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fevereiro 14, 2005

Subconto ba now Isso costumava

Subconto ba now

Isso costumava acontecer sempre ali pela metade da terceira hora da festa. O ruído constante das crianças, a proximidade com os pais estressados, o ter de abaixar oitocentas vezes para pegar as bolinhas que saíam da piscina e colocá-las de volta e para tirar as crianças que entravam e saíam sem parar, o choro das que se machucavam, tudo junto, aquilo a fazia entrar num tipo de catarse que já fora objeto de olhares duros por parte da gerente. Ela meio que se desligava, prendia os olhos num ponto qualquer e flanava tranqüila por entre lírios ao som do Br'Oz ou de qualquer outra coisa que ela tivesse escutado pela manhã.

- Um tubarão mordeu o meu pé.

A imagem da menina gorducha de óculos, sorrindo enquanto falava, custou a ser decodificada pelo cérebro. Ela só conseguiu formular um

- Que?

- Um tubarão mordeu o meu pé. É que eu estava com um machucadinho com um pouco de sangue, aí ele sentiu o cheiro, veio e comeu o meu pé.

A menina sorria esquisito.

- Tá. Você quer sair?

A guria fez que sim, então ela a tomou pelos braços e a levantou da piscina de bolinhas. Mas o pé direto da menina de fato havia sido comido, estava jorrando sangue. Ela olhou para dentro e ainda viu a barbatana do tubarão afundando entre as bolinhas coloridas. A menina, contudo, não parava de sorrir aquele sorriso estranho.

* * * * * *

Todo buffet infantil é um limbo espaço-tempo, uma porta dimensional que leva as crianças ao paraíso das jujubas-free-coma-até-cair-de-preferência-junto-com-a-mini-pizza ao mesmo tempo que manda seus pais para uma zona sombria de flagelos e suplícios inexprimíveis.

* * * * * *

Cambiando de assunto, sei que ela escreve uma vez por mês, só, mas o blog da Luciana Dantas Teixeira mereceria ser descoberto. Essa potiguar é uma das mais inventivas e melhores escritoras que eu conheço. Falando de banalidades, da história da sua terra, de suas paixões (entre as quais a música erudita, que eu confesso não entender) ou escrevendo ficção, a menina desfila uma verve apuradíssima. Uma das minhas alegrias e orgulhos é ter editorado com ela o extinto fanzine COMverSOS. Eu que você ia lá. Aí você pode dizer que foi por aqui que foi pra lá.

Posted by marcol at fevereiro 14, 2005 8:56 AM

Comments

Sinto falta da galera do ComVersos...

Posted by: Caju Azedo at fevereiro 26, 2005 12:42 AM

Eu!, eu! eu! :-
Eu li muito o comVERsos (veja a diferença);-)
E vou jálá conhecer.
Bem esquisito (e por isso, bom, muito bom) o conto da menina e o tubarão, o que ele terá feito nela além de comer o pé dela, não é?
Gostei muito.
Beijo ah e não é subconto - o que é um subconto, hã?
Interessante.
M.

Posted by: Meg (sub rosa) at fevereiro 20, 2005 12:08 AM

Ô Marcão, quando é que você vai fazer o devido lobby para trazer o blog da Luciana para o Verbeat e FINALMENTE hospedá-lo em um servidor mais decente que o Weblogger? Acho que é só isso que falta para que o Órbita receba o devido reconhecimento da blogosfera.

Posted by: Inagaki at fevereiro 15, 2005 10:46 PM

O segundo tópico foi uma legítima aula de educação física quântica.

Posted by: Nelson Moraes at fevereiro 15, 2005 4:36 PM

Antes que um tubarão lance mão do meu pé, vou conhecer a Lu. Afinal, dizem que a música clássica é minha especialidade. Abraço.

Posted by: Milton Ribeiro at fevereiro 14, 2005 4:02 PM

Pois é.Foi. Existe, aparentemente, vida após o fim dos tempos, Tiagón.

Posted by: Marco Aurelio Brasil at fevereiro 14, 2005 3:25 PM

Buffet infantil??? Socorro. Isso é provavelmente o fim dos tempos.

Posted by: tiagón at fevereiro 14, 2005 1:53 PM

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