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Contra peste, moléstia, crime, que tal a entrevista de Neo Son da Praia, ops, Ao Mirante, Nelson, consigo mesmo?
Posted by marcol at 5:42 PM | Comments (6)
março 14, 2005
Pois sim. É que passei
Pois sim. É que passei uma semaninha ali em Ubatuba.
Meus primeiros 21 natais e reveillons foram todos passados numa mesma certa praia de Ubatuba, acampando em barraca com meus pais e irmãos. Logo, você há de entender que aquela baía é uma espécie de santuário para mim. Li Ana Karenina enquanto espremia as espinhas do rosto olhando para ela. Vivi os momentos de crise com auto-imagem e uma infinidade de amores fugazes ouvindo a mesma cantilena do mesmo mar. Mergulhei naquela água infindáveis vezes e naquelas areias tomei decisões que talharam os caminhos até hoje.
Você há de entender ou pelo menos imaginar o que foi tornar a esse palco agora com meu filho nos braços e minha esposa ao lado.
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Até o domingo anterior à viagem, chovia. Na segunda posterior ao retorno, chove. Lá, não peguei uma única gota de chuva. Já falei para o meu Deus que assim eu fico mimado. Na única semana de férias do ano, aproveitamento de 100 por cento! Puemba.
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A música da semana foi Festa no Apê, que meu sogro fez o favor de ensinar ao Eduardo. Ele não parou de cantar a música o tempo todo, e nós por tabela, porque coisa ruim gruda nas idéias. O detalhe é que para o Dudu, o verso "vai rolar bunda lelê" não faz muito sentido, assim, ele o trocava por "vai rolar bolo e docinho", que, isso sim, são coisas que rolam em festas decentes.
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Quanto ao Diário de Macondo, aguardem uma continuação bombástica. Claro, isso tão logo eu pense em algo minimamente interessante. Sugestões?
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Tanto mar de verde transparente, tanto sol e tanto azul celeste, mas confesso que deu saudade disso aqui. Aiai.
Posted by marcol at 12:16 PM | Comments (7)