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fevereiro 28, 2005
O Diário de Macondo -
O Diário de Macondo - 3a parte
Fugir para Macondo era quase compulsivo, mas a razão prevalecia: se passasse as horas todas lendo os registros profundos, perspicazes e cheios de lirismo que tinha em seu HD, não sossegando até haver revirado todos os arquivos, seu desempenho profissional estaria comprometido.
Valia-se, então, do Diário de Macondo como uma válvula de escape, abrindo um a cada duas, três horas, para descansar um pouco a cabeça da enxurrada de números e siglas que tinha que manipular. Difícil era retomar o trabalho depois.
Foi no arquivo 09/09 que anteviu pela primeira vez uma revelação muito agradável. Leu: "a soma das coisas mágicas que vivi - o luar estupidamente redondo da mata de Itu, as canções ao lado da fogueira em Mauá, o primeiro passo do Mateus, as cartas do tio Afrânio, a visão aérea de São Paulo ao por-do-sol, assistir à Liberdade é Azul naquela tarde de domingo oca, o mergulho no mar azul de Ubatuba por entre o cardume prateado, vendo as bolhas subindo para longe de mim - formam um patrimônio que não faz sentido morrer no silêncio. É como se a partilha fosse um imperativo, porque o que é belo PRECISA ser dividido. Nisso me fio. Respiro o ar de Macondo com a languidez da futura resgatada."
Não se tratava de um antecessor, mas de uma antecessora. Fora, decerto, um deslize que provocara a revelação, ela buscava uma forma de impessoalidade nas coisas estritamente pessoais que escrevia, como se assinasse seu diário que ninguém leria com um pseudônimo. Confirmou a informação com os colegas, sutilmente, para não despertar desconfiança. Seu nome era Alice, com fama de indevassável, calada ao extremo, aparentemente incapaz do menor contato social com os colegas de Macondo. Ou melhor, de escritório.
Falando com um e com outro e avançando na leitura do Diário de Macondo ele foi montando um quebra-cabeças, compondo na mente a personalidade complexa e insuspeitadamente rica de Alice. Dava-lhe uma forma física cambiante: por vezes uma mulher cheia e de meia idade, por vezes uma garota de óculos enormes e dentes saltados. Aí tinha mesmo que arriscar, porque não ousava perguntar a ninguém sobre o aspecto físico dela. Preferia imaginar.
Na terceira semana de trabalho imaginava mais amiúde. E além: imaginava como seria quando a encontrasse. Porque não tinha dúvidas de que a encontraria.
- continua, ainda
Posted by marcol at fevereiro 28, 2005 4:21 PM
Comments
Marco!!!
Contate-me. Preciso so seu telefone para contato com a Editora, sobre o BdP. Ah! Você já passou pra Alê? Tudo bem. Não? então mande para um de nós por favor....
Estou sentindo sua falta no BdP...
Baitabraço.
Posted by: Nelson Natalino at março 11, 2005 2:31 PM
Continue
vim, li e quero mais
beijos
Maria Odila
Posted by: Maria Odila at março 11, 2005 10:16 AM
Brilliant doesn´t begin to describe it, dude. Continua, continua!
Posted by: Nelson Moraes at março 10, 2005 9:29 AM
"Mais Macondo, mais Macondo, mais Macondo...", é o que berra a tribo de leitores afronipoindocaucasobrazucas desse folhetim românticorporativo...
"Mais Macondo, mais Macondo, mais Macondo..."
Posted by: tiaguinho at março 7, 2005 1:53 PM
Mulher, cher Marcão?
- Aí vem revelações inesperadas...Aguardo, ansioso, como o velho leitor dos folhetins. Amitiés, BetoQ.
P.S.: Depois me diz o que achou do Tennyson que está lá no meu sítio, s.v.p. (AQ).
Posted by: Zadig at março 5, 2005 6:07 PM
Ai, não pára não. Ih, isso soou um pouco ambíguo, não? Mas esse seriado tá é muito bom. Tem um continho no Umbigo do Sonho, o livro, que fala de alguma coisa próxima disso, mas nem chega perto. Pra começar, não é seriado. Até a próxima, um beijo.
Posted by: adelaide amorim at março 4, 2005 11:36 PM
Que posso fazer? Novamente influenciado por Macondo, comecei uma história em capítulos. Depois de te ler, deu vontade, só isso.
Posted by: Milton Ribeiro at março 4, 2005 11:20 AM
Interessante, cada vez mais.
Posted by: b.m. at março 3, 2005 11:35 PM
Não páre em hipótese alguma. A idéia de montar Alice a partir de um HD "herdado" é linda. E o texto está limpo, fluido, bonito, bem-humorado. Difícil retornar ao trabalho depois disto. Grande abraço.
Posted by: Milton Ribeiro at março 2, 2005 9:10 AM