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fevereiro 24, 2005

O Diário de Macondo, 2a

O Diário de Macondo, 2a parte

Percebeu que iria acabar abrindo o "Diário de Macondo" quando o rapaz do suporte de tecnologia passou pela mesa e perguntou se estava tudo bem com o micro. Ele se apressou a responder que sim, estava, com medo de que o cara resolvesse parar e dar uma olhada no computador.

Esperou o final do dia. Durante o almoço com os novos colegas, tentava disfarçar a inquietação e a ansiedade, fazendo um esforço sobre-humano para parecer simpático e para emplacar duas ou três piadas. A conversa era a mesma. A mesma dos seus antigos tempos de empregado em grandes corporações e aquelas pessoas eram as mesmas com quem ele se relacionara profissionalmente de forma tão estéril por tantos anos, apenas atendiam por nomes diferentes.

Aquele Diário de Macondo, contudo, o fazia sentir o cheiro da livraria que ele abrira em Pinheiros e que perdera para credores. Era um cheiro muito, muito bom. Cheiro de liberdade com cultura, cujas reminiscências doíam bem fundo. E ele queria senti-lo de novo.

Afetando vontade de impressionar os chefes logo no primeiro dia, foi ficando enquanto os outros empregados iam dizendo até amanhã e saindo. Quando o estocar frenético dos teclados era um balido esquálido de duas ou três máquinas apenas, sentiu-se seguro. Abriu o Diário de Macondo.

Havia ali uma série de pastas nomeadas com datas. Parecia mesmo um diário, disposto cada página/dia em um arquivo diferente. Sentindo já que fingir para si mesmo indiferença e respeito pela privacidade alheia era inútil, não hesitou e abriu um daqueles arquivos aleatoriamente. Leu:

"13/05. Às vezes, por exemplo, dá vontade de cantar. Sair cantando por essas baias. Qualquer coisa. Cole Porter. Adriana Calcanhoto. Megadeth. Qualquer coisa. Ver o espanto nos rostos deles. Às vezes sonho que eles pasmam durante alguns instantes, então entendem. Entendem e sorriem e uma história nova se escreve em Macondo. Olho pela janela e um velho barco viking todo colorido passa, acenando para mim. Queria ter a resposta para esta pergunta: é preciso abdicar ao sonho?"

O cheiro da sua livraria invadiu as narinas com uma violência insuspeitada. Ali, no meio do deserto, havia uma flor e ele não entendia o que isso poderia significar. Para saber, abriu outro arquivo.

- continua, se um avião não bater neste prédio

Posted by marcol at fevereiro 24, 2005 12:57 PM

Comments

Se for pra lagar o sonho, que graça isso tudo tem? Quem dera eu tivesse coragem de sair assim, dançando. Qualquer coisa.

Posted by: b.m. at fevereiro 28, 2005 2:07 PM

Deve ser a tremenda dor de barriga que tive ontem, mas ao terminar de ler o texto fiquei imaginando um encontro de todos os seus personagens-continuados, como o aqui exposto, Persela, Maria de Awshivaov5678witz, e tantos outros. Deve ter sido a dor de barriga.

Posted by: Luciana at fevereiro 28, 2005 10:20 AM

Pois é... O mundo do trabalho e seus... Bem, ou a gente implode algumas coisas ou... Implodir por dentro de nós mesmos, claro... Ou sonhar... Mas, os sonhos parecem ser quase alienantes!

P.S.: Li que o Milton está de mudança para cá. E lá deixei a sugestão que a página inicial de vocês se torne um portal dos blogs q se hospedam aqui. Seria algo como ter o início dos textos mais recentes e, porque não, produções coletivas e de blogueiros convidados. Seria muito bom.

Posted by: RMax at fevereiro 26, 2005 1:10 PM

Mon cher MARCAO,
Sonho, sonho, em meio à rotina comercial, sou eu o sócio desse cara que perdeu a livraria para os credores, mas continuamos sonhando e cantando em voz baixa (ou apenas solfejando baixinho um Mozart no Real tocador), porque acreditamos no sonho... Muito bom, mon frère: "...era um balido esquálido de duas ou três máquinas..." e em meio a esse ruidozinho, o furor de um barco viking ou de uma melodia de Cole Porter. Magnifique!
Amitiés,
Zadig

Posted by: Zadig at fevereiro 25, 2005 9:18 AM

Mandaremos todos os aviões para Pasárgada, onde os pilotos são amigos do rei, a fim de evitar a abrupta interrupção desse diário.

Posted by: Renato K. at fevereiro 25, 2005 8:47 AM

História boa, Marco Aurélio. Milton tem razão: é uma opção bem interessante para o blog. Aguardo continuação,viu? Beijo.

Posted by: adelaide amorim at fevereiro 24, 2005 11:21 PM

Não! Nenhum avião não há de bater aí. Começaste bem a história, muito bem.

Um dia, poderíamos conversar sobre as histórias em capítulos nos blogs. Deveria haver um resumo ou uma forma de editar a história na sua ordem correta, para que a leitura não ficasse como tive que fazer agora, lendo primeiro o dia 22 e depois subindo para o 24.

Acho que logo logo vou ser teu colega na Verbeat.

Abraço.

Posted by: Milton Ribeiro at fevereiro 24, 2005 3:45 PM

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