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fevereiro 22, 2005

Ficções rasteiras - O Diário

Ficções rasteiras - O Diário de Macondo

Experimentou a cadeira com algum ceticismo, mas até que era boa. Tinha rodinhas. Olhou em volta, alguns no escritório ainda lhe sorriam por cima dos monitores dos computadores e ele pensava: potz, já não lembro o nome de ninguém. Havia acabado de ser apresentado. Havia, na verdade, acabado de ser reintroduzido nessa vida de empregado, da qual julgava-se libertado definitivamente quando abriu sua consultoria agora falida. Daí o bom humor fingido e aquele ceticismo mal disfarçado pra si mesmo.

Logo as saudações e votos de sucesso já se haviam desvanecido e só o barulho dos dedos nos teclados e da impressora, com um irritante sonido agudo na hora de expelir o papel, se faziam ouvir. Era hora, portanto, de ele também abaixar a cabeça e seguir o rumo da boiada.

Enquanto o outlook abria, resolveu escarafunchar o explorer e ver se a máquina estava limpa de fato - velho hábito. Não estava. Riu silenciosa e mordazmente. Os merdinhas não haviam sequer tomado o cuidado de limpar o HD do computador. Que falta de profissionalismo.

Seu antecessor naquela cadeira tinha uma impressionante produção. Passou os olhos pelos títulos dos arquivos: contratos, projetos, dezenas de cartas organizadas com códigos, artigos científicos, clippings, além de planilhas, apresentações em powerpoint, tabelas e gráficos.

Ao chegar ao fim da lista, tamborilou os dedos sobre a mesa um instante. O outlook já estava aberto, ele podia começar a trabalhar.

Moveu o cursor até o x no canto superior direito, que fecharia o explorer, mas hesitou um pouco. Lembrou de algo que havia visto de relance. Retornou até o começo da lista e confirmou: havia uma pasta nomeada como "Diário de Macondo".

Macondo? Macondo... sim, a cidade fictícia palco dos Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. Macondo não tinha absolutamente nada que ver com o dia-a-dia de um auditor interno. Diário, muito menos. Aquele corpo ali estava deslocado, introduzia uma violenta - posto que repentina - poesia em um lugar onde ela não deveria, por definição, existir.

O cursor dançou alguns instantes sobre a pasta, mas afastou-se de repente e abriu o outlook. Ele trataria de, durante todo o dia, esquecer os arquivos do seu predecessor. Mas não os eliminou da máquina, não, a essa idéia opôs uma racionalização qualquer. Limitou-se a conviver com eles como um velho marido que não fala mais com a esposa, embora habite a mesma casa. Fazendo força para afetar descaso. Um descaso sob o qual há um vulcão em insuspeita atividade.

- to be continued, I guess -

Posted by marcol at fevereiro 22, 2005 10:13 AM

Comments

Monsieur, Tem que continuar...
Impressionante o potencial desse courrier (ou série?)
Amitiés,
Zadig

Posted by: Zadig at fevereiro 23, 2005 11:31 AM

Sim... termina o texto! Já fiquei imaginando um mundo de continuações.. ehhe

Abraço!

Posted by: Gejfin at fevereiro 23, 2005 9:43 AM

Santos tem sol todos os dias da semana, intercalados por algumas chuvas de verão. Coisa de parar e esperar um pouco. E vê se termina esse texto que agora fiquei curioso a respeito do Diário de Macondo.

Posted by: b.m. at fevereiro 22, 2005 2:21 PM

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